Para dois desses vírus já existe vacina gratuita no Sistema Único de Saúde (SUS), a do HPV (papilomavírus humano) , relacionado ao câncer do colo do útero e a tumores de ânus , vulva , vagina, pênis e orofaringe , a parte da garganta logo atrás da boca, e a da hepatite B , que reduz o risco de câncer de fígado.

Infecções silenciosas podem levar anos até causarem câncer

A ligação entre a hepatite B e o câncer de fígado é conhecida há muitos anos, lembra Ivan França, infectologista do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo (SP). Sobre o vírus, ele explica: “Ele po de ficar anos no organismo até provocar lesões pré-cancerígenas, como a cirrose hepática”. É desse dano prolongado que pode surgir o tumor, de prognóstico ruim, um processo que a vacina ajuda a evitar.

No caso do HPV, a lista é maior. O vírus “está ligado a pelo menos cinco, seis tipos de câncer”, afirma Silva. O mais conhecido é o de colo do útero, associado sobretudo aos tipos 16 e 18, dois dos quatro cobertos pela vacina do SUS.

Mas estar infectado com o vírus não significa necessariamente desenvolver um tumor. Quase todas as pessoas sexualmente ativas terão contato com o HPV em algum momento da vida, em geral sem sintomas, e em 90% delas o próprio organismo elimina o vírus em um ou dois anos, segundo a OMS . O risco está na minoria em que a infecção por tipos de alto risco persiste: com o tempo, ela altera as células do colo do útero e pode provocar lesões pré-cancerosas, capazes de evoluir para câncer em um processo que costuma levar de 15 a 20 anos. E o cigarro está entre os principais fatores que favorecem essa persistência.

Essa diferença entre uma infecção transitória e uma infecção que permanece ajuda a entender por que a vacinação precisa acontecer antes da exposição ao vírus. No caso da hepatite B, a lógica é a mesma, e a proteção pode começar já no nascimento.

Hepatite B: proteção começa ao nascer

Pelo Calendário Nacional de Vacinação, a primeira dose contra a hepatite B é aplicada de preferência nas primeiras 12 horas de vida , e o esquema segue com a vacina pentavalente aos 2, 4 e 6 meses. Quem não foi vacinado pode tomar as doses em qualquer idade, de graça, nos postos de saúde.

Começar cedo é importante porque a idade da infecção pesa. Segundo a OMS , menos de 5% das infecções adquiridas na vida adulta se tornam crônicas, contra cerca de 95% das que ocorrem na primeira infância. “A forma de transmissão também mostra por que a vacina é tão importante, pois o vírus passa pelo contato com sangue e por via sexual”, explica o infectologista.

Quem não sabe se foi vacinado ou não completou o esquema deve procurar uma unidade de saúde, orienta França. Segundo o Ministério da Saúde, não é preciso recomeçar e as doses que faltam são aplicadas a partir de onde o esquema parou.

Contra o HPV, o ideal é vacinar antes da vida sexual

No SUS, a vacina contra o HPV é aplicada em meninas e meninos de 9 a 14 anos e, desde 2024, em dose única . O objetivo é imunizar antes do primeiro contato com o vírus, que é altamente contagioso, explica França. “Então, uma relação desprotegida, mesmo na primeira relação, já pode ser contato com o HPV.”

A troca do esquema de duas doses pela dose única se apoiou em estudos que mostraram boa proteção com uma aplicação. “Existe um trabalho que foi feito na África que mostrou que uma dose dá uma cobertura excelente para evitar câncer”, conta o infectologista. A mudança também tem razões financeiras e permite vacinar mais crianças com o mesmo recurso. “Você tem uma boa cobertura quando você faz uma dose só, mas o ideal é que comece na data certa”, enfatiza.

Quem passou da faixa etária de rotina ainda pode se vacinar pelo SUS em algumas situações, detalhadas no quadro abaixo. Na rede privada, a vacina nonavalente protege contra cinco tipos a mais do vírus. Segundo a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), os tipos da vacina quadrivalente respondem por cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero, e os da nonavalente, por cerca de 90%.

Os resultados da vacinação já aparecem no país. Um estudo da Fiocruz Bahia publicado em 2025 na The Lancet Global Health , com dados do SUS de mulheres de 20 a 24 anos, mostrou queda de 58% nos casos de câncer de colo do útero e de 67% nas lesões pré-cancerosas mais graves nas gerações que puderam ser vacinadas.

