Uma das iniciativas é o Clube Capitolinas , coletivo criado pela médica e escritora Mila Nascimento . Todos os meses, o grupo reúne mais de 80 mulheres, de diferentes idades e profissões, em encontros presenciais e on-line. A cada encontro, as participantes leem uma obra e debatem temas relacionados à vida das mulheres.
Em entrevista ao portal acidade on Campinas , na BORA (Biblioteca de Obras Raras) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Mila contou que a ideia de criar um clube do livro surgiu após uma experiência pessoal. Em 2017, a escritora sofreu um episódio de violência doméstica e decidiu buscar formas de ajudar outras mulheres.
“Naquele momento, eu fiz duas promessas para mim: proteger o coração dos meus três filhos e fazer de tudo para que nenhuma outra mulher passasse pelo que eu passei”, contou.
Como a literatura sempre fez parte de sua vida, Mila decidiu criar um clube do livro com rodas de conversa sobre diferentes formas de violência.
“Na questão das mulheres, eu ficava muito sem saber o que fazer. Como é que eu vou proteger as mulheres, né? E aí, como a literatura para mim sempre foi um lugar muito especial, sempre gostei de ler, sempre escrevi desde a adolescência, eu falei: ‘Bom, vou fazer um clube do livro e, nessas rodas de conversa, vou conversar com mulheres sobre inúmeras formas de violência’”, relembrou.
Assim, o Capitolinas nasceu em 2024. Segundo Mila, o nome é uma homenagem a Capitu, personagem do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis. Além disso, também faz referência à palavra latina caput, que significa cabeça e inteligência.
“É uma forma de homenagear a inteligência e a sabedoria das mulheres”, afirmou Mila.
Encontro do Clube Capitolinas. (Foto: Arquivo pessoal)
Violência contra a mulher: número que só cresce
Segundo dados do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), Campinas registrou 1.868 medidas protetivas concedidas a mulheres entre janeiro e agosto deste ano. O número é 18,2% maior do que o contabilizado pelo município no mesmo período de 2025 e representa o maior patamar da série histórica das Varas de Violência Doméstica e Familiar da cidade, iniciada em 2018 (leia mais abaixo).
Livros como pontos de partida
Nos encontros do coletivo, os livros são pontos de partida para debater comportamentos que podem aparecer nos relacionamentos, como ciúme, machismo e atitudes abusivas. Segundo Mila, a identificação com as personagens pode ajudar as participantes a reconhecer situações vividas por elas mesmas ou por pessoas próximas.
“Quando a mulher lê aquele livro, ela identifica que: ‘Poxa, peraí, isso aqui que essa personagem está passando, eu também estou, ou tem alguém na minha família passando’”, explicou.
De acordo com Mila, já houve casos de participantes que se divorciaram ou conseguiram encerrar relacionamentos abusivos a partir das discussões do coletivo, realizadas preferencialmente em estabelecimentos administrados por mulheres ou em bibliotecas públicas. Para a escritora, sair de casa e encontrar outras pessoas também é uma parte importante da experiência.
“Sair de casa, passear, encontrar com as amigas fora também é um mecanismo importante de libertação feminina. A gente acredita que o coletivo, estar no grupo, é um importantíssimo fator de proteção às mulheres. Porque um dos braços principais do relacionamento abusivo, da violência, é isolar essa mulher”, afirma.
Para participar do Clube Capitolinas , basta entrar em contato pelo Instagram, no perfil @clubecapitolinas.
Reunião do Clube Capitolinas para discussão sobre livro. (Foto: Arquivo pessoal)
‘Ninguém vai contar a sua história, é você que vai’
A experiência com a literatura também levou o Capitolinas a desenvolver oficinas de escrita. Em maio de 2025, um desses encontros deu origem à coletânea Delas pra Elas, formada por cartas que as participantes escreveram para as mães. Os textos foram publicados com pseudônimos, e tanto o título quanto a capa foram criados por integrantes do coletivo.
