O médico oftalmologista M. Rasool Khan descreveu, em entrevista à agência EFE, o momento em que a orientação chegou ao hospital público de olhos onde trabalha: a pedido do Ministério para a Propagação da Virtude e a Prevenção do Vício, o líder supremo talibã, referido como Amir al-Mu’minin, proibiu os transplantes de órgãos humanos no Afeganistão, inclusive os de córnea.
A informação, reproduzida pelo portal Digi24 a partir da cobertura da EFE, coloca em xeque o tratamento de um volume elevado de pacientes que já estavam na fila para recuperar a visão e transforma uma decisão religiosa e administrativa em obstáculo clínico imediato. Segundo os oftalmologistas ouvidos, a ordem não veio por decreto escrito afixado em mural, e sim por instrução verbal repassada às unidades de saúde.
Os profissionais passaram a interromper o agendamento e a execução dos enxertos de córnea sob o argumento de que a cúpula talibã considera o transplante de órgãos incompatível com a charia, a lei islâmica na interpretação adotada pelo governo de facto.
A consequência prática é direta: quem dependia da cirurgia para sair da cegueira parcial ou total permanece na lista de espera sem previsão de data, enquanto as autoridades oficiais negam que exista qualquer restrição formal.
Como a proibição chegou aos hospitais e o que os médicos passaram a enfrentar
Rasool Khan, ligado a um hospital oftalmológico público, detalhou que a interdição abrange o conjunto dos transplantes de órgãos humanos e cita expressamente a córnea. A fala do médico amarra a decisão a um episódio anterior de pressão social e sanitária: o aumento da venda de rins em Herat, cidade do oeste do Afeganistão, onde a pobreza empurrou moradores a comercializar órgãos.
A leitura das autoridades religiosas, de acordo com o relato médico, foi a de frear qualquer circuito de doação e enxerto para evitar o que classificam como comércio ilícito de partes do corpo, mesmo quando o procedimento oftalmológico não envolve o mesmo tipo de tráfico. Os oftalmologistas afirmam que a orientação verbal cria um limbo operacional.
Sem documento público claro, as equipes ficam expostas tanto à cobrança de pacientes e famílias quanto ao risco de desobedecer uma ordem atribuída ao topo da hierarquia talibã. A negação das autoridades de que a restrição exista aprofunda a confusão: de um lado, o consultório deixa de operar o enxerto; de outro, o discurso oficial tenta esvaziar a denúncia.
No meio ficam pessoas com opacificação de córnea, sequelas de infecção, trauma ou doença degenerativa que só recuperam grau útil de visão com tecido doado e cirurgia especializada.
A córnea é o tecido transparente na frente do olho e, em muitos sistemas de saúde, é obtida de doadores falecidos por meio de bancos de olhos, com critérios de qualidade, sorologia e tempo de preservação. Diferentemente de rim, fígado ou coração, o enxerto corneano não exige compatibilidade genética complexa na mesma escala e pode devolver visão funcional em casos selecionados com uma única cirurgia e acompanhamento.
Mesmo assim, no relato dos médicos afegãos, a proibição genérica de “transplante de órgãos humanos” foi estendida a esse tecido, igualando um procedimento de restauração visual a intervenções de maior porte e a práticas de venda ilegal de rins. Essa equiparação, na avaliação dos profissionais citados, ignora a natureza do ato médico oftalmológico e o perfil dos pacientes.
Muitos dos que aguardam o enxerto são adultos em idade produtiva, idosos com ceratopatia avançada ou pessoas que perderam transparência corneana após infecções mal tratadas. Sem a cirurgia, o caminho clínico se reduz a colírios paliativos, correção óptica limitada ou aceitação da baixa visão permanente. A fila, descrita como longa, deixa de ser fila de espera e vira registro de demanda sem oferta institucional.
A reação dos oftalmologistas diante da lista de espera paralisada
A reação médica, conforme a cobertura da EFE, combina denúncia técnica e impotência administrativa. Ao tornar pública a ordem verbal, Rasool Khan e colegas expõem o choque entre a indicação clínica e a vedação religiosa-política. Eles não descrevem a proibição como ajuste pontual de protocolo hospitalar, e sim como interrupção de uma linha de cuidado já estabelecida.
A ênfase recai sobre o volume de pacientes que já estavam cadastrados e sobre a ausência de alternativa cirúrgica equivalente dentro do país para devolver transparência à superfície ocular. Profissionais de oftalmologia em contextos de restrição costumam enfrentar, além do bloqueio do centro cirúrgico, a erosão da confiança do paciente.
Quem esperava meses por um tecido compatível passa a ouvir que o procedimento não será feito, sem um plano B estatal de encaminhamento externo ou de revisão casuística. Isso aumenta a pressão sobre ambulatórios de baixa visão, sobre a prescrição de auxílios ópticos e sobre famílias que já arcam com deslocamento até a capital ou até centros regionais.
