Agora, em O Sentido da Vida , seu novo filme exibido na 50ª Mostra de Cinema de São Paulo , o cineasta japonês retoma parte dessas questões ao abordar a importância do cuidado em uma sociedade cada vez mais orientada pela produtividade. Mais do que procurar uma resposta definitiva para a nossa existência, como sugere o título brasileiro, o diretor observa o que acontece quando duas pessoas se permitem enxergar uma à outra para além das convenções e expectativas sociais.
A história começa com um encontro inesperado em um parque. Marie-Lou Fontaine ( Virginie Efira , Benedetta ), diretora de uma casa de repouso nos arredores de Paris, conhece Mari Morisaki ( Tao Okamoto , A Sombra de uma Estrela ), uma dramaturga japonesa com diagnóstico grave de uma doença. Embora tenham trajetórias distintas, as duas compartilham experiências que favorecem uma aproximação: uma francesa que já estudou no Japão e uma japonesa que foi à França em busca de conhecimento.
Em seu trabalho, Marie-Lou implementa o Humanitude, metodologia de cuidado centrada no indivíduo. A proposta, entretanto, encontra resistência de uma equipe acostumada a uma lógica de trabalho que prioriza a eficiência e a administração dos corpos em detrimento das necessidades particulares de cada residente. O que poderia parecer apenas uma mudança de procedimento acaba revelando um problema muito maior: como oferecer um tratamento verdadeiramente humano dentro de uma estrutura que não foi concebida para respeitar o tempo e a individualidade de cada pessoa?
É a partir desse conflito que Hamaguchi desenvolve um de seus principais dilemas. Em determinado momento, o filme dedica um longo debate, inclusive com explicações em um quadro branco, para discutir como o capitalismo depende de um ciclo permanente de consumo e crescimento, mesmo quando essa lógica se mostra autodestrutiva. O cuidado defendido por Marie-Lou não encontra espaço nesse modelo: exige tempo, atenção e disponibilidade para reconhecer cada indivíduo além de sua condição física ou utilidade social.
Por isso, a metodologia Humanitude soa quase utópica quando confrontada com uma sociedade que transforma até o envelhecimento em um problema administrativo. O diretor também evita restringir a discussão ao funcionamento da instituição — soaria panfletário demais. Aos poucos, a relação entre as protagonistas desloca o debate para questões mais íntimas, mostrando como nossas ideias sobre existência, morte e responsabilidade diante do outro são atravessadas pela maneira como organizamos a vida em sociedade. A dimensão política do filme, portanto, não está separada de sua dimensão afetiva: uma coisa depende diretamente da outra.
A direção de Hamaguchi é especialmente elegante na maneira como organiza os encontros entre essas duas mulheres. Sua câmera acompanha as personagens com atenção aos espaços, aos olhares e às pequenas mudanças de comportamento, sem recorrer a movimentos ostensivos ou soluções dramáticas para sublinhar aquilo que já está presente nas relações. Há uma naturalidade na condução das conversas que permite às personagens transitarem entre assuntos cotidianos e questões profundas sem que a narrativa perca sua unidade.
Marie-Lou e Mari não precisam compartilhar os mesmos valores ou encontrar respostas para todas as perguntas; é justamente o exercício de escuta, mesmo diante das diferenças, que fortalece a relação. A convivência também revela algo interessante sobre a intimidade: conhecer alguém não significa necessariamente dominar sua história, mas reconhecer suas necessidades, respeitar seus limites e estar disponível para compartilhar um pedaço do próprio tempo. Nesse sentido, a aproximação das duas mulheres representa, em escala individual, aquilo que Marie-Lou tenta construir na casa de repouso: um espaço em que ninguém seja reduzido à função que desempenha ou à condição que ocupa.
A escolha do título brasileiro, aliás, acrescenta uma pretensão que não existe no projeto original: em japonês, Soudain ( De Repente , na tradução livre), nome que também inspirou o título internacional All of a Sudden , carrega uma simplicidade muito mais próxima da proposta de Hamaguchi . O cineasta não pretende oferecer uma grande resposta para uma pergunta tão clichê, tampouco construir uma fábula sobre como devemos viver. Seu interesse está justamente na impossibilidade de encontrar respostas definitivas e na beleza de continuar procurando por elas ao lado de outras pessoas.
O Sentido da Vida nos revela — e celebra — que podemos transformar instituições e lutar contra uma lógica que reduz a existência à produtividade, mas não podemos escapar da finitude. O que está ao nosso alcance é tornar essa passagem mais digna, afetuosa e humana. É daí que nasce a esperança serena do filme: sem ignorar as contradições do mundo ou oferecer soluções fáceis, Hamaguchi encontra nas relações humanas uma forma de resistir à lógica cruel do capitalismo. Em tempos de tanto individualismo, cuidar do outro se torna um dos gestos mais profundos de afirmação da própria vida.
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