“Nós mulheres tivemos as nossas histórias contadas por outras pessoas. A nossa voz, ela não é reconhecida. A nossa voz não é respeitada. É muito comum a gente ouvir: ‘Ah, você não sabe o que você está falando’. Isso é uma forma de violência. Então, quando você bota no papel o que você tem, o que você está sentindo, o que aconteceu com você, você documenta a sua história e você se apropria da sua história. Ninguém vai contar a sua história, é você que vai”, disse Mila.
Em março deste ano, a coletânea de cartas abriu caminho para a criação do selo editorial Cartolinas. O projeto começou com a publicação de seis autoras e tem previsão de lançar outros sete livros até dezembro. Segundo Mila, o lema do projeto é “escrever para permanecer”.
Além dos encontros do clube do livro, as Capitolinas também promovem saraus. Um deles aconteceu no fim de setembro, no Instituto Hilda Hilst, no Parque Xangrilá, onde as autoras do coletivo compartilharam seus escritos.
Faça uma denúncia ou sugira uma reportagem sobre Campinas e região por meio do WhatsApp do acidade on Campinas: (19) 97159-8294 .
Mulheres encontram acolhimento na arte
Outra iniciativa que utiliza a cultura como parte do acolhimento é o Caminhos da Liberdade , criado em 2026 pela Secretaria de Políticas para as Mulheres. A ação é voltada às usuárias do Ceamo (Centro de Referência e Apoio à Mulher) , serviço de acolhimento a mulheres em situação de violência doméstica e familiar, e oferece visitas a espaços culturais.
Segundo a secretária da pasta, Alessandra Hermann, a iniciativa surgiu a partir do entendimento dos direitos previstos no artigo 3º da Lei Maria da Penha, que completou 20 anos no último dia 7 de agosto.
“A proposta baseia-se na Lei Maria da Penha, que dispõe, no artigo 3º, que toda mulher tem direito à cidadania, à educação e à cultura”, disse.
Desde o início do Caminhos da Liberdade, em maio, mulheres atendidas pelo Ceamo conheceram o MAC (Museu de Arte Contemporânea de Campinas), o MASP (Museu de Arte de São Paulo), na capital paulista, e a Expoflora, em Holambra.
Caminhos da Liberdade visita o MIS. (Foto: Divulgação/Prefeitura)
Aos 58 anos, uma das mulheres atendidas pelo Ceamo contou que nunca havia visitado um museu antes de participar das atividades culturais do Caminhos da Liberdade. Sua primeira experiência foi no MAC e, nesta quarta-feira (28), ela conheceu o MIS (Museu da Imagem e do Som), no Centro de Campinas.
“Foi muito interessante, está me ajudando muito”, afirmou durante a visita.
Há cerca de cinco meses, a mulher chegou ao Ceamo por indicação do chefe, após ser perseguida e sofrer ameaças do ex-namorado. Por causa das ameaças, ela chegou a se afastar do trabalho.
Questionada sobre o significado de frequentar espaços culturais, afirmou: “Significa ter o acesso, aprender a saber o que tem”.
De acordo com a Secretaria de Políticas para as Mulheres, a participação no Caminhos da Liberdade é aberta às usuárias do Ceamo, sem processo de seleção. Cada visita reúne, em média, cerca de 30 mulheres, e os locais são escolhidos de acordo com a disponibilidade de programas culturais com entrada gratuita.
O que é o Ceamo?
Localizado no Centro de Campinas, o Ceamo foi fundado em setembro de 2002. O centro oferece atendimento humanizado e sigiloso a mulheres em situação de violência de gênero no âmbito doméstico. Ao longo de mais de duas décadas, o serviço já atendeu 11 mil mulheres, oferecendo atendimento psicológico e social, além de orientação jurídica, com o objetivo de ajudá-las a romper o ciclo de violência.
As mulheres que precisarem de atendimento podem comparecer à sede, na Rua Onze de Agosto, nº 412, ou entrar em contato pelo telefone e WhatsApp (19) 3735-9499 . O centro funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 19h.
