Áudios obtidos pela Polícia Civil indicam que a mulher que alugava a casa usada como cativeiro da família do caseiro Milton de Sousa Prado, morto em junho em Franca (SP), ofereceu o imóvel para manter as vítimas presas e evitar que fugissem, segundo a investigação.
A investigada é Kelly Cristina Queiroz, uma das sete pessoas que se tornaram rés, em julho, pelo sequestro e cárcere privado da família. As gravações estão em um relatório de 12 de outubro da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), produzido em um segundo inquérito aberto para aprofundar a participação dela no crime.
Segundo a DIG, as mensagens mostram que Kelly acompanhava as ações do grupo, recebia informações sobre os interrogatórios de Maria Isabel Oliveira Prado, filha do caseiro, e orientava outras pessoas sobre o funcionamento da casa onde três vítimas foram resgatadas.
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“Ela não só conhecia a situação toda, como ela mesma ofereceu a residência para servir de cativeiro”, afirmou à EPTV, afiliada da TV Globo, nesta sexta-feira (30) o delegado Gabriel Fernando Tomás da Silva, da DIG de Franca.
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As descobertas contradizem a versão de Kelly. Em 17 de julho, em entrevista à imprensa, ela disse que estava fora da casa havia cerca de 20 dias, que tinha perdido o celular e que não conhecia os responsáveis pelo sequestro. Na época, a defesa afirmou que ela é inocente e não tem envolvimento com as demais acusadas.
‘Podia ter deixado elas até aqui na minha casa’
O áudio considerado central pela polícia é uma resposta de Kelly a Ana Laura de Sousa Rosa Alves, parente de um dos jovens apontados como envolvidos na morte do caseiro e também ré pelo sequestro.
Em 5 de julho, segundo o relatório, um grupo de mulheres levou a família a diferentes imóveis de Franca para interrogatórios. À noite, as vítimas foram deixadas na própria casa, mas sem os celulares e sem as chaves do carro.
Em uma mensagem, Ana Laura conta a Kelly que o grupo havia deixado as mulheres em casa e “só esqueceu de trancar elas lá”. Kelly responde:
“Tinha que ter soltado elas não, Aninha. Podia ter deixado elas até aqui na minha casa. Tá doida? Elas vai vazar, mano”, diz, segundo a transcrição policial.
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Para a polícia, a fala mostra que Kelly sabia que as vítimas estavam sob controle do grupo e ofereceu a casa para impedir que fugissem. Segundo o relatório, na manhã seguinte, 6 de julho, a mãe, a irmã adolescente e a bebê recém-nascida foram levadas ao imóvel alugado por ela, no Jardim Aeroporto III.
A suspeita de que Kelly havia permitido o uso da casa já constava do primeiro inquérito. A novidade, segundo os investigadores, são as gravações que detalham a participação atribuída a ela.
Portão, comida e choro da bebê
O relatório também descreve áudios em que Kelly explica como trancar o portão da casa.
“Amiga, o portão não tá trancando é porque vocês não estão sabendo trancar. [...] Eu ainda tranquei e destranquei pro Ariel ver, uai”, diz em uma das gravações.
Segundo a polícia, a mensagem se refere a um sobrinho dela, também investigado. Em outro áudio, uma pessoa conta a Kelly que ele havia levado duas marmitas de comida. Kelly responde que as refeições seriam para ele e “pra elas lá”.
O delegado Gabriel Fernando em casa usada como cativeiro de família em Franca, SP
Em outras mensagens, Kelly diz que havia arroz, feijão e pão na casa e orienta que a comida seja oferecida “pra elas”. Em outra, afirma que “os irmãos” mandaram dinheiro para “elas comerem pizza”. Restos de pizza foram encontrados no cômodo onde as vítimas estavam.
Uma das gravações menciona a bebê, que tinha cerca de duas semanas de vida, segundo o relatório.
“Amiga, e a nenê, parou de chorar?”, pergunta Kelly.
Segundo o delegado, o choro da criança foi mencionado na denúncia que levou a DIG ao imóvel em 7 de julho. Os policiais encontraram a mãe de Maria Isabel, a irmã adolescente e a bebê em um cômodo nos fundos. Um homem que vigiava o local foi preso em flagrante e também virou réu.
Restos de alimentos consumidos por família mantida em cárcere privado em Franca, SP
Interrogatórios de Maria Isabel
O relatório reúne conversas em que Ana Laura repassa a Kelly informações sobre os interrogatórios de Maria Isabel. O grupo queria descobrir o paradeiro de Rafael Vitor Silva de Sousa Rosa, de 18 anos, e Guilherme Henrique Melo da Cruz, de 22, apontados pela polícia como os autores da agressão que matou Milton.
Em um áudio, Ana Laura relata que o grupo levou a jovem em direção a São Sebastião do Paraíso (MG), atrás de uma fazenda. Segundo a polícia, ela se refere a Maria Isabel.
