O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa afirmou, em depoimento à Polícia Federal, que o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), pediu que ele estruturasse uma operação de venda do BRB ao Banco Master, de Daniel Vorcaro.

Segundo Paulo Henrique, o pedido foi feito durante um jantar na casa de Vorcaro, em 24 de setembro de 2024. Ele afirmou que foi convocado para o encontro pelo gabinete do governador e que tentou evitar a reunião porque estava viajando.

"No dia 24 de setembro [de 2024], eu recebo uma mensagem no meu celular que me convoca pra uma reunião à noite na casa do Daniel Vorcaro, do gabinete do governador Ibaneis Rocha. Eu até falo ‘puxa, eu tô viajando, tô na Bahia’, tenho que voltar correndo. Eu tento fugir, e não dava pra fugir do jantar", disse.

Governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB) (esquerda), e dono do Banco Master, Daniel Vorcaro (direita)

Renato Alves/Agência Brasília e Banco Master/Divulgação

De acordo com o ex-presidente do BRB, durante o encontro, Ibaneis pediu: "Paulo, estrutura uma venda do BRB para o Master".

Paulo Henrique afirmou durante o depoimento ter ficado "surpreso" ao perceber que esse episódio não constava, até aquele momento, na investigação.

🚨Em dado momento das transações, a operação foi invertida: os executivos passaram a negociar uma tentativa do BRB de comprar o Banco Master (veja abaixo).

🚨O negócio foi anunciado e chegou a receber aval da Câmara do DF, mas foi barrado pelo Banco Central dias antes da liquidação do Banco Master e da operação Compliance Zero.

Paulo Henrique afirmou ainda não ter gostado do pedido.

"Fiquei surpreso por causa da venda do BRB, porque a gente tinha sempre defendido não fazer de jeito nenhum. E puto porque eu falei: 'poxa, eu estou fazendo sessão, um dano é alto. Como é que ele marca uma reunião como governador e não me autoriza?'"

Nesta quarta-feira (28), a Polícia Federal indiciou Daniel Vorcaro, Paulo Henrique Costa e outras 13 pessoas no inquérito principal do caso Master.

O relato acrescenta à cronologia das negociações entre o BRB e o Master. Relatórios recentes da Polícia Federal apontam que a articulação para a operação já vinha sendo preparada em 2024 e que, em janeiro de 2025, Ibaneis participou de uma reunião com Paulo Henrique e Vorcaro, em Zurique, na Suíça.

O g1 entrou em contato com a defesa de Ibaneis Rocha, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.

Novo encontro em Zurique

Segundo o relatório da PF, Paulo Henrique Costa informou a Daniel Vorcaro que Ibaneis havia pedido para marcar uma reunião.

🔍 O relatório da Polícia Federal se baseia em mensagens obtidas nos celulares de Paulo Henrique Costa e de Daniel Vorcaro, dono do Master. Atualmente, ambos estão presos.

O material reunido pela PF cita, ainda, uma outra reunião entre Vorcaro, Paulo Henrique e Ibaneis. Esta, em Zurique, na Suíça, já para negociar a compra do Master pelo BRB.

Segundo a investigação, em:

20 de janeiro de 2025: Paulo Henrique Costa informou a Daniel Vorcaro que o governador Ibaneis Rocha havia pedido para marcar uma reunião (veja no print acima).

23 de janeiro: Daniel Vorcaro, Ibaneis Rocha, Paulo Henrique Costa e um quarto interlocutor, identificado no relatório apenas como "Leonardo", se encontram em Zurique, capital da Suíça.

26 de janeiro: Vorcaro encaminha uma mensagem a Paulo Henrique perguntando sobre a negociação – e diz que a pergunta veio do jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo. Na conversa, segundo a PF, Paulo Henrique demonstra preocupação com o vazamento da tratativa, e diz que eles não ampliaram "o escopo das pessoas envolvidas no deal [na negociação]".

De outubro de 2024 a fevereiro de 2025, segundo a PF, o BRB comprou R$ 9,52 bilhões em carteiras de crédito emitidas pelo Banco Master.

Atuação de Ibaneis

Governador do DF, Ibaneis Rocha, comenta fiscalização de bebidas, em 3 de outubro

Para a investigação, Ibaneis "não se limitou ao exercício regular de suas prerrogativas institucionais" e atuou de forma direta em quatro frentes:

articulação com agentes privados.

validação de "decisões operacionais críticas";

definição da estratégia de expansão do BRB;

autorização dos montantes do aumento de capital;

"As comunicações demonstram que decisões estratégicas relevantes eram submetidas previamente à sua apreciação, antes mesmo de deliberação pelos órgãos formais de governança, evidenciando centralização decisória e interferência política direta na condução da instituição financeira pública", diz a PF.

"Tal atuação é indicativa de captura institucional, na medida em que a estrutura de decisão do banco foi alinhada a interesses específicos, em detrimento dos princípios de impessoalidade, moralidade e interesse público", seguem os investigadores.

A Polícia Federal conclui um dos relatórios afirmando que "o Banco Master passou a integrar, de forma indireta, a estrutura acionária do BRB".

Polícia Federal aponta gestão fraudulenta na compa de carteiras do Master pelo BRB

"[...] mediante utilização de fundos de investimento (notadamente Borneo, Verbier E Delta), estruturados com o propósito de ocultar o beneficiário final e evitar a caracterização formal de controle ou participação qualificada".

Ainda sobre a participação de Ibaneis, a PF conclui que decisões estratégicas da relação BRB-Master eram submetidas à apreciação do então governador "antes mesmo de deliberação pelos órgãos formais de governança, evidenciando centralização decisória e interferência política direta na condução da instituição financeira pública".

"Tal atuação é indicativa de captura institucional, na medida em que a estrutura de decisão do banco foi alinhada a interesses específicos, em detrimento dos princípios de impessoalidade, moralidade e interesse público", conclui a PF.

O que diz a defesa de Ibaneis Rocha

"A defesa do ex-Governador Ibaneis Rocha recebeu com tranquilidade o relatório da Polícia Federal divulgado na data de hoje, o qual corrobora, mais uma vez, aquilo que é apontado por esta defesa desde o início. Ibaneis Rocha não pressionou e tampouco teve qualquer ingerência nas operações realizadas pelo BRB. Como se constata da leitura do documento, o ex-presidente do banco detinha total autonomia para condução das negociações em nome da instituição financeira. O contato com Ibaneis Rocha se deu em contexto natural, institucional e republicano, considerando os cargos ocupados por ambos.

Por fim, importante ressaltar que o próprio relatório demonstra que Ibaneis Rocha não é interlocutor direto em nenhuma mensagem com Daniel Vorcaro e seu nome somente é mencionado pela Polícia Federal em quatro oportunidades, o que não permite imputar qualquer responsabilidade ao ex-Governador.

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

Roberta Castro Queiroz

Marcelo Turbay Freiria

Liliane de Carvalho Gabriel

Ananda França de Almeida

Almeida Castro, Castro e Turbay Advogados"

O que diz a defesa de Paulo Henrique Costa

"Paulo Henrique foi Presidente do BRB, no seu dono. Decisões dessa envergadura precisavam de aprovação do Conselho de Administração; e o acionista majoritário era o Governo do DF. Ainda que Paulo tivesse quisto fazer um negócio ilícito às escondidas com Vorcaro, teria sido parado no Conselho de Administração (de que faz parte o Governo do DF) e pelo sistema de governança interna. Por fim, Paulo segue confiante de que poderá apresentar a verdade dos fatos."

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