# “Há seis anos eu nem sabia reconhecer um vinho estragado”: sommelière de hotel famoso é campeã mundial de degustação às cegas

- Seção: Itatiba e Região
- Fonte: Tribuna de Jundiaí (https://tribunadejundiai.com.br/mais/brasil/ha-seis-anos-eu-nem-sabia-reconhecer-um-vinho-estragado-sommeliere-de-hotel-famoso-e-campea-mundial-de-degustacao-as-cegas/)
- Publicado em: 2026-10-30T11:41:06.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1433169-ha-seis-anos-eu-nem-sabia-reconhecer-um-vinho-estragado-sommeliere-de-hotel

> Nascida na Vendée, departamento do oeste francês voltado ao Atlântico, Camille planejava seguir a trilha da medicina veterinária depois do baccalauréat. Ilustração criada com Inteligência Artificial

Camille Guilbaud ainda repete a frase com a mesma incredulidade de quem olha para o próprio currículo e não reconhece o ponto de partida: há seis anos ela não sabia identificar um vinho bouchonné, aquele estragado pela rolha contaminada que entrega cheiro de papel molhado e gosto de mofo.

No sábado 17 de outubro, a sommelière do hotel du Cap-Eden-Roc, em Antibes, cidade costeira do sudeste da França, subiu ao lugar mais alto do pódio do campeonato mundial de degustação de vinho às cegas em Avignon, no interior da Provença, ao lado da parceira Candy Sangare.

O que separa a jovem que quase virou veterinária da campeã mundial é uma virada de carreira construída em memória gustativa, confiança a dois e um capítulo brasileiro que a própria prova acabou de reescrever.

A competição reuniu cerca de quarenta países, doze vinhos servidos sem qualquer indicação de origem, casta ou safra, e apenas dez minutos por garrafa para o duo anotar cor, nariz, boca, hipótese de região e, se possível, o nome do produtor. Não há plateia a favor nem dica de sommelier de casa. A taça chega coberta, o tempo corre e o erro de um contamina a nota do outro.

Camille descreveu o instante da vitória como um estado segundo: ela tinha viajado esperando, no máximo, terminar entre as dez primeiras duplas. Quando o resultado saiu, as duas pularam de alegria no salão de Avignon sem conseguir processar de imediato o que o placar dizia.

Da faculdade de veterinária na Vendée ao salão do Cap-Eden-Roc

Nascida na Vendée, departamento do oeste francês voltado ao Atlântico, Camille planejava seguir a trilha da medicina veterinária depois do baccalauréat. A família, porém, decidiu se instalar no Brasil, e a mudança empurrou a jovem para um desvio que ela só mais tarde chamaria de sinal do destino.

No novo país ela ainda não lia a carta de vinhos com a segurança de quem distingue um Borgonha de um Bordeaux pelo perfume sozinho. O ofício da sommellerie entrou pela porta lateral, por encontros de trabalho e por uma curiosidade que foi virando disciplina.

Seis anos depois da fase em que um vinho rolhado passava despercebido, ela já comandava a carta de um dos hotéis mais cobiçados da Côte d’Azur, o du Cap-Eden-Roc, propriedade histórica de Antibes que recentemente foi eleita melhor hotel da França por uma publicação americana de prestígio.

O hotel exige precisão diária: hóspedes internacionais, jantares longos, pedidos que misturam grandes crus e rótulos menos óbvios. Camille treina o paladar no serviço real, não só em bancada de concurso. Cada serviço vira arquivo mental de acidez, tanino, evolução em taça e defeito possível. Essa rotina, somada ao treino específico para a prova às cegas, formou o repertório que a levou a Avignon.

O Nice-Matin registrou o percurso e a declaração em que ela resume a distância entre o passado recente e o título mundial com a frase que hoje abre qualquer conversa sobre a conquista.

