# Genes adaptados ao ‘fim do mundo’: o que cientistas descobriram no DNA dos cães de Chernobyl

- Seção: Itatiba e Região
- Fonte: Tribuna de Jundiaí (https://tribunadejundiai.com.br/curiosidades/genes-adaptados-ao-fim-do-mundo-o-que-cientistas-descobriram-no-dna-dos-caes-de-chernobyl/)
- Publicado em: 2026-10-31T01:11:25.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1442684-genes-adaptados-ao-fim-do-mundo-o-que-cientistas-descobriram-no-dna-dos-caes-de

> Quarenta anos depois do pior acidente nuclear da história, centenas de cães continuam vivendo na região de Chernobyl, na Ucrânia. Descendentes de animais que permaneceram no local após a evacuação de 1986, eles carregam no DNA…

A descoberta ganhou contornos ainda mais surpreendentes quando pesquisadores compararam cães que vivem nas proximidades da usina com outros encontrados na cidade de Chernobyl, a apenas 16 quilômetros de distância. Apesar da proximidade, os dois grupos apresentam diferenças genéticas tão expressivas que não parecem ser explicadas apenas pelo isolamento.

O estudo, publicado em setembro de 2026 na revista científica Genes , identificou sinais de seleção natural em 111 regiões do genoma dos animais próximos à instalação nuclear. Algumas estão associadas à reparação do DNA, ao funcionamento do sistema imunológico e a processos relacionados ao câncer.

A ideia de cães com genes adaptados ao &#8220;fim do mundo&#8221; pode parecer saída de uma história de ficção científica. Mas existe uma investigação real por trás dessa expressão: entender como populações de animais conseguiram permanecer durante décadas em um dos ambientes contaminados mais conhecidos do planeta.

Cães separados por apenas 16 quilômetros apresentam diferenças genéticas surpreendentes

A equipe liderada por pesquisadores da Universidade Estadual da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, analisou o material genético de duas populações que vivem na Zona de Exclusão de Chernobyl.

Uma delas habita as proximidades da antiga usina nuclear. A outra vive na cidade de Chernobyl, situada a aproximadamente 16 quilômetros da instalação.

Embora compartilhem a mesma região, os animais apresentam diferenças genéticas importantes. Para investigar se isso poderia ser consequência do isolamento, os cientistas decidiram compará-los com cães de outras partes da Europa Oriental e de um lugar muito mais distante: as ilhas Galápagos, no Equador.

A escolha não foi aleatória. Populações que vivem em ilhas podem apresentar mudanças genéticas associadas ao isolamento e à reprodução dentro de grupos relativamente pequenos.

O resultado trouxe uma constatação inesperada. Os cães da cidade de Chernobyl apresentaram maior semelhança genética com os animais de Galápagos do que com aqueles que vivem perto da usina, a apenas 16 quilômetros.

Isso não significa que exista um parentesco recente entre os cães ucranianos e os das ilhas. A comparação indica que a população próxima ao reator desenvolveu um perfil genético particularmente distinto, que não parece ser explicado apenas pela distância ou pelo isolamento.

Os cães que ficaram para trás após o desastre de 1986

A origem dessas populações está ligada a um dos episódios mais dramáticos da história da energia nuclear.

Em 26 de abril de 1986, o reator número 4 da usina de Chernobyl explodiu, liberando grandes quantidades de material radioativo. A contaminação obrigou milhares de pessoas a abandonar suas casas, deixando para trás cidades, propriedades e animais domésticos.

Equipes soviéticas foram posteriormente enviadas à região para eliminar animais abandonados, mas parte dos cães conseguiu escapar. Seus descendentes passaram a viver entre instalações industriais, áreas residenciais evacuadas e outros espaços da Zona de Exclusão.

Ao longo de quatro décadas, esses animais se reproduziram e estabeleceram populações que continuam presentes na região. Os pesquisadores estimam que mais de 30 gerações de cães tenham se sucedido desde o acidente.

Descendentes dos animais deixados para trás após a evacuação de 1986 formaram populações que continuam vivendo na região de Chernobyl. &#8211; Foto: Imagem ilustrativa/Tribuna de Jundiaí

Esse detalhe é fundamental para compreender a investigação. Não são os mesmos cães que sobreviveram durante 40 anos, mas sucessivas gerações que nasceram e viveram em um ambiente sujeito a diferentes formas de contaminação.

Para a ciência, essa continuidade oferece uma oportunidade rara de observar como as características genéticas de uma população podem mudar ao longo do tempo em condições ambientais adversas.

Mais de 100 regiões do DNA revelam possíveis sinais de adaptação

O novo estudo identificou 111 regiões do genoma dos cães que vivem perto da usina com evidências compatíveis com um processo chamado seleção natural direcional.

Estudo identificou sinais de seleção natural em 111 regiões do genoma dos cães que vivem perto da usina nuclear, mas ainda não comprovou resistência à radiação. &#8211; Foto: Imagem ilustrativa/Tribuna de Jundiaí

Esse mecanismo ocorre quando determinadas características oferecem vantagens de sobrevivência ou reprodução em um ambiente específico. Com o passar das gerações, as variantes genéticas associadas a essas vantagens podem se tornar mais frequentes entre os indivíduos.

