Uma ferramenta de rastreador de swaps de moedas entre bancos centrais ao redor do mundo, elaborada pelo think tank Council on Foreign Relations (CFR) mostra que as autoridades monetárias dos EUA (Federal Reserve), Zona do Euro (BCE) tiveram papel importante para domar a escassez de liquidez gerada tanto pela crise financeira global de 2007-2008 como na fase inicial da pandemia de Covid-19, em 2020.

Mas o PBoC chinês tem expandido sua rede de swaps de moedas de forma constante e mais ampla para economias em desenvolvimento. Desde 2009, a China assinou acordos bilaterais de swap de moedas com mais de 40 contrapartes.

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Na última década, a China tentou se posicionar como um credor global de última instância, estendendo linhas de swap para países endividados em meio a crises de balanço de pagamentos e dívida soberana.

Treze dos dezessete países que utilizaram suas linhas de swap com a China o fizeram para fortalecer suas reservas cambiais, com o montante em aberto atingindo um pico em 2023.

“A intenção declarada desses swaps é apoiar o comércio e o investimento e promover o uso internacional do Renminbi (RMB). De forma geral, a China limita a quantidade de RMB disponível para liquidar comércio, e os swaps têm sido usados para obter RMB após esses limites serem atingidos”, diz o CFR.

No mapa interativo do Conselho, há um registro de linhas de swap chinesas em aberto de mais de US$ 24 bilhões em países como Malásia, Turquia, Paquistão, Egito, Mongólia, Sri Lanka, Nigéria e Laos.

O que é um swap de moedas?

Desde a crise financeira de 2007, bancos centrais ao redor do mundo firmaram uma multiplicidade de acordos bilaterais de swap de moedas entre si. Esses acordos permitem que um banco central de um país troque moeda, geralmente sua moeda doméstica, por uma determinada quantia de moeda estrangeira.

O banco central receptor pode então emprestar essa moeda estrangeira para seus bancos domésticos, em seus próprios termos e por sua própria conta e risco.

O Tesouro dos EUA, por exemplo, estendeu uma linha de swap de US$ 20 bilhões ao banco central da Argentina, enquanto o Ministério das Finanças do Japão mantém linhas de swap com os bancos centrais da Indonésia, Filipinas, Tailândia, Malásia, Singapura, Índia e Coreia do Sul.

Embora os swaps sejam estruturados para se proteger contra flutuações cambiais, os riscos permanecem se um banco central não honrar o acordo. Isso torna os swaps um gesto significativo de confiança política.

Como funcionam os swaps?

Um acordo bilateral de swap de moedas geralmente segue um processo simples:

Troca Inicial : O Banco Central 1 (ex.: Banco Central Europeu) vende uma quantia especificada de sua moeda (Moeda A) para o Banco Central 2 (ex.: Federal Reserve) em troca da Moeda B (ex.: dólares) à taxa de câmbio vigente.

Uso da Moeda Estrangeira para Empréstimos : O Banco Central 1 empresta a Moeda B para seus bancos domésticos ou corporações para aliviar a escassez de moeda estrangeira.

Reembolso e Encerramento : Em uma data futura predeterminada, o Banco Central 1 recompra sua moeda (Moeda A) à taxa de câmbio original, pagando juros ao Banco Central 2 a uma taxa contratualmente acordada.

Dependendo dos termos do acordo, as linhas de swap são unidirecionais ou recíprocas. Seguindo o exemplo acima, se uma linha de swap é unidirecional, o Banco Central 2 concorda em fornecer liquidez ao Banco Central 1 contra a Moeda A, que serve como garantia. Se uma linha de swap é recíproca, o Banco Central 1 também pode fornecer liquidez ao Banco Central 2 contra a Moeda B.

Alguns acordos envolvem uma terceira moeda, onde o Banco Central 1 (ex.: Banco do Japão) concorda em fornecer liquidez ao Banco Central 2 (ex.: Banco da Indonésia) tanto na Moeda A (ex.: iene) quanto na Moeda C (ex.: dólares). Embora existam tanto acordos unidirecionais quanto recíprocos, a maioria das linhas de swap é de fato unidirecional, com os maiores bancos centrais fornecendo fundos em resposta a escassez de liquidez impulsionada por crises.

No Oriente Médio, os Emirados Árabes Unidos estenderam uma nova linha de swap em moeda local (dirham) para o Bahrein — cuja dívida disparou devido à queda nas receitas do petróleo causada pelos ataques do Irã no Estreito de Ormuz. A Rússia — financeiramente limitada pelo acesso severamente restrito ao sistema global de pagamentos transfronteiriços SWIFT desde sua invasão da Ucrânia em 2022 — estabeleceu uma nova linha de swap com o Cazaquistão.