“Aí dei mais um sacudão nela, fi. Aí falei: ‘Cê vai levar nóis lá nessa fazenda’”, diz. Para a polícia, a expressão indica violência usada para obrigar Maria Isabel a dar informações.
Em outra gravação, Kelly diz: “A menina entregou, vai levar elas lá onde tá o corpo dos meninos”. Segundo o relatório, “a menina” é Maria Isabel, e “os meninos” são Rafael e Guilherme.
Maria Isabel Prado é investigada pela morte do próprio pai e dos envolvidos no crime
Os corpos dos dois jovens foram encontrados três dias depois, em uma fazenda de Sacramento (MG). O próprio relatório ressalva que não é possível afirmar que se trata do mesmo local citado nos áudios.
O delegado afirmou que os elementos reunidos não mostram que Kelly participou pessoalmente das agressões contra Maria Isabel. Segundo ele, a investigação identificou a atuação dela na articulação de contatos e no recebimento de informações sobre os interrogatórios.
Celular ‘perdido’ continuou ativo, diz polícia
Com autorização judicial, a DIG obteve registros do WhatsApp e de uma conta Google atribuídos a Kelly. Entre os arquivos estavam cópias de segurança com áudios, fotos e vídeos do período do sequestro.
Segundo o relatório, a conta de WhatsApp dela teve atividade intensa nos três dias do sequestro e ficou ativa até as 16h07 de 7 de julho, dia do resgate. Semanas depois, a conta passou a ser usada em outro aparelho, com outro e-mail de recuperação.
Para a polícia, os registros comprometem a versão de que ela havia perdido o celular e não sabia de nada.
Suspeita de contato com facção
As conversas também citam pessoas chamadas de “irmãos”, que teriam sido procuradas para ajudar a descobrir o paradeiro de Rafael e Guilherme.
“Ô, Aninha, hoje é sábado, fia. Irmão nenhum vai te dar atenção, nenhum”, diz Kelly em um áudio gravado entre 4 e 5 de julho, pouco antes do início do sequestro, segundo a polícia.
Homem preso por fazer segurança de cativeiro em Franca, SP
O relatório interpreta a expressão como referência a integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e aponta que Kelly foi procurada para intermediar esse contato. Em outro áudio, Ana Laura diz que os “irmãos” iriam montar o “tabuleiro”, termo que a polícia associa ao chamado “tribunal do crime”.
A participação de integrantes da facção no sequestro não foi confirmada.
O que diz Kelly
No dia 17 de julho, dez dias depois do resgate, Kelly foi à delegacia com uma advogada e falou com a imprensa.
Ela confirmou que morava na casa onde a família foi encontrada, mas disse que estava na casa da mãe por motivos de saúde e para cuidar dos filhos. Questionada se conhecia os sequestradores, respondeu: “Não, não conheço”.
Kelly também disse que estava sem celular porque o havia perdido e que soube do caso por familiares e por reportagens.
Em 20 de julho, a defesa afirmou à Justiça que os objetos encontrados na casa não comprovavam que ela participou do crime. No fim daquele mês, em nota ao g1, o advogado Rafael Andrade dos Santos afirmou que Kelly não tem envolvimento com as demais acusadas e reafirmou a inocência dela.
Em 30 de julho, a Justiça decretou a prisão preventiva de Kelly, mas a substituiu por prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, por ela ser mãe de filhos menores.
Ana Laura teve a prisão preventiva substituída por domiciliar na mesma decisão. Em julho, a defesa dela preferiu não se manifestar.
Relembre o caso
O sequestro é um desdobramento da morte de Milton. Depois que Rafael e Guilherme desapareceram, parentes dos dois passaram a responsabilizar a família do caseiro e a exigir informações, segundo a polícia.
16 de junho: Milton é morto a pauladas na chácara onde trabalhava, em Franca.
25 de junho: Maria Isabel admite à polícia ter chamado Rafael e Guilherme para dar um “susto” no pai.
Fim de junho: os dois jovens desaparecem.
5 de julho: Maria Isabel, a mãe, a irmã adolescente e a sobrinha recém-nascida são levadas a diferentes imóveis de Franca e interrogadas. À noite, são deixadas em casa, sem celulares e sem a chave do carro.
6 de julho: as vítimas são levadas à casa alugada por Kelly, no Jardim Aeroporto III. Maria Isabel é separada da família e retirada do imóvel.
7 de julho: a DIG resgata a mãe, a irmã e a bebê. Um homem é preso em flagrante.
9 de julho: os corpos de Rafael e Guilherme são encontrados em Sacramento (MG). Um tio de Maria Isabel é preso suspeito de ocultar os corpos.
30 de julho: a Justiça torna sete pessoas rés pelo sequestro e cárcere privado da família.
12 de outubro: a DIG conclui o relatório do segundo inquérito sobre a participação de Kelly.
Maria Isabel é investigada pela morte do pai e dos dois jovens, segundo a polícia. Esses crimes e o desaparecimento dela são apurados em inquéritos separados. A polícia não confirmou a morte da filha do caseiro.
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