Ceamon oferece atendimento sigiloso a mulheres em situação de violência de gênero no âmbito doméstico. (Foto: Divulgação/Prefeitura)
Acesso à cultura é garantido pela Lei Maria da Penha
Além de estabelecer mecanismos para prevenir e combater a violência doméstica e familiar, a Lei Maria da Penha reconhece que a proteção das mulheres envolve diferentes áreas da vida. O artigo 3º estabelece que devem ser asseguradas condições para o exercício efetivo dos direitos fundamentais, entre eles a educação, a cultura, o esporte, o lazer, o trabalho, a cidadania e a dignidade.
Para Suélen Cesario, advogada e presidente da Comissão das Mulheres Advogadas e dos Direitos das Mulheres da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) Campinas , essa previsão reforça que a proteção vai além do enfrentamento da violência.
“A cultura é um direito fundamental porque está relacionada à identidade, à liberdade de expressão, ao acesso ao conhecimento e à possibilidade de construir novas perspectivas de vida. Precisamos compreender que a violência contra a mulher não acontece de maneira isolada. Ela está inserida em uma estrutura social marcada por desigualdades históricas, que também se manifestam na produção cultural, na representação das mulheres e nas oportunidades de acesso aos espaços de conhecimento e expressão”, explicou em entrevista ao portal.
De acordo com ela, quando a lei fala em acesso à cultura, refere-se a garantir que as mulheres possam participar efetivamente da vida cultural , seja como espectadoras, consumidoras, produtoras ou protagonistas.
“Na prática, isso envolve o acesso a bibliotecas, teatros, cinemas, museus, exposições, shows, oficinas artísticas, cursos, projetos culturais e atividades comunitárias. Também significa possibilitar que as mulheres tenham contato com a literatura, a música, o audiovisual, as artes visuais e outras formas de expressão”, disse.
Reconhecimento dos direitos
Segundo Suélen, também é possível pensar na cultura como instrumento de conscientização e transformação social.
“Projetos de leitura, rodas de conversa, oficinas de escrita, apresentações teatrais e atividades artísticas podem contribuir para que as mulheres reconheçam seus direitos, fortaleçam sua autoestima, construam vínculos comunitários e ampliem suas perspectivas de futuro”, afirmou.
Porém, o reconhecimento de um direito na legislação não significa, necessariamente, que ele esteja sendo efetivado no cotidiano. De acordo com a advogada, uma das principais barreiras ao acesso à cultura é a desigualdade econômica.
“Muitas mulheres não dispõem de recursos para pagar ingressos, transporte ou outras despesas necessárias à participação em atividades culturais. Existe também a sobrecarga do trabalho doméstico e do cuidado. Outro obstáculo é a violência de gênero e a violência doméstica: uma mulher que vive sob controle de um companheiro pode ser impedida de sair de casa. O medo e a insegurança também podem limitar sua circulação”, disse.
Ainda de acordo com Suélen, existem barreiras relacionadas ao racismo, ao capacitismo, à discriminação etária e a outras formas de exclusão.
“Muitas vezes, o acesso às atividades culturais é tratado como luxo ou entretenimento supérfluo, quando, na realidade, a participação na vida cultural integra os direitos humanos. Por isso, não basta afirmar que todas as mulheres têm direito à cultura. É necessário construir políticas públicas que considerem as desigualdades existentes e criem condições concretas para que esse direito seja exercido”, finalizou.
Violência contra a mulher em Campinas
Segundo dados do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), Campinas registrou 1.868 medidas protetivas concedidas a mulheres entre janeiro e agosto deste ano, uma média de aproximadamente oito por dia.
O número é 18,2% maior do que o contabilizado pelo município no mesmo período de 2025 e representa o maior patamar da série histórica das Varas de Violência Doméstica e Familiar da cidade, iniciada em 2018.
Também é possível observar o aumento nos atendimentos realizados pela Defensoria Pública. Na cidade, os pedidos de medidas protetivas de urgência feitos por meio da instituição passaram de 143, em 2024, para 191, em 2025, uma alta de aproximadamente 33%.
Já as tentativas de feminicídio aumentaram 17,8% nas regiões de Campinas e Piracicaba entre janeiro e agosto de 2026, segundo dados da SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo) . Foram 53 ocorrências em 49 cidades da região, contra 45 no mesmo período do ano passado.