Como funciona a degustação às cegas que decide o título mundial

Na modalidade que consagrou a dupla, o competidor não vê o rótulo, não recebe ficha técnica e não pode consultar aplicativo ou colega de fora da cabine. Os doze vinhos chegam em sequência. Para cada um restam dez minutos.

Nesse intervalo é preciso descrever visualmente a lágrima e a intensidade da cor, identificar família aromática, avaliar corpo, final e eventual madeira, e arriscar uma origem geográfica coerente com o que a taça entrega. Erros clássicos incluem confundir um vinho do Novo Mundo com um europeu envelhecido em carvalho novo demais ou atribuir a um branco jovem a complexidade de um tinto de guarda.

A pontuação premia consistência entre os dois membros da dupla: se um acerta a região e o outro dispara para o lado oposto do mapa, a média despenca. Memória gustativa é o músculo central. Camille insiste que não basta ter “bom nariz”.

É preciso ter catalogado, ao longo de anos, centenas de combinações de solo, clima e vinificação para que, diante de um aroma de grafite ou de fruta negra madura, o cérebro recupere a âncora certa. A confiança mútua completa o método. Em prova de dupla, uma atleta pode segurar a outra quando a insegurança aparece no sexto ou sétimo vinho, momento em que o cansaço sensorial costuma distorcer a leitura.

Candy Sangare e Camille construíram esse código antes de chegar à final, e o resultado em Avignon mostrou que o sistema aguentou a pressão de uma sala com dezenas de seleções nacionais.

Os doze vinhos, o relógio e o risco do empate técnico

Organizar doze amostras em sequência curta exige protocolo rígido de limpeza de taça, temperatura e ordem de serviço para não contaminar o olfato. Os juízes controlam o tempo com rigor militar. Quem termina a ficha depois do sinal perde pontos ou tem a resposta anulada.

Empates técnicos são desfeitos por critérios de precisão na identificação de safra ou de appellation quando o regulamento permite esse nível de detalhe. A dupla francesa saiu na frente porque acertou o suficiente no bloco inteiro, não porque brilhou em um único vinho espetacular. Essa regularidade é o que separa o pódio de uma honrosa posição intermediária.

O capítulo brasileiro que antecede o ouro e o primeiro pódio do país

Antes de Antibes e de Avignon, Camille morou no Brasil. Foi nesse período que a rota da sommellerie se consolidou e que a parceria com Candy Sangare ganhou forma.

A convivência em território brasileiro deu às duas um repertório compartilhado de rótulos do Velho e do Novo Mundo servidos em cartas locais, além de uma linguagem comum para discutir defeitos, evolução e harmonização sob clima tropical, onde o vinho se comporta de modo diferente na taça e no transporte.

O editor da pauta destaca o que a própria cronologia confirma: a campeã mundial de degustação às cegas conheceu a parceira de dupla no Brasil, e o laço formado aqui atravessou o Atlântico até o salão de Avignon. No mesmo mundial de 17 de outubro, a seleção brasileira encerrou a disputa em terceiro lugar. Foi o primeiro pódio do país na história da competição.

O bronze chegou no dia em que a dupla francesa subiu ao ouro, o que transforma a data em marco duplo para quem acompanha a sommellerie a partir do Brasil. A presença brasileira no top 3 quebra a ideia de que a modalidade às cegas seria território exclusivo de países com séculos de tradição formal em escolas de vinho.

O resultado não apaga a hierarquia histórica da França, da Itália ou da Espanha, mas registra que uma equipe treinado sob outra latitude consegue ler a mesma taça coberta com precisão de medalha.

O que o terceiro lugar muda na conversa sobre vinho no Brasil

Para sommeliers, importadores e estudantes de enologia no Brasil, o pódio funciona como prova pública de método. Treinar às cegas deixa de ser exercício de vitrine e vira ferramenta de resultado. Escolas e associações que já organizam tastings sem rótulo ganham argumento concreto para ampliar carga horária desse tipo de prova.