Histórico de swaps do Federal Reserve

Durante a crise financeira global, em 12 de dezembro de 2007, o Federal Reserve estendeu linhas de swap ao Banco Central Europeu (BCE) e ao Banco Nacional Suíço (BNS). A demanda dos bancos europeus por dólares vinha aumentando, criando volatilidade acentuada nas taxas de juros do dólar americano.

De acordo com um comunicado à imprensa do Fed, as linhas de swap tinham a intenção de “lidar com as pressões elevadas nos mercados de financiamento de curto prazo”, e fazer isso sem que o Fed tivesse que financiar bancos estrangeiros diretamente.

Em setembro de 2008, dias após o colapso do banco Lehman Brothers, o Fed expandiu o tamanho das linhas de swap com a Zona do Euro e a Suíça, e estendeu três novas linhas para Canadá, Reino Unido e Japão. No final do mês, novas linhas de swap foram abertas para Austrália, Dinamarca, Noruega e Suécia – em outubro, foi incluída a Nova Zelândia. O Fed também estendeu linhas de swap para Brasil, México, Coreia do Sul e Singapura em outubro de 2008.

Os empréstimos através dessas linhas de swap atingiram um máximo de US$ 586 bilhões em dezembro de 2008.

O movimento cresceu novamente em 2020, quando a pandemia de Covid-19 empurrou a economia global para uma profunda recessão, com ordens de saúde pública dos governos determinando que quase metade da população mundial ficasse em casa. Assim como durante a crise de 2007, os bancos centrais do mundo desenvolvido recorreram a linhas de swap para fornecer moeda estrangeira aos seus bancos domésticos.

Para expandir a liquidez em dólar americano, o Federal Reserve, em 15 de março, reduziu a taxa de juros sobre suas linhas de swap do mundo desenvolvido para pouco acima de zero. O bancos centrais do Canadá, da Inglaterra, Europeu, do Japão e o Nacional Suíço também se comprometeram a usar suas linhas de swap do Federal Reserve para emprestar dólares com prazo máximo de 84 dias.

No final de março, o Fed estendeu linhas de swap emergenciais para mais cinco bancos centrais de países desenvolvidos — os da Austrália, Dinamarca, Nova Zelândia, Noruega e Suécia. Autoridades do Fed aprovaram cada linha de swap por seis meses, mas, em julho de 2020, renovaram todas até março de 2021.

Ao longo de 2020, a maioria dos bancos centrais contrapartes do Fed — exceto os do Canadá, Nova Zelândia e Suécia — utilizaram suas linhas de swap em dólar americano. O Japão foi de longe o maior usuário, com seus saques pendentes atingindo o pico de aproximadamente US$ 225 bilhões.

O Fed aprovou linhas emergenciais em 19 de março para Brasil, México, Coreia do Sul e Singapura — as mesmas nações que as receberam em 2008. Assim como com suas linhas de swap emergenciais para o mundo desenvolvido, o Fed aprovou as linhas por seis meses e depois as renovou até março seguinte. Os acordos de linha de swap emergencial do Fed com Brasil, Coreia do Sul, México e Singapura expiraram em 2021.

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Histórico de swaps do BCE

Na crise financeira , o BCE estabeleceu linhas de swap com a Suécia em dezembro de 2007, Suíça e Dinamarca em outubro de 2008, e o Reino Unido em dezembro de 2010. A área do euro, Suécia, Dinamarca e Reino Unido tinham reservas cambiais relativamente baixas antes da crise, devido aos custos envolvidos na manutenção de reservas e à crença de que havia pouca probabilidade de que mais fossem necessárias no futuro previsível.

A linha de swap com o Banco da Inglaterra foi estabelecida como medida de precaução para garantir que o Banco Central da Irlanda, que faz parte do Eurosistema, tivesse acesso a libras esterlinas, mas nunca foi utilizada. Desde 2007, Suécia e Dinamarca mais que dobraram suas reservas cambiais, o Reino Unido dobrou suas reservas, e a área do euro aumentou suas reservas em 20%.

