O g1 entrevistou senadores eleitos pela primeira vez e reeleitos do PT, PSB e PDT para saber como eles se preparam para lidar com os numerosos colegas do PL, partido de Jair Bolsonaro, e para trabalhar por propostas do governo Lula.
As estreantes no Senado Marília Arraes (PDT-PE), Samanda de Lula (PT-RN) e Marília Campos (PT-MG) defendem a construção de alianças em pautas específicas, o diálogo com adversários políticos e a mobilização da sociedade para impedir retrocessos em direitos sociais.
Os senadores reeleitos Cid Gomes (PSB-CE) e Humberto Costa (PT-PE) preveem a tentativa, por parte da direita, de avanço das chamadas pautas de costumes, como projetos que restringem o direito ao aborto nos casos previstos em lei. O tema é alvo frequente de parlamentares da direita.
🔎 O aborto atualmente é garantido por lei no Brasil em três casos: gestação decorrente de estupro, risco de vida para a pessoa que gesta e fetos anencéfalos.
Composição do Senado
A composição do Senado ainda poderá sofrer alterações até fevereiro, quando assumem os eleitos em 2026, já que tanto os candidatos eleitos quanto os senadores em exercício podem trocar de partido ou assumir cargos no Executivo.
Caso os números atuais se confirmem, o PL terá a maior bancada partidária no início de uma legislatura desde a promulgação da Constituição de 1988. O partido elegeu 19 senadores nas eleições de domingo (4). Com isso, o partido deverá reunir 28 dos 81 integrantes da Casa. O recorde anterior pertencia ao MDB, então PMDB, que iniciou a legislatura de 1999 com 27 senadores.
Infográfico - Composição do Senado por partidos.
Essa também é a primeira vez desde 1988 que um único partido elegeu 19 senadores em uma mesma eleição. Até então, o maior número havia sido de 14, alcançado pelo antigo PMDB em 1994 e 2010 e pelo extinto PFL em 2002.
Enquanto isso, o PT, PSB, Rede e PDT deverão reunir, somados, 15 senadores a partir de 2027. Outros 37 parlamentares estarão distribuídos entre MDB, PP, União Brasil, PSD, Republicanos, Novo, Podemos e PSDB. Há ainda um senador sem partido.
Construir alianças possíveis
Humberto Costa é senador eleito pelo PT
O veterano Humberto Costa (PT-PE) foi eleito senador pela terceira vez no pleito de 2026. Acostumado a lidar com os colegas de oposição, avalia que o diálogo, que já é desafiador, deve se tornar ainda mais difícil com a nova composição da Casa.
Para Costa, os parlamentares eleitos para o mandato que se inicia em 2027 têm um perfil mais “radical e agressivo” do que os atuais integrantes do Senado. Apesar disso, diz que o governo Lula terá maioria para aprovar alguns projetos que devem chegar ao plenário, pois “já estão acertados”. O senador cita como exemplo a proposta de fim da escala de trabalho 6x1.
“Há diálogo com algumas pessoas, mas a grande maioria segue uma orientação única. Fazem questão de apresentar emendas. Uma bancada muito ativa em apresentar propostas que são maléficas para a população brasileira e fazem um tipo de oposição que é uma oposição sem muito diálogo”, afirmou Humberto Costa.
O senador aposta que temas prioritários para o governo federal, como a segurança pública, vão dominar os debates na Casa. O senador também acredita que a chegada dos novos parlamentares deve ampliar a discussão de projetos ligados às pautas de costumes, como a criminalização do aborto.
Sobre a disputa pelo comando do Senado, que elegerá seu presidente em fevereiro de 2027 para um mandato de dois anos, Costa defendeu uma aliança com setores do centrão e disse que há possibilidade de apoio à recondução de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). O petista, porém, condicionou esse entendimento à ausência de concessões à oposição em temas que considera inegociáveis, como a anistia a condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
A senadora eleita pelo Rio Grande do Norte, Samanda de Lula (PT) avalia que a nova correlação de forças exigirá organização, firmeza e capacidade de articulação. Para a petista, não se deve fazer concessão em pautas que envolvam direitos dos trabalhadores, democracia, direitos sociais, proteção das mulheres, das crianças e das populações mais vulneráveis.
"Para evitar retrocessos, será preciso combinar atuação parlamentar, articulação política e mobilização da sociedade", disse Samanda.
