# No Níger, 1.500 moradores trabalharam por 77 dias na recuperação de 213 hectares; a experiência ajuda a explicar a mudança na muralha verde de 8 mil quilômetros da África

- Seção: Itatiba e Região
- Fonte: Tribuna de Jundiaí (https://tribunadejundiai.com.br/curiosidades/no-niger-1-500-moradores-trabalharam-por-77-dias-na-recuperacao-de-213-hectares-a-experiencia-ajuda-a-explicar-a-mudanca-na-muralha-verde-de-8-mil-quilometros-da-africa/)
- Publicado em: 2026-10-30T00:37:55.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1426933-no-niger-1-500-moradores-trabalharam-por-77-dias-na-recuperacao-de-213-hectares

> No oeste do Níger, o agricultor Djibo Dandakoye chegou a ver a vegetação e os animais silvestres desaparecerem das terras próximas à sua comunidade. O solo, antes coberto por árvores e pastagens, ficou praticamente sem vida. Anos depois,…

A transformação foi documentada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em 2022. Dandakoye havia mobilizado mais de 1.500 moradores para recuperar uma área degradada. Em apenas 77 dias de trabalho, o grupo realizou intervenções em 213 hectares , utilizando técnicas para captar a água das chuvas, recuperar a vegetação e proteger o solo.

A experiência representa uma pequena parte de um projeto muito maior. Desde 2007, países africanos trabalham para construir a chamada Grande Muralha Verde , uma iniciativa ambiental que pretende recuperar terras ao longo de aproximadamente 8 mil quilômetros, do Senegal até Djibuti. A ideia original era formar uma enorme barreira de árvores contra a desertificação. Quase duas décadas depois, porém, a estratégia mudou.

O plano inicial era criar uma barreira de árvores atravessando a África

Quando a União Africana lançou a Grande Muralha Verde, em 2007, o objetivo era enfrentar um problema que ameaça milhões de pessoas: a degradação das terras do Sahel, região semiárida localizada ao sul do deserto do Saara.

A proposta ganhou atenção internacional pela dimensão. Uma extensa faixa de árvores atravessaria o continente, formando uma espécie de proteção natural para áreas agrícolas e comunidades que convivem com longos períodos de seca.

Mas a desertificação não funciona simplesmente como uma parede de areia avançando sobre as cidades. O fenômeno envolve a perda de fertilidade do solo, a redução da cobertura vegetal e a degradação de áreas que antes sustentavam plantações, pastagens e animais.

Plantar grandes quantidades de árvores em regiões com pouca chuva também apresenta dificuldades. Dependendo da espécie escolhida e das condições locais, as mudas podem não sobreviver ou exigir recursos hídricos escassos. Além disso, uma floresta contínua nem sempre corresponde à vegetação natural de ambientes semiáridos.

Aos poucos, o projeto abandonou a proposta de uma barreira uniforme e passou a trabalhar com diferentes formas de recuperação ambiental, respeitando as características de cada território.

No Níger, a transformação começou com pequenas escavações no chão

No Níger, técnicas tradicionais de captação da água da chuva ajudam a recuperar solos degradados e criar condições para o retorno da vegetação em áreas afetadas pela seca. &#8211; Foto: Imagem ilustrativa/Tribuna de Jundiaí

A experiência da comunidade de Dandakoye ajuda a entender como funciona essa nova abordagem. Em 2018, a FAO chegou à região de Kollo, no oeste do Níger, para apoiar a recuperação de terras que haviam perdido grande parte da vegetação.

Uma das técnicas ensinadas aos moradores consistia em abrir pequenas escavações em formato de meia-lua. Essas cavidades funcionam como pontos de captação da água da chuva, permitindo que a umidade se concentre no terreno em vez de escorrer rapidamente pela superfície.

O método favorece a infiltração da água e cria melhores condições para o crescimento de plantas em regiões secas. Combinado ao plantio de espécies adaptadas ao ambiente e à proteção de áreas degradadas, permite recuperar gradualmente a produtividade do solo.

Dandakoye assumiu a liderança de um comitê comunitário responsável pelas atividades. Os moradores passaram a cultivar capim para alimentação animal e árvores como baobás, palmeiras e outras espécies capazes de oferecer frutos e produtos aproveitados pela população.

Segundo o relato publicado pela FAO , a mobilização de mais de 1.500 pessoas permitiu realizar trabalhos de recuperação em 213 hectares durante 77 dias. As atividades remuneradas também geraram aproximadamente US$ 66 mil em pagamentos aos participantes.

A recuperação ecológica continuou depois dessa etapa inicial. Com o tempo, a vegetação voltou a se desenvolver e animais silvestres reapareceram na área, segundo a organização.

A terra voltou a produzir e os moradores encontraram uma nova fonte de renda

No Níger, mais de 1.500 moradores participaram da recuperação de 213 hectares em 77 dias, em uma iniciativa que também abriu oportunidades de geração de renda para famílias rurais. &#8211; Foto: Imagem ilustrativa/Tribuna de Jundiaí

Os resultados não ficaram restritos à paisagem. Na comunidade de Dandakoye, o capim cultivado nas áreas recuperadas passou a servir de alimento para animais e também a ser comercializado, criando uma fonte de renda para famílias que dependem da agricultura e da criação de rebanhos.

