Ao mesmo tempo, fez duras críticas à intervenção do governo na economia, à carga tributária e à burocracia, que considera obstáculos maiores ao crescimento das empresas do que a própria concorrência.

“Nunca vai ter o momento ideal para criar o seu negócio”, afirmou Mattar, ao recordar as dificuldades enfrentadas quando fundou a Localiza, em 1973, durante um período de instabilidade econômica marcado pelo primeiro choque do petróleo. Segundo o empresário, o cenário atual é muito semelhante ao ambiente em que começou a investir no aluguel de automóveis. “Na época, muitos familiares e conhecidos me aconselharam a não ir em frente, diante dos riscos associados ao preço dos combustíveis e às condições econômicas. Todos diziam que eu seria louco de mexer com aluguel de carros naquela ocasião”, relatou.

Mas, para Mattar, a capacidade de empreender está relacionada à disposição de assumir riscos e tomar decisões difíceis mesmo quando as perspectivas são desfavoráveis. Não significa ignorar os riscos, segundo ele, mas reconhecer que parte das variáveis que afetam uma empresa está fora do controle de seus gestores. “Sejam cuidadosos, perguntem, mas a decisão final é sua”, aconselhou.

A mensagem foi acompanhada de uma defesa do planejamento estratégico. O empresário contou que a Localiza trabalhava com horizontes de três a cinco anos, definindo objetivos e acompanhando os riscos do negócio. “Quando começamos o ambiente econômico estava fora do nosso controle e tivemos de fazer o que era possível. Hoje eu não sei onde o Brasil vai estar nos próximos anos nem qual inflação teremos. Mas nós sabemos aonde queremos chegar”, disse, reproduzindo uma orientação que costumava dar à equipe.

Para ilustrar sua estratégia, Mattar relembrou a reação da Localiza às medidas econômicas adotadas pelo governo em 1983, quando foi instituído um depósito compulsório relacionado à aquisição de automóveis e combustíveis. Segundo ele, a exigência encareceu a expansão das locadoras e levou concorrentes a suspender a compra de veículos.

A Localiza optou pelo caminho contrário. Tomou empréstimos e continuou ampliando a frota, apesar dos custos financeiros e da incerteza. A decisão permitiu à empresa ganhar participação no mercado justamente porque seus concorrentes haviam reduzido os investimentos. “Fizemos o contrário dos concorrentes, que nos achavam loucos e diziam que iríamos quebrar. E, a partir daí, a Localiza deu um salto, porque só ela tinha carro para alugar”, afirmou.

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A estratégia, considerada arriscada por Mattar pela alta alavancagem em ambiente adverso, também envolveu elevar os preços das locações para melhorar as margens e compensar os juros dos financiamentos. Na avaliação do empresário, a combinação de maior disponibilidade de veículos e reajustes de tarifas permitiu à companhia superar aquele período e sair fortalecida.

Ao longo da trajetória da Localiza, disse, as crises também serviram para rever a estrutura operacional. Na sua avaliação, empresas que crescem rapidamente tendem a ampliar suas estruturas administrativas e seus controles, o que pode reduzir a agilidade na tomada de decisões. “Pequenas empresas têm uma vantagem descomunal, que é a rapidez da tomada de decisão”, afirmou.

Por isso, recomendou que empresários aproveitem os períodos de desaceleração para avaliar custos, produtividade e a necessidade de manter determinadas estruturas.

Salim Mattar, fundador da Localiza, em painel durante o G4 Valley (Foto: G4 Educação)

Governo virou o maior obstáculo

Mattar afirmou que, durante muitos anos, acreditou que o principal risco para a Localiza vinha dos concorrentes. Com o tempo, mudou a avaliação. “Nosso maior problema não eram os concorrentes, mas a intromissão do governo no nosso negócio”, disse ele, citando a complexidade tributária, a legislação trabalhista e as dificuldades até para obter licenças e alvarás como fatores que prejudicam o ambiente de negócios.

As críticas refletem a visão liberal do empresário sobre o papel do Estado na economia. Ao longo da palestra, ele defendeu a redução de entraves à atividade privada e associou o crescimento empresarial à liberdade de iniciativa e à capacidade de gestão.

A trajetória apresentada por Mattar tem como principal referência a expansão da Localiza. Fundada em Belo Horizonte em 1973, a empresa se transformou em uma das maiores companhias de aluguel de veículos e gestão de frotas do país, faturando R$ 41,8 bilhões no ano passado, com uma frota de mais de 655 mil veículos.

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O empreendedor defende adaptação às mudanças do mercado, gestão compartilhada e atenção às tendências para garantir a longevidade dos negócios

Com o negócio consolidado, em 2013, Mattar saiu da empresa depois de preparar por cinco anos a sua sucessão. Em 2019, decidiu ampliar os horizontes e partiu para administração pública, como secretário especial de Desestatização do governo de Jair Bolsonaro.

Atualmente, o empresário disse que só se dedica à família e à divulgação de ideias liberais, bem como à formação de lideranças e acompanhamento de propostas legislativas relacionadas ao livre mercado.

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