Samanda de Lula (PT)
Marcelo Vicioli/Inter TV
Marília Arraes (PDT), senadora eleita por Pernambuco, também aposta na articulação entre parlamentares progressistas e no diálogo com setores da sociedade que não se identificam com a esquerda.
"Precisamos conversar com quem pensa diferente, ouvir as insatisfações e mostrar como nossas propostas respondem aos problemas reais de segurança, emprego, renda, saúde e oportunidades", disse Marília.
Marília Arraes (PDT)
Eleito para um segundo mandato no Senado, Cid Gomes (PSB-CE) minimizou o avanço da direita na Casa e disse não ver motivo para “pânico” com a nova composição. Pelas contas do senador, esse grupo, que passou de 19 para 28 integrantes, é número suficiente para pedir a abertura de uma CPI, mas insuficiente para formar maioria.
Na avaliação dele, o Senado ficará dividido em três grupos: cerca de um terço alinhado à direita, uma parcela um pouco menor de parlamentares progressistas e outra formada por senadores que tendem a apoiar o governo. Apesar de relativizar o crescimento da direita, Cid acredita que haverá mais pautas de costumes na agenda da Casa.
O senador eleito Cid Gomes (PSB-CE)
Fabiane de Paula/ SVM
Sobre a disputa pelo comando do Senado, Cid vê Davi Alcolumbre em condições mais favoráveis para construir uma maioria por meio de acordos entre os partidos. Na avaliação do senador do PSB, as divergências internas da direita dificultam uma candidatura unificada desse campo.
O senador citou Rogério Marinho e Tereza Cristina como interessados na disputa. “O que eu tô vendo é que eles lá não se entendem. Rogério Marinho (PL-RN) quer ser candidato, Tereza Cristina (PP-MS). Muito mais fácil o Davi conseguir uma maioria pelos partidos”, afirmou.
Já Marília Campos (PT), eleita por Minas Gerais, pretende usar sua experiência como prefeita de Contagem (MG) para buscar alianças em torno de demandas dos municípios, independentemente da orientação partidária dos demais senadores. A petista lembra que precisou negociar com governos de diferentes orientações políticas para viabilizar projetos.
"Retrocesso se evita de dois jeitos. Um é firmeza em direito do trabalhador, das mulheres, na proteção social e na democracia. Não tem negociação. O outro é ter voto, e voto se constrói com relação. Quem conversa com os colegas o ano inteiro tem mais condição de virar uma votação na hora decisiva", afirmou Marília Campos.
Marília Campos (PT).
Imagem cedida ao g1
Ocupar a tribuna e apresentar projetos
As três senadoras eleitas entrevistadas pelo g1 pretendem combinar a atuação nas comissões e a apresentação de projetos com o uso da tribuna para dar visibilidade a pautas prioritárias e denunciar possíveis retrocessos.
Samanda de Lula afirma que pretende usar os discursos no plenário como instrumento de diálogo com a sociedade, mas ressalta que a atuação parlamentar não poderá se limitar à oposição às propostas da direita.
"Vamos apresentar projetos, construir alianças em torno de pautas concretas e conversar inclusive com senadores que não sejam do nosso campo político quando houver possibilidade de formar maioria para uma medida positiva", disse Samanda.
Para Marília Arraes, a defesa dos direitos das mulheres deverá ocupar espaço central nos debates da próxima legislatura. A senadora eleita avalia que a presença feminina no Congresso, por si só, não assegura avanços nas políticas de igualdade e proteção.
"Ser mulher, por si só, não garante compromisso com os direitos das mulheres. Precisamos olhar para o que cada parlamentar defende, para os seus votos e para as consequências de suas propostas", afirmou Marília Arraes.
Na avaliação da parlamentar, será necessário buscar apoio para propostas voltadas ao enfrentamento da violência, à autonomia feminina e à independência econômica das mulheres. Marília também afirma que pretende levar as demandas do Nordeste para o centro das discussões nacionais.
Marília Campos, por sua vez, defende que a atuação nas comissões, nas relatorias e nas negociações entre gabinetes terá papel tão importante quanto os pronunciamentos no plenário.
"Vou usar a tribuna, sim, sempre que Minas precisar ser ouvida e sempre que houver ataque a direitos. Mas o que muda a vida das pessoas se decide muito nas comissões, nas relatorias, na conversa de gabinete. Prefiro gastar minha energia mais aprovando do que só denunciando. Dá para ser oposição firme e ser propositiva ao mesmo tempo, e é isso que eu pretendo fazer", afirmou Marília Campos.
Plenário do Senado Federal
Jonas Pereira/Agência Senado