A fala médica também registra o vínculo causal que as autoridades teriam feito com o comércio de rins em Herat, o que, para os oftalmologistas, mistura combate a crime com suspensão de terapia visual legítima.
O impacto cotidiano sobre quem depende do enxerto para enxergar de novo
Para o paciente, a córnea opaca significa glare intenso, visão embaçada, dificuldade de reconhecer rostos, ler, circular com segurança e trabalhar. Quando a indicação de transplante já foi feita, a expectativa de recuperação se organiza em torno de uma data de centro cirúrgico e de um tecido disponível. Com a proibição relatada, essa expectativa se desfaz.
A lista de espera deixa de avançar, o banco de olhos, se existente, perde função operacional, e o quadro clínico pode se agravar por úlcera, vascularização ou outras complicações que pioram o prognóstico caso a cirurgia um dia volte a ser permitida. Famílias que já haviam reunido recursos para deslocamento, hospedagem e exames pré-operatórios enfrentam gasto sem desfecho.
Em regiões marcadas por pobreza, como a descrita em torno de Herat, a mesma vulnerabilidade econômica que alimentou a venda de rins agora convive com a impossibilidade de acessar um enxerto corneano legal. O resultado é um reforço da deficiência visual como condição permanente para quem poderia ter indicação clara de reabilitação cirúrgica.
Os médicos, ao falarem com a imprensa internacional, tentam documentar esse custo humano antes que o silêncio administrativo normalize a interrupção.
Autoridades negam a restrição enquanto a orientação verbal trava o centro cirúrgico
O contraste entre a narrativa médica e a negação oficial é um dos eixos da reportagem original. Enquanto oftalmologistas afirmam ter recebido ordem para não operar, o governo de facto rejeita a existência da proibição.
Esse descompasso gera insegurança jurídica e clínica: o hospital que parar pode ser acusado de omitir tratamento; o que insistir em operar pode ser acusado de desrespeitar a charia na leitura do Ministério para a Propagação da Virtude e a Prevenção do Vício. A instrução verbal, por natureza, deixa pouca trilha documental para recurso ou esclarecimento público.
Em sistemas de saúde sob forte controle ideológico, a ambiguidade costuma funcionar como instrumento de controle. A ausência de texto legal detalhado permite à autoridade negar a medida perante a imprensa e, ao mesmo tempo, mantê-la na prática por meio de cadeias hierárquicas internas. Para o oftalmologista, o efeito é o mesmo de uma lei escrita: o enxerto não ocorre.
Para o paciente, a negação oficial não devolve a cirurgia; apenas complica a busca por informação confiável sobre se ainda vale a pena permanecer na fila ou procurar ajuda fora do país, opção inacessível para a maioria.
De Herat ao consultório
Herat, no oeste do Afeganistão, aparece no relato médico como o epicentro de um aumento na venda de rins ligado à miséria. A resposta das autoridades, segundo Rasool Khan, foi ampliar o cerco a qualquer transplante de órgão humano, alcançando a córnea.
O salto lógico preocupa os especialistas porque combate ao tráfico e regulação de doação são campos distintos da proibição absoluta de um procedimento que, em protocolos internacionais, se apoia em doação consentida pós-morte e em cadeias frias de banco de tecidos. Ao tratar tudo como um bloco único, a política elimina também a via terapêutica oftalmológica. Esse tipo de generalização tem efeito cascata.
Equipes deixam de treinar novos cirurgiões de córnea, equipamentos de microscopia e trepanos perdem uso, e a cultura de doação ocular, já frágil em muitos contextos, se esvazia. Pacientes com ceratocone avançado, leucomas ou falência endotelial permanecem sem a única intervenção capaz de restituir eixo óptico útil.
A reação dos oftalmologistas, ao tornar o caso público, busca separar o crime da venda de rins da indicação legítima de ceratoplastia, pedindo que a distinção clínica sobreviva à leitura religiosa ampla.
A proibição relatada se insere em um cenário mais largo de restrições a serviços e a profissionais de saúde no Afeganistão desde a retomada do poder pelos talibãs. Sem inventar números que a fonte não traz, é possível registrar o mecanismo: decisões centrais, mediadas por ministérios de moralidade religiosa, chegam à ponta do sistema por ordem verbal e alteram o que pode ou não ser feito em centro cirúrgico.
A oftalmologia, disciplina que depende de insumos importados, tecidos doados e estabilidade de protocolo, torna-se especialmente vulnerável quando a regra oscila entre silêncio oficial e veto prático. A cegueira evitável por córnea é, em muitos países, alvo de programas de banco de olhos e mutirões.
Quando o Estado retira o procedimento do rol permitido, a deficiência visual deixa de ser apenas desfecho de doença e passa a ser também desfecho de política. Os médicos citados não descrevem alternativas estatais de reabilitação em escala, o que sugere que a suspensão não veio acompanhada de plano de substituição. A lista de espera, nesse quadro, documenta demanda reprimida e não gestão de fila.