Restaurantes que investem em carta própria e em equipe estável passam a enxergar o retorno esportivo de um ofício que, no dia a dia, ainda é visto por muita gente apenas como serviço de luxo. O bronze não cria, sozinho, uma geração de campeões, mas oferece um calendário mental: existe um mundial, existe um placar e existe um país que agora sabe que pode chegar lá.

A rotina no Cap-Eden-Roc depois do título

Voltar ao hotel depois de Avignon não significa pausa. O Cap-Eden-Roc mantém ocupação alta, eventos privados e uma clientela que conhece safra e produtor pelo nome. Camille retoma o serviço com o título nas costas, o que aumenta a expectativa sobre cada recomendação.

A diferença prática é a autoridade moral diante da equipe e dos fornecedores: quem acaba de vencer o mundo às cegas fala de um vinho com outro peso, mesmo quando o assunto é um rótulo cotidiano da carta, não um monstro de leilão. A sommelière, no entanto, continua a descrever o ofício como construção lenta de arquivo sensorial, não como milagre de uma noite.

O contraste com a jovem que não reconhecia vinho estragado segue sendo o fio condutor da narrativa que ela mesma conta. Seis anos separam a insegurança básica da capacidade de dissecação em dez minutos sob cronômetro internacional. Esse intervalo curto, em escala de carreira, explica por que a declaração abriu a cobertura francesa e por que ecoa entre profissionais que entraram tarde no vinho.

A mensagem embutida não é de genialidade súbita; é de treino deliberado depois de um desvio de rota que começou longe dos vinhedos da Borgonha.

Memória gustativa, confiança em dupla e o que se treina de verdade

Camille aponta dois pilares para o ouro: memória gustativa e confiança mútua. O primeiro se constrói degustando com método, anotando, revisitando o mesmo vinho em momentos diferentes e confrontando a impressão inicial com a ficha real. O segundo se constrói em treinos de dupla nos quais uma atleta precisa aceitar a leitura da outra sem transformar a cabine em debate eterno. Em competição, não há tempo para ego.

Há tempo para decidir se aquele toque de pimenta da Jamaica aponta para um syrah do Ródano ou para um corte do Novo Mundo com madeira americana, e seguir para a próxima taça. Defeitos também entram no treino.

Reconhecer bouchonné, oxidação, redução excessiva ou contaminação por brettanomyces é parte do arsenal, porque um vinho defeituoso no meio da bateria pode sabotar a sequência inteira se o degustador não o isola mentalmente.

A frase de Camille sobre não saber identificar rolha contaminada há seis anos funciona, nesse sentido, como medida de distância técnica: o ponto zero era não dominar o defeito mais clássico da rolha de cortiça; o ponto atual é vencer o mundo lendo doze vinhos limpos e complexos sem qualquer pista visual.

Por que a prova às cegas interessa a quem não compete

Fora do circuito de campeonato, a degustação às cegas é usada em importadoras para validar compras, em restaurantes para calibrar a equipe e em cursos para impedir que o aluno decore rótulo em vez de entender estrutura. O formato expõe preconceito de preço e de prestígio: um vinho barato bem feito pode superar um nome famoso em safra fraca, e a taça coberta obriga o profissional a admitir o que de fato sente.

No Brasil, onde a carta de muitos estabelecimentos ainda mistura poucas referências nacionais com um bloco europeu previsível, o hábito às cegas ajuda a abrir espaço para regiões menos óbvias e para produtores que não cabem no discurso de status.

O vinho no Brasil depois de um pódio que não existia

A conquista francesa de Camille e Candy e o terceiro lugar brasileiro no mesmo mundial chegam em um momento em que o consumo e a produção de vinho no Brasil já não se limitam ao gesto cerimonial de fim de ano.