Vacinar os meninos protege a eles e às meninas

Os resultados mostram o efeito da vacina entre as mulheres, mas a proteção não deve ser exclusiva a elas. Os meninos também podem desenvolver tumores relacionados ao vírus e, ao serem vacinados, contribuem para reduzir sua circulação.

“Se o menino estiver vacinado, diminui a transmissão para as meninas, então reduz ainda mais o câncer de colo de útero, além de câncer de pênis e câncer de garganta”, explica França.

A cobertura tem bons números, mas ainda está abaixo dos considerados necessários pela OMS para a eliminação do câncer do colo do útero. Em 2025, 86,1% das meninas de 9 a 14 anos estavam vacinadas, segundo o UNICEF e o Ministério da Saúde; entre os meninos, 74,5%. “Para você erradicar mesmo o câncer, se estima que você tem que ter acima de 90% durante muitos anos”, observa o infectologista.

Para França, a principal barreira é a desinformação. “Existe ainda bastante preconceito. Muitos pais acham que oferecer uma vacina que protege contra IST para uma criança de 9 anos estaria estimulando a sexualização, o que não tem nenhuma relação”, explica.

Ele defende que o assunto seja tratado de forma contínua em espaços além da casa. “É preciso escolas falando o tempo todo da importância, com o tema mostrado de forma bem simples”, diz Silva, complementando que pediatras, ginecologistas e clínicos gerais também têm papel importante nessa orientação.

HPV: quem pode se vacinar pelo SUS

9 a 14 anos: meninas e meninos, em dose única, na rotina do Calendário Nacional de Vacinação;

15 a 19 anos : jovens que nunca foram vacinados podem receber a dose única até 31 de dezembro de 2026, na estratégia de resgate do Ministério da Saúde;

até 45 anos : em três doses, para grupos de maior risco, como pessoas vivendo com HIV, transplantados, pacientes oncológicos, usuários de PrEP (a partir dos 15 anos) e vítimas de violência sexual.

A vacina não substitui o rastreamento

A ampliação da vacinação ajuda a reduzir o risco, mas não elimina a necessidade de outras estratégias de prevenção. Mesmo quem se vacinou contra o HPV continua precisando fazer o rastreamento do câncer de colo do útero, porque a vacina não cobre todos os tipos do vírus. “É sempre multimodal e a prevenção precisa ser feita de várias maneiras ”, diz França.

Desde 2025, o SUS adota como exame principal o teste de DNA-HPV , indicado de 25 a 64 anos para quem já teve relações sexuais e repetido a cada cinco anos quando o resultado é negativo. Onde o teste ainda não está disponível, segue o Papanicolau, repetido a cada três anos depois de dois exames anuais normais, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca).

No caso da hepatite B, é importante exigir materiais estéreis ou descartáveis em procedimentos que envolvam cortes ou perfurações, como tatuagens e manicure. “A relação sexual sempre protegida também vai evitar a hepatite”, afirma França, ref orçando o uso de preservativo nas relações sexuais.

Com o HPV, a proteção do preservativo é parcial, porque o vírus pode estar em áreas que ele não cobre. “Para o HPV, infelizmente, o próprio preservativo, a camisinha, não protege totalmente”, alerta o infectologista. Por isso, verrugas ou lesões na região genital, no ânus ou na boca devem ser avaliadas por um médico ou dentista, orienta.

Vacina que previne não é o mesmo que vacina que trata

As vacinas contra o HPV e a hepatite B são preventivas e aplicadas em pessoas saudáveis e evitam a infecção pelos vírus que podem, anos depois, levar ao câncer. As chamadas vacinas terapêuticas funcionam de outro modo. Segundo o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI) , elas são um tipo de imunoterapia indicado a quem já tem a doença. Ou seja, em vez de mirar um agente infeccioso, ensinam o sistema imunológico a reconhecer e atacar as células do próprio tumor.

Porém, ainda são poucas as opções desse tipo aprovadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, a única vacina de células dendríticas liberada é usada em alguns casos de câncer de próstata avançado, segundo o NCI. As demais, como as feitas a partir de substâncias presentes nas células do tumor, ainda são experimentais, de acordo com o instituto.

Enquanto as vacinas terapêuticas seguem em estudo, as preventivas já estão disponíveis, e o desafio, para o infectologista, é fazer a população procurá-las. “O Brasil disponibiliza acesso. Falta mais informação para as pessoas buscarem todas as vacinas disponíveis no Sistema Único de Saúde”, conclui.

Conteúdo produzido em parceria com A.C.Camargo Cancer Center.

The post Vacinas oferecidas pelo SUS ajudam a prevenir diferentes tipos de câncer first appeared on Portal Drauzio Varella .