A Suíça também forneceu francos suíços à Polônia e Hungria em troca de euros. Muitas famílias na Polônia e Hungria haviam contratado hipotecas denominadas em moeda estrangeira por causa das taxas de juros mais baixas disponíveis nesses empréstimos. A demanda por francos suíços e euros dos bancos húngaros e poloneses que emitiram os empréstimos elevou os custos de captação nessas moedas; as linhas de swap tinham a intenção de aliviar a pressão de alta que essa demanda estava exercendo sobre as taxas de juros do euro e do franco suíço.

Na pandemia o BCE reativou uma linha de swap com o Banco Nacional da Dinamarca — a primeira de suas medidas para estabilizar os mercados durante a crise de saúde. Em abril de 2020, o BCE aprovou uma linha temporária para a Croácia, e sete dias depois concedeu uma para a Bulgária.

O CFR lembra que, embora a pandemia tenha pressionado consideravelmente o mercado de financiamento em dólar americano, com participantes do mercado correndo para reter mais da moeda de reserva mundial, os mercados globais de euros permaneceram relativamente calmos. Como tal, todas as três novas linhas de swap estendidas não foram ativadas.

Ao longo dos primeiros meses da pandemia, o BCE também estabeleceu acordos de recompra com Romênia, Albânia, Macedônia do Norte, San Marino, Hungria e Sérvia.

Histórico de swaps do PBoC (China)

Em outubro de 2010, a Autoridade Monetária de Hong Kong e o PBoC trocaram 20 bilhões de yuans (cerca de US$ 3 bilhões) para permitir que empresas em Hong Kong liquidassem comércio em RMB com o continente.

Em 2014, a China usou sua linha de swap com a Coreia para obter 400 milhões de wons (cerca de US$ 400 mil). Os wons foram então emprestados a um banco comercial na China, que os usou para fornecer financiamento comercial para pagamento de importações da Coreia.

O PBoC tem usado os swaps principalmente como um substituto para empréstimos com garantia a países fortemente endividados — países que devem grandes quantias a instituições chinesas ou são considerados importantes para a China geoestrategicamente. Esses swaps são muito mais caros que os swaps do Fed e — dadas as frequentes renovações — são tipicamente por prazos muito mais longos.

Pelo menos 13 países utilizaram linhas de swap do PBoC para estabilizar suas reservas de bancos centrais — mais notavelmente, a Argentina, que teve dificuldade em tomar dólares emprestados nos mercados internacionais após entrar em default de sua dívida em julho de 2014. O país sul-americano enfrentou escassez de uma série de bens importados como resultado.

O swap em RMB para a Argentina operou como um substituto para dólares potencialmente necessários para pagar credores. Em 2023, a Argentina utilizou a linha de swap para evitar o default com o FMI — pagando diretamente em RMB.

O uso dos swaps do PBoC pela Argentina é apenas um de uma lista crescente de casos de economias em desenvolvimento que dependem de fundos renováveis de curto prazo (3 a 12 meses) em RMB para pagar dívidas ou esconder a escassez de reservas.

A china já ajudou a resgatar o Paquistão e outros tomadores do Cinturão e Rota, como Sri Lanka e Mongólia.

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Mas o PBoC foi alvo de repreensão pública por assinar um acordo de swap com o Banco da Rússia pouco antes da queda no valor do rublo no final de 2014 — depois que a Rússia foi atingida por sanções financeiras ocidentais.

Em 2024, a China continuou a expandir sua rede de linhas de swap bilaterais, firmando acordos com a Arábia Saudita e as Ilhas Maurício. O acordo com a Arábia Saudita é projetado para servir ao propósito oficial das linhas de swap do PBoC e facilitar um maior uso do RMB para liquidação de comércio bilateral.

Outros países seguiram a estratégia da China e começaram a usar swaps para fortalecer laços comerciais e diplomáticos com nações fortemente endividadas. Em uma aparente tentativa de aumentar sua influência regional, os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, estenderam linhas de swap em moeda local para a Turquia em 2022, para o Egito em 2023 e para a Etiópia em 2024.

O futuro dos swaps

Embora as linhas de swap tenham evitado vendas forçadas de ativos e outras ações que teriam exacerbado crises, o fato de que as linhas de swap agora parecem ser permanentes pode, na verdade, encorajar esses “enormes descasamentos cambiais” a crescer, alerta o CFR

“Os bancos agora esperarão que seus bancos centrais lhes forneçam moeda estrangeira se as tensões de mercado tornarem esse financiamento novamente difícil de obter nos mercados privados, e aqueles que emprestam a bancos estrangeiros continuarão a fazê-lo na expectativa de que, em uma crise, serão reembolsados com fundos tomados do banco central.”

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