Há vinícolas em expansão no Sul, projetos em altitude em outras regiões, cartas mais ousadas em São Paulo, no Rio e em capitais do Centro-Sul, e um público jovem que mistura natural wine, clássicos do Velho Mundo e curiosidade por rótulos sul-americanos. O pódio não inventa essa cena; ele oferece um espelho esportivo para um ofício que cresce longe dos holofotes de estádio.

Sommeliers brasileiros que acompanham torneios internacionais passam a ter um calendário de referência concreto. Treinar para Avignon, ou para seletivas que levem a Avignon, deixa de ser quimera. O fato de a campeã mundial ter morado no Brasil e ter formado a dupla vencedora a partir desse período reforça a circulação de gente e de método entre os dois países.

Estágios, colheitas, temporadas em hotel de luxo e retorno ao mercado brasileiro formam um vaivém já conhecido na gastronomia; a medalha de ouro e o bronze no mesmo dia apenas tornam esse fluxo legível para quem não frequenta bastidor de prova.

Restaurantes e hotéis que mantêm sommelier fixo ganham um argumento de formação: a mesma disciplina que leva ao pódio melhora o serviço de terça-feira à noite, quando o cliente pede um tinto para peixe ou hesita entre dois brancos de faixas de preço parecidas. A excelência às cegas não é capricho de concurso; é leitura rápida sob pressão, exatamente o que o salão exige quando a mesa está cheia e a cozinha em fogo.

O bronze brasileiro e o ouro da sommelière que passou pelo país conversam com essa realidade cotidiana sem precisar de metáfora.

O que ainda não se sabe e o que a taça já disse

Detalhes de pontuação por vinho, lista completa das seleções e o caminho exato de cada amostra em Avignon não foram abertos em escala total na cobertura disponível.

O que está estabelecido basta para cravar o fato central: em 17 de outubro, em Avignon, Camille Guilbaud e Candy Sangare tornaram-se campeãs mundiais de degustação às cegas; Camille, sommelière do du Cap-Eden-Roc em Antibes, resume a própria trajetória com a confissão de que há seis anos não reconhecia vinho estragado; ela morou no Brasil, encontrou ali a parceira de dupla; e o Brasil, no mesmo mundial, obteve o terceiro lugar, primeiro pódio de sua história na prova. O restante é treino, memória e o relógio de dez minutos que não espera a insegurança passar.

A história que chega ao leitor brasileiro, portanto, não é a de um título distante disputado por desconhecidos em uma cidade que se visita só em guia de turismo.

É a de uma profissional que atravessou o Atlântico na direção inversa à do clichê, formou parceria em solo brasileiro, voltou à França para comandar a carta de um hotel de ponta e, em menos de uma década depois de não dominar o defeito mais elementar da rolha, ganhou o mundo com a colega de dupla. No mesmo salão, o Brasil subiu ao pódio pela primeira vez.

Entre o ouro e o bronze ficou registrada uma data em que a degustação às cegas deixou de ser apenas especialidade europeia de vitrine e passou a incluir, de modo irreversível, um capítulo escrito com passagem pelo Brasil e com medalha brasileira no quadro. Camille segue no Cap-Eden-Roc. Candy segue como metade do código que venceu Avignon. As próximas provas encontrarão uma dupla caçada e uma seleção brasileira que já sabe o gosto do pódio.

Para quem começa agora a estudar vinho em cidade brasileira, a frase da campeã vale como método e como aviso: o ponto de partida pode ser não reconhecer um vinho estragado; o ponto de chegada, se houver disciplina de arquivo sensorial e parceiro de confiança, pode ser um mundial. O placar de 17 de outubro está aí para provar que o intervalo entre um e outro pode caber em seis anos.

Reportagem completa: https://tribunadejundiai.com.br/mais/brasil/ha-seis-anos-eu-nem-sabia-reconhecer-um-vinho-estragado-sommeliere-de-hotel-famoso-e-campea-mundial-de-degustacao-as-cegas/

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