Baseado no livro de mesmo nome de Fernanda de Castro Lima , o longa acompanha Gabi , interpretada pela carismática Any Gabrielly ( Habeas Corpus ), que precisa lidar com a morte da melhor amiga, Julia ( Giulia Be , Depois do Universo ), vítima de um acidente de carro. Antes de partir, a jovem, conhecida por sua energia e disposição para se jogar na vida, deixa dez cartas para Gabi , cada uma acompanhada de desafios que a incentivam a enfrentar a perda e seguir em frente. A proposta funciona quase como uma cartilha para atravessar o luto — um passo a passo que, embora simplifique um processo complexo, pode ser eficiente segundo o próprio diretor.
A jornada de luto é entrecortada por flashbacks em que Gabi conversa com uma Julia imaginária. Embora algumas cenas flertem com o exagero, elas funcionam ao traduzir a dificuldade da protagonista em aceitar a ausência da melhor amiga. A dor de Gabi , bem representada por Any Gabrielly , é palpável, mas a fórmula deixada por Julia acaba sem espaço para se aprofundar em todas as dez cartas. À medida que os desafios são apresentados, novas subtramas ganham espaço, como a chegada de Lorena ( Pamela Germano , O Mistério da Carne ), que surge para ocupar o posto de nova amiga de Gabi . Com isso, o filme por vezes apressa etapas de uma reconstrução emocional que merecia mais tempo em cena.
Lorena é uma das personagens mais cativantes do filme. Mesmo quando os diálogos recorrem a frases que soam artificiais — um problema que atravessa o roteiro como um todo —, Pamela Germano consegue dar vida, humor e carisma à personagem. O mesmo vale para a amizade entre Gabi e Julia : a química entre Any e Giulia torna convincente a relação das protagonistas e ajuda a dar peso emocional à perda. Saber que as duas atrizes também são grandes amigas na vida real torna essa conexão ainda mais especial, embora a força dessa relação evidencie o quanto o filme poderia ter explorado melhor as contradições e os conflitos que atravessam as amizades femininas, principalmente o ressentimento.
Depois de dirigir Caramelo (2025), apontado por parte do público como uma espécie de comercial de margarina — emocionante, mas sem uma história particularmente complexa por trás —, Diego Freitas repete em As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você uma certa superficialidade narrativa. O filme demora a fazer com que a perda da melhor amiga de Gabi ganhe o peso emocional que merece, e a sucessão de desafios propostos pelas cartas nem sempre é suficiente para aprofundar a jornada da protagonista. O longa, porém, encontra um contraponto interessante no casal de idosos gays que acolhe Gabi e a ajuda a atravessar o luto. Interpretados por Leo Jaime e Arthur Kohl , os personagens conquistam logo de primeira e roubam a cena, protagonizando uma trama paralela mais bem desenvolvida e envolvente do que a própria dinâmica das cartas deixadas por Julia.
O filme acerta ao abordar o luto na adolescência, especialmente a incompreensão que jovens enfrentam ao tentar expressar a própria dor para adultos que nem sempre sabem como acolhê-los. Visualmente, a produção é impecável — talvez até demais. O excesso de fundos desfocados, como no modo retrato do iPhone, acaba tirando espaço de paisagens belíssimas de São Paulo, cuja presença poderia aproximar ainda mais o espectador da história.
Além de conduzir com competência cenas de maior impacto, como o salto de paraquedas e o acidente de carro, Diego Freitas recorre a metáforas visuais para representar o sofrimento de Gabi , especialmente nos momentos em que a personagem parece chegar ao fundo do poço. São cenas que sugerem caminhos mais inventivos para a narrativa, mas nem sempre encontram continuidade no restante do filme. Algumas dessas passagens parecem deslocadas, como se a história ensaiasse sair do lugar-comum para, logo depois, retornar à fórmula conhecida dos dramas adolescentes.
O problema fica mais evidente na pressa em cumprir as dez tarefas deixadas por Julia . Ao cronometrar a jornada de Gabi para dar conta de cada desafio, o filme sacrifica justamente o aprofundamento emocional que sua premissa promete. Missões mais complexas, como se permitir apaixonar novamente ou até seus conflitos com os pais, recebem resoluções simplórias, que expõem a falta de camadas dos personagens secundários. A presença de figuras populares nas redes sociais, como Juliano Floss e Felipe Bertuol , também nem sempre ajuda a naturalizar essas relações: em alguns momentos, as interpretações parecem (e são) artificiais, reforçando a impressão de que os coadjuvantes existem mais para cumprir uma função no roteiro do que para se estabelecer como pessoas de verdade.
A trilha sonora reforça o apelo adolescente da narrativa, reunindo músicas das próprias protagonistas, Ecoar de Any Gabrielly e Te Olhando Daqui de Giulia Be , gravadas especialmente para o longa, e artistas internacionais como Billie Eilish . A seleção ajuda a aproximar a história do universo jovem que pretende retratar e reforça a identidade pop da produção.
No fim, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você é, sim, um clichê — mas isso não precisa ser encarado como um defeito. Em um cinema brasileiro que ainda oferece pouco espaço para histórias centradas nas experiências e nos dilemas dos adolescentes, apostar em uma fórmula conhecida também pode ser uma forma de criar identificação e fomentar a ida ao cinema. Apesar das simplificações e das oportunidades perdidas de aprofundar seus personagens, o filme entende algo importante: é preciso mostrar aos jovens que o fundo do poço não precisa ser o fim do mundo.
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