O avanço ocorre em meio ao crescimento das prisões e apreensões por violência doméstica. Segundo a SSP-SP, foram registradas 1.472 detenções nos oito primeiros meses deste ano na região administrativa de Campinas. A alta é de 16,8% em relação às 1.260 ocorridas no mesmo período de 2025.
Como pedir ajuda em Campinas?
Abrigo Sara-M: oferece acolhimento seguro a mulheres vítimas de violência, com escuta qualificada e apoio para romper o ciclo da violência. Atende mulheres maiores de 18 anos encaminhadas por órgãos de proteção. Possui 20 vagas para mulheres e seus filhos.
Ceamo: oferece acolhimento e orientação a mulheres em situação de violência, com apoio social e jurídico para o fortalecimento da autoestima e o rompimento do ciclo da violência. Atende 130 mulheres por mês. Fica na Rua Onze de Agosto, nº 412, no Centro. Funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 19h. Telefone: (19) 3236-3619 (também é WhatsApp). E-mail: ceamo@campinas.sp.gov.br .
Grupo Mulheres Empreendedoras: promove a emancipação econômica de mulheres em situação de vulnerabilidade, incluindo vítimas de violência.
Renda Campinas: programa de transferência de renda para famílias em situação de pobreza, com prioridade para mulheres chefes de família. Beneficia 16.909 famílias.
Abrigo Amigo: parada de ônibus equipada com um totem que permite realizar chamadas de vídeo, em tempo real, para uma central de atendimento. A equipe pode acionar as forças de segurança caso a mulher se sinta ameaçada. Funciona das 20h às 5h. Entre setembro de 2023, quando o primeiro equipamento foi instalado, e fevereiro deste ano, foram registrados 1.194 acionamentos.
Botão Bela: botão de emergência disponível no aplicativo da Emdec, que pode ser acionado por vítimas ou testemunhas de importunação e assédio sexual no transporte coletivo. Quando acionado, o dispositivo alerta a Guarda Municipal, que envia uma viatura para abordar o ônibus.
Desembarque Fora do Horário: lei municipal que garante às mulheres o direito de desembarcar em locais mais seguros, mesmo fora dos pontos de parada, entre 22h e 5h.
Guarda Amigo da Mulher (Gama): fiscaliza o cumprimento das medidas protetivas concedidas a mulheres que sofrem violência doméstica, por meio de visitas periódicas às residências das vítimas.
Sala Lilás: oferece acolhimento e orientação a mulheres em situação de violência, com encaminhamento aos órgãos da Rede de Atendimento. Mulheres que sofrem violência doméstica ou conhecem outras mulheres nessa situação podem procurar o serviço.
Botão SOS Gama: ferramenta que permite às mulheres assistidas pelo programa acionar a Guarda Municipal por meio de um aplicativo de celular. Em 2024, a GM efetuou 27 prisões por descumprimento de medidas protetivas. Para ter acesso aos serviços, mulheres que possuem medida protetiva podem ligar para o telefone 153 ou procurar a Sala Lilás, localizada na base da Guarda Municipal no Centro, na Avenida Moraes Salles, s/n.
Planejamento Familiar: os centros de saúde disponibilizam métodos anticoncepcionais, como preservativos, anticoncepcionais orais e injetáveis, DIU e implante subdérmico. Também são oferecidos procedimentos de laqueadura e vasectomia.
Casa da Gestante: projeto pioneiro no país, o serviço atendeu 147 mulheres em situação de vulnerabilidade em saúde entre 2016 e 2023.
Hospital da Mulher: o Craim (Centro de Referência de Assistência Integral à Mulher), localizado no Hospital da Mulher de Campinas, recebe pacientes mediante encaminhamento de outros serviços de saúde. O atendimento ocorre em dias úteis, das 7h às 19h.
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O post Cultura e acolhimento: projetos em Campinas usam arte no combate à violência contra a mulher apareceu primeiro em ACidade ON Campinas .