Repercussão para quem acompanha doação de córnea e filas de cirurgia ocular no Brasil
No Brasil, a discussão sobre transplante de córnea passa pelo Sistema Nacional de Transplantes, pelos bancos de olhos vinculados a hospitais e pela dependência contínua de doação familiar em mortalidade.
Sem projetar sobre o Afeganistão estatísticas brasileiras nem inventar oficiais ou estudos inexistentes nesta pauta, o paralelo útil está no princípio: a ceratoplastia só existe onde há tecido captado, equipe habilitada e autorização legal clara.
Qualquer sinal de veto ideológico ou de ambiguidade normativa sobre doação de tecidos oculares interrompe a cadeia no mesmo ponto em que os médicos afegãos relatam ter parado, o centro cirúrgico. Oftalmologistas brasileiros que atuam com córnea lidam cotidianamente com a angústia de pacientes que já têm indicação cirúrgica e aguardam chamada.
A diferença institucional relevante é a existência de marco regulatório federal para captação e distribuição de tecidos, com filas estaduais e critérios de urgência. Esse arranjo não elimina espera nem desigualdade regional, mas evita o colapso súbito por ordem verbal de caráter religioso.
O caso afegão funciona, para o debate interno, como alerta sobre a fragilidade de programas de visão restaurativa quando a regra sanitária é substituída por interpretação moral ampla sem salvaguarda clínica.
Sociedades médicas e serviços de referência no país costumam reforçar campanhas de doação de córnea precisamente porque o tecido não se inventa em laboratório de rotina na escala da demanda e porque o tempo de viabilidade após a morte do doador é curto.
A notícia vinda do Afeganistão, ao mostrar médicos denunciando a parada das cirurgias e pacientes retidos em lista, dialoga com a necessidade de preservar clareza legal, financiamento de bancos de olhos e formação de cirurgiões.
A reação profissional descrita por Rasool Khan, de levar o problema à imprensa internacional, ecoa o papel de sociedades oftalmológicas em defender indicação técnica diante de pressões externas ao consultório.
Para o paciente brasileiro em fila, a lição prática não é alarmismo comparativo, e sim compreensão de que enxerto de córnea é serviço de alta dependência institucional. Quando a instituição falha ou é impedida, a baixa visão se cronifica. Políticas de educação para doação, agilidade na autorização familiar e manutenção de centros de referência são o que separa uma lista que anda de uma lista que apenas acumula nomes.
O relato dos médicos no Afeganistão, ao unir proibição, negação oficial e fila parada, expõe o custo humano de retirar a ceratoplastia do horizonte terapêutico.
O que permanece em aberto após a denúncia dos oftalmologistas
Enquanto as autoridades negarem a restrição e os hospitais mantiverem a suspensão prática, o impasse continua. Não há, na cobertura disponível, anúncio de revisão casuística, de exceção humanitária para crianças ou de canal de autorização religiosa individualizada para córnea.
Tampouco há detalhamento de quantos pacientes exatamente compõem a lista, informação que a fonte não quantifica e que, por isso, não pode ser fabricada.
O que está documentado é a existência de “grande número” de pessoas à espera, a ordem verbal atribuída ao líder supremo via ministério de virtude, o vínculo retórico com o comércio de rins em Herat e a voz médica pedindo visibilidade. A oftalmologia de transplante exige previsibilidade.
Tecidos precisam ser avaliados, cirurgiões precisam manter curva de prática, pacientes precisam de janela pós-operatória de colírios e controle de rejeição. Um veto abrupto desmonta esse encadeamento. A reportagem que trouxe o caso ao público internacional cumpre o papel de registrar a contradição entre a necessidade clínica e a vedação imposta.
Cabe às instâncias de saúde e às vozes médicas locais continuar documentando o que ocorre nos centros cirúrgicos, para que a negação oficial não apague o efeito concreto sobre quem ainda enxerga apenas vultos e luzes.
No fechamento do arco factual, permanece o núcleo exposto por Rasool Khan e pelos colegas: sob instrução ligada ao Ministério para a Propagação da Virtude e a Prevenção do Vício, os transplantes de córnea teriam sido incluídos na proibição de órgãos humanos, a despeito da fila de quem busca recuperar a visão, enquanto o governo de facto rejeita que tal restrição exista.
Entre a ordem verbal e a negativa pública, o paciente continua sem a cirurgia, e o oftalmologista continua sem mandato claro para operar.
Essa tensão, mais do que qualquer fórmula de efeito, define o estado atual do cuidado ocular sob a regra relatada no Afeganistão e alimenta o debate, também no Brasil, sobre por que bancos de olhos, filas transparentes e respaldo legal à doação de tecidos precisam permanecer à prova de ambiguidades que calem o centro cirúrgico.