O próprio agricultor contou à FAO que utilizou parte do dinheiro recebido nas atividades para comprar alimentos, roupas e materiais escolares para os filhos.

O projeto também estabeleceu mecanismos para dividir os benefícios obtidos com a recuperação da área. Uma parte dos recursos foi destinada à manutenção do terreno, outra às atividades de gestão e uma parcela à comunidade.

Em outras áreas de Kollo, mulheres passaram a cultivar moringa, planta cujas folhas e sementes podem ser utilizadas na alimentação e na fabricação de diferentes produtos. Uma cooperativa local criou um pequeno estabelecimento para preparar e comercializar mercadorias como sabonetes e alimentos.

Essas experiências mostram por que a Grande Muralha Verde deixou de ser apenas uma iniciativa de reflorestamento. A recuperação das terras passou a estar diretamente ligada à produção de alimentos, ao trabalho e à permanência das famílias nas comunidades rurais.

Depois de quase 20 anos, quanto da Grande Muralha Verde já foi recuperado?

A ambição do projeto permanece enorme. Até 2030, a Grande Muralha Verde pretende recuperar 100 milhões de hectares de terras degradadas , contribuir para retirar ou evitar a emissão equivalente a 250 milhões de toneladas de carbono e criar 10 milhões de empregos.

Um balanço apresentado em 2026 pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), com informações registradas até dezembro de 2025, aponta 1,66 milhão de hectares em processo de recuperação nos projetos acompanhados por indicadores padronizados.

O relatório também contabiliza 4,6 milhões de empregos criados e mais de 46 milhões de pessoas beneficiadas pelas iniciativas consideradas no levantamento.

Esses números, entretanto, ainda não representam um retrato completo de tudo o que foi realizado desde 2007. O observatório responsável pelo acompanhamento reunia 389 projetos, mas menos de 90 apresentavam dados compatíveis com o sistema padronizado de avaliação.

Isso significa que parte dos resultados ainda precisa ser incorporada e validada. Também existe uma diferença importante entre uma área que já foi recuperada e outra que continua passando por restauração, processo que pode levar muitos anos para apresentar resultados completos.

A distância entre as metas estabelecidas e os avanços mensurados mostra que o projeto ainda enfrenta um desafio considerável para alcançar seus objetivos.

Novos investimentos prometem recuperar mais 270 mil hectares, mas conflitos dificultam o avanço

Em outubro de 2026, uma nova etapa da Grande Muralha Verde recebeu o anúncio de US$ 78 milhões em financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) , com apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

O programa pretende recuperar mais de 270 mil hectares de terras degradadas em nove países africanos e melhorar as condições de vida de aproximadamente cinco milhões de pessoas. Os recursos se somam a outros financiamentos previstos, elevando o volume total do programa para mais de US$ 500 milhões.

Entre as ações planejadas estão a recuperação de 150 mil hectares no Mali e de outros 55 mil hectares no Níger, envolvendo áreas agrícolas, pastagens e terrenos com vegetação.

O financiamento, porém, não resolve todas as dificuldades. Parte das regiões que poderiam receber projetos de recuperação ambiental enfrenta conflitos armados e problemas de segurança que dificultam o acesso de trabalhadores, pesquisadores e organizações responsáveis pelas atividades.

Há também obstáculos administrativos, falta de coordenação entre programas e dificuldades para transformar compromissos financeiros internacionais em investimentos efetivos nas comunidades.

Enquanto isso, as mudanças climáticas aumentam a pressão sobre uma região que já enfrenta escassez de água, insegurança alimentar e degradação do solo.

A muralha que começou como uma linha de árvores agora assume outras formas

No caso documentado pela FAO no Níger, os sinais da recuperação apareceram muito antes de qualquer floresta contínua atravessar o continente. O capim voltou a crescer, árvores se desenvolveram, animais reapareceram e famílias passaram a obter renda das terras recuperadas.

A experiência também revelou a importância de envolver quem vive na região. Foram os próprios moradores que abriram as escavações, plantaram espécies adaptadas ao ambiente, protegeram a vegetação e organizaram o aproveitamento dos recursos produzidos.

A Grande Muralha Verde ainda está longe de alcançar todas as metas estabelecidas para 2030. Mas, depois de 19 anos, sua transformação mostra que o combate à desertificação pode depender menos de plantar árvores em uma linha contínua e mais de recuperar, terreno por terreno, as condições necessárias para que a vegetação volte a crescer.

Na comunidade de Dandakoye, a imagem que melhor representa essa mudança não é uma enorme parede verde atravessando a África. São os feixes de capim colhidos de uma terra que, anos antes, havia perdido quase toda a vegetação.

*Imagem ilustrativa criada pelo Tribuna de Jundiaí com auxílio de inteligência artificial e direção criativa da equipe. Reprodução total ou parcial proibida sem autorização.

Reportagem completa: https://tribunadejundiai.com.br/curiosidades/no-niger-1-500-moradores-trabalharam-por-77-dias-na-recuperacao-de-213-hectares-a-experiencia-ajuda-a-explicar-a-mudanca-na-muralha-verde-de-8-mil-quilometros-da-africa/

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