No caso de Chernobyl, algumas das regiões identificadas estão próximas de genes ligados à reparação do DNA, à divisão celular, à resposta imunológica e a mecanismos envolvidos no desenvolvimento do câncer.

São funções relevantes porque participam da maneira como os organismos respondem a danos celulares e outras ameaças à saúde.

A pesquisadora Megan Dillon, da Universidade Estadual da Carolina do Norte, explicou que os resultados apresentam sinais genéticos sugestivos de seleção natural. Segundo ela, as regiões identificadas envolvem processos biológicos que poderiam ajudar os animais a enfrentar os efeitos da exposição a substâncias tóxicas.

Ainda não foi demonstrado, entretanto, que essas variantes proporcionem efetivamente maior resistência à contaminação. Os resultados apontam possíveis mecanismos de adaptação, que precisarão ser investigados em novos estudos.

Os primeiros sobreviventes podem ter transmitido características importantes aos descendentes

Uma das hipóteses mais interessantes levantadas pela equipe é que os cães sobreviventes do desastre já possuíssem determinadas características genéticas favoráveis antes mesmo da explosão.

Nesse cenário, não seria necessário que a radiação provocasse o surgimento de novos genes capazes de proteger os animais. A seleção natural poderia ter favorecido indivíduos que carregavam variantes genéticas já existentes na população.

Esses cães teriam maiores chances de sobreviver e se reproduzir em determinadas condições, transmitindo parte dessas características aos descendentes.

Matthew Breen, professor de genética da Universidade Estadual da Carolina do Norte e um dos responsáveis pela pesquisa, considera essa possibilidade plausível, embora ressalte que ainda não seja possível reconstruir exatamente o que aconteceu com os animais desde 1986.

A hipótese ajuda a explicar como uma população pode adquirir características genéticas distintas ao longo das gerações sem necessariamente apresentar um aumento de mutações.

Também oferece uma explicação possível para o contraste encontrado entre os cães que vivem perto da usina e aqueles que habitam a cidade de Chernobyl.

A radiação transformou os cães de Chernobyl?

Apesar do cenário extraordinário, os cientistas fazem uma ressalva importante: não existe comprovação de que os cães tenham desenvolvido imunidade à radiação ou genes capazes de protegê-los de um desastre nuclear.

Uma pesquisa anterior, divulgada em 2025 pela Universidade Estadual da Carolina do Norte , já havia encontrado evidências de que mutações provocadas pela radiação provavelmente não explicavam as diferenças genéticas entre as populações estudadas.

Além disso, Chernobyl não apresenta apenas contaminação radioativa. A região também possui metais pesados, compostos orgânicos e outras substâncias tóxicas, que podem influenciar a saúde e a sobrevivência dos animais.

O desafio dos pesquisadores agora é compreender quais fatores ambientais exerceram maior pressão seletiva sobre essas populações.

A expressão &#8220;genes adaptados ao fim do mundo&#8221;, portanto, funciona como uma metáfora para a capacidade de sobrevivência observada ao longo das gerações, e não como uma conclusão científica de que os cães tenham se tornado resistentes a qualquer condição extrema.

O que o estudo demonstra é que os animais próximos à usina apresentam sinais genéticos compatíveis com seleção natural, possivelmente associados às condições particulares do ambiente onde vivem.

O que os cães de Chernobyl podem ensinar à ciência?

A pesquisa publicada na revista Genes amplia o conhecimento sobre como populações de mamíferos podem responder, ao longo de várias gerações, à exposição persistente a ambientes contaminados.

Os próximos passos incluem investigar se as variantes genéticas identificadas realmente oferecem vantagens biológicas e quais condições ambientais poderiam ter favorecido sua transmissão.

Essas descobertas também podem contribuir para estudos sobre os efeitos da contaminação ambiental na saúde de animais e seres humanos, embora os resultados encontrados nos cães não possam ser automaticamente aplicados às pessoas.

Quatro décadas depois da explosão que obrigou milhares de famílias a abandonar Chernobyl, os descendentes dos animais que permaneceram na região continuam vivendo perto da antiga usina.

Separados por apenas 16 quilômetros, dois grupos de cães carregam diferenças importantes no DNA. Descobrir como essas diferenças surgiram e se consolidaram pode ajudar a compreender o papel da seleção natural em um ambiente que, para os seres humanos, se tornou símbolo de uma das maiores catástrofes nucleares da história.

*Imagem ilustrativa criada pelo Tribuna de Jundiaí com auxílio de inteligência artificial e direção criativa da equipe. Reprodução total ou parcial proibida sem autorização.

Reportagem completa: https://tribunadejundiai.com.br/curiosidades/genes-adaptados-ao-fim-do-mundo-o-que-cientistas-descobriram-no-dna-dos-caes-de-chernobyl/

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