Em palestra para uma plateia lotada nesta quinta-feira (29), durante o G4 Valley , realizado no São Paulo Expo, em São Paulo, Feffer compartilhou os desafios de assumir os negócios da família, preservando o legado das gerações anteriores e preparando a companhia para um mercado em transformação cada vez mais acelerada.

“Meu avô, como fundador, era um cara de execução. Não esperava muito, ia lá e resolvia. Já meu pai era mais calmo para planejar e fazer melhores escolhas”, contou. Segundo o empresário, foi a partir dessas duas referências que começou a refletir sobre como poderia unir a capacidade de agir à necessidade de pensar estrategicamente. Uma combinação que definiu como uma mistura de psicologia e matemática.

A experiência em diferentes áreas da Suzano também o levou a desenvolver o que chama de ambidestria, habilidade de conciliar características aparentemente distintas, como planejamento e execução, curiosidade e reflexão. Para Feffer, essa capacidade é cada vez mais necessária aos líderes que precisam administrar os resultados do presente sem perder de vista as mudanças do futuro.

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Da sucessão familiar à profissionalização

A trajetória da família Feffer começou com Leon, que deixou a Ucrânia e construiu seu negócio no Brasil. Max participou da expansão da empresa, enquanto David assumiu a responsabilidade de conduzir um novo ciclo de desenvolvimento e profissionalização.

A passagem de comando, entretanto, esteve longe de ser simples. Feffer contou que, apesar de ter sido preparado durante anos para assumir responsabilidades na companhia, sentiu medo quando chegou o momento. As mortes seguidas do avô e do pai, em 1999 e 2001, respectivamente, tornaram o processo ainda mais difícil. “Quando o momento chegou eu estava sozinho”, afirmou, ao recordar a necessidade de lidar simultaneamente com a perda familiar e as decisões sobre o futuro de uma empresa gigante, que só no último ano faturou R$ 50 bilhões.

Foi nesse período que passou a questionar qual seria sua contribuição para a história da Suzano. Se o avô havia fundado a companhia e o pai impulsionado sua expansão, ele e os irmãos decidiram que o próximo legado deveria estar associado à sustentabilidade e à construção de uma empresa capaz de atravessar novas gerações.

A estratégia foi organizada em três pilares. O primeiro foi a profissionalização da gestão, com a possibilidade de que os principais cargos sejam ocupados por executivos de fora da família controladora. Para Feffer, a escolha de dirigentes deve considerar a capacidade profissional, e não o sobrenome.

O segundo pilar foi ampliar o compromisso da companhia para além dos acionistas, incorporando os interesses de funcionários, clientes, fornecedores, comunidades e demais públicos afetados por suas atividades. “Só é bom para nós se for bom para o mundo”, resumiu.

O terceiro foi assegurar o comprometimento dos acionistas controladores com o negócio no longo prazo. A combinação busca preservar a continuidade da empresa sem transformar a sucessão familiar em um obstáculo à profissionalização.

David Feffer, em painel do g4 Valley (Foto: G4 Educação)

A preocupação com a longevidade também orienta os investimentos em tecnologia e sustentabilidade. Segundo Feffer, a Suzano planta atualmente cerca de 1,2 milhão mudas de árvores por dia e tem um saldo líquido de remoção de carbono equivalente (gases que causam o efeito estufa) de mais de 13 milhões de toneladas por ano. Para ele, as florestas plantadas são parte importante da resposta para os atuais desafios ambientais e representam um ativo estratégico para a companhia.

O empresário destacou o papel da biotecnologia e da inteligência artificial no desenvolvimento de árvores mais resistentes e produtivas e na busca por processos de produção mais sustentáveis. A inovação, porém, não deve ser entendida apenas como investimento em novas ferramentas.

Na avaliação de Feffer, ela exige disposição para assumir riscos, questionar métodos consolidados e reconhecer que “o sucesso de hoje não garante a competitividade de amanhã”, disse o executivo, lembrando de uma reflexão do filósofo Mario Sergio Cortella.

Para ele, um dos maiores riscos para o empreendedor é permitir que o crescimento da empresa produza uma sensação de autossuficiência. “O sucesso pode deixar a gente cego e surdo”, alertou. Isso acontece, segundo ele, quando dirigentes deixam de ouvir clientes, observar concorrentes e buscar referências fora da própria organização.

Feffer defendeu que empresários saiam dos escritórios, conversem com diferentes públicos e mantenham a liberdade intelectual para ouvir críticas e opiniões divergentes. Essa abertura, segundo ele, é essencial para perceber mudanças no mercado antes que elas comprometam os negócios.

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O empreendedor defende adaptação às mudanças do mercado, gestão compartilhada e atenção às tendências para garantir a longevidade dos negócios

Preparação de herdeiros

Se a profissionalização é fundamental para a continuidade de uma empresa familiar, a preparação das novas gerações representa outro desafio. Feffer ressaltou que sucessão não significa apenas transferir patrimônio, mas formar acionistas capazes de compreender suas responsabilidades.

Na família, essa tarefa é dividida entre os irmãos. Enquanto David se dedica aos negócios, outro irmão atua na preparação dos descendentes para o papel de acionistas e, quando houver interesse e qualificação, para funções profissionais na companhia. Segundo o executivo, dois integrantes da nova geração já trabalham na Suzano, seguindo critérios de profissionalismo e disciplina.

Aliás, ele frisou que a união familiar é um valor transmitido desde o avô Leon, que reunia adultos e crianças para reforçar a importância de manter os vínculos entre os parentes. A preocupação tem uma dimensão econômica. Em empresas familiares, divergências entre herdeiros, falta de preparação dos sucessores e confusão entre propriedade e gestão podem comprometer a continuidade do negócio. Na visão de Feffer, preservar a coesão entre os acionistas e manter a administração profissional são condições fundamentais para garantir a longevidade.

Desafios para 2027

Ao abordar os desafios para 2027, Feffer afirmou que a velocidade das transformações tecnológicas exigirá das empresas mais criatividade, capacidade de adaptação e disposição para rever decisões. Como exemplo, mencionou a evolução acelerada das ferramentas de inteligência artificial, cujas capacidades podem mudar significativamente em poucas semanas. Nesse ambiente, os modelos de gestão precisam combinar agilidade na execução com planejamento estratégico.

O presidente do conselho também destacou a importância de administrar o tempo e estabelecer prioridades. Na sua avaliação, empreendedores precisam fazer escolhas objetivas para concentrar energia nas iniciativas que realmente fazem diferença.

“Em mais de um século de atividade, a Suzano atravessou crises econômicas, mudanças tecnológicas e períodos de expansão e retração. Essa experiência reforça a necessidade de persistência, mesmo quando os resultados não aparecem no ritmo esperado. No encerramento da palestra, Feffer defendeu o otimismo, não como expectativa de que os problemas desapareçam, mas como disposição para enfrentá-los. “Pode estar a maior tempestade, mas atrás da nuvem tem sol”, afirmou.

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