Quase 11 anos depois do rompimento da barragem de Mariana, pescadores retomaram as atividades na foz do Rio Doce, no Espírito Santo.

A cor da água já não assusta quem vive em Regência, no norte capixaba. Há uma década, a lama tomou conta da paisagem. Os mais de 40 milhões de m³ de rejeitos de minério, despejados da barragem que se rompeu em Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015, atingiram também o Rio Doce e chegaram ao mar no Espírito Santo. Com a contaminação, em fevereiro de 2016, a pesca foi proibida na foz do Rio Doce.

“A pesca antigamente era fartura, a gente vivia bem. Hoje, houve essa fatalidade aí”, diz o pescador Amauri Gomes da Rocha.

Nesta semana, uma portaria do governo federal liberou as atividades pesqueiras no trecho entre a Barra do Riacho, em Aracruz, até Degredo e Ipiranguinha, em Linhares, no norte do estado, com um limite de até 20 m de profundidade. A decisão foi tomada com base em uma nota técnica da Anvisa, que indicou que os níveis de contaminantes monitorados em pescados da região afetada não apresentam indícios de preocupação no momento e considerou dados de monitoramento ambiental na região.

Pesquisadores que medem a presença de metais em peixes, camarões e caranguejos afirmam que houve redução nos indicadores de contaminação nas amostras, a um percentual abaixo do limite considerado pela Anvisa.

“Nos últimos dois anos de monitoramento - dois anos contando a última coleta em janeiro desse anos, que é o perídio chuvoso, em 2026 -, a gente não tem visto um aumento além de 5% de não conformidade de elementos metálicos legislados pela Anvisa - que são quatro elementos metálicos", afirma Fabian Sá, coordenador Monitoramento da Biodiversidade Aquática - FEST/UFES.

Quase 11 anos depois do rompimento da barragem de Mariana, pescadores retomam atividades na foz do Rio Doce

Jornal Nacional/ Reprodução

A liberação da pesca é um passo importante para quem depende do Rio Doce para viver. Mas os pesquisadores reforçam que a recuperação do rio ainda não terminou. Por isso, o monitoramento da água, dos sedimentos e dos peixes continuará pelos próximos dez anos.

“Em períodos de chuva, dependendo de onde chove na bacia do Rio Doce e do volume de chuva, a gente volta a ter uma piora na qualidade da água. A gente vai continuar fazendo o mesmo monitoramento. Então, são mais dez anos pela frente em que a gente vai dar subsídios de dados para os órgãos competentes”, diz Fabian Sá.

Os ministérios da Pesca e do Meio Ambiente informaram que a água e os sedimentos são monitorados continuamente, e que não há alertas de não conformidade. Declararam, ainda, que a retomada vai ser acompanhada por um plano de ação, articulado com Ministério da Saúde e Anvisa, e que as decisões poderão ser alteradas a qualquer momento.

Os pescadores prejudicados vão continuar recebendo o auxílio no valor de um salário mínimo e meio por mês. Para quem trabalha na região, voltar a pescar também significa recuperar a confiança que a lama levou embora.

“Tem as interrogações. É isso que ainda nos segura a voltar, de fato, para essa água e exercer o que a gente fazia, que é a pesca”, diz o pescador Adailton Alcântara.

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