# Fantasmas de Campinas: por que histórias de assombração mantêm viva a memória da cidade

- Seção: Itatiba e Região
- Fonte: G1 (https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/10/31/fantasmas-de-campinas-por-que-historias-de-assombracao-mantem-viva-a-memoria-da-cidade.ghtml)
- Publicado em: 2026-10-31T08:00:00.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1446216-fantasmas-de-campinas-por-que-historias-de-assombracao-mantem-viva-a-memoria-da

> Fantasmas de Campinas: por que histórias de assombração mantêm viva a memória da cidade

Quem nasceu ou vive em Campinas (SP) provavelmente já ouviu falar de histórias como a do Chupa-cabra, a do túnel da antiga Fepasa, a do fantasma do Elesbão e até a do fantasma de Carlos Gomes. Mas você já parou para pensar de onde vêm essas histórias de assombração?

🎃 No Dia das Bruxas, celebrado neste sábado (31), o g1 conversou com o idealizador do projeto "O que te assombra?", Thiago de Souza, e com a historiadora Paola Carraro para entender como surgem essas narrativas e o que elas revelam sobre a história da cidade.

Mais do que provocar medo, os relatos de assombração podem revelar tragédias, injustiças e memórias que marcaram Campinas. Transmitidos entre gerações, eles também ajudam a preservar o passado e fortalecer o sentimento de pertencimento da população.

"Os fantasmas são a parte da história que eu acho que a gente não gosta de encarar. É a parte feia, é a parte da opressão, é a parte do silenciamento", afirma Paola.

Como nascem os fantasmas?

Lenda do Menino Diabo conta a história de uma criança que teria nascido com chifres em Campinas

Segundo Thiago, as histórias sobrenaturais não surgem por acaso. Elas nascem de experiências humanas reais e refletem sentimentos, sofrimentos, desejos e injustiças vividos por uma comunidade.

"Os fantasmas nascem de experiências humanas. Quando a gente conhece uma história, o segundo passo é entender de onde ela vem e por que surgiu naquele lugar", explica Thiago.

Ele afirma que essas narrativas também podem surgir da tentativa de explicar fenômenos desconhecidos sob uma perspectiva religiosa. Em Campinas, muitas delas estão relacionadas a episódios dolorosos do passado.

"Em Campinas, encontramos muitas histórias ligadas a grandes mazelas. A escravidão é uma delas", diz Thiago.

Do ponto de vista acadêmico, Paola explica que as narrativas de terror ligadas à memória coletiva costumam surgir a partir de dois elementos: uma tragédia e a solidariedade das pessoas diante dela.

"Primeiro, existe um processo doloroso, uma tristeza relacionada àquele acontecimento. Nas memórias do cárcere e da escravidão, por exemplo, temos a tragédia. Depois, vem a solidariedade das pessoas, que olham para o que aconteceu e se sensibilizam", explica Paola.

Segundo a historiadora, é a partir desse sentimento de solidariedade que as histórias passam a ser transmitidas entre gerações.

Muitas delas estão ligadas a pessoas de grupos historicamente oprimidos que morreram de forma trágica. Ao serem lembradas em narrativas sobre o pós-morte, essas vítimas ajudam a manter vivas memórias de violência e injustiça.

Por que as cidades precisam dos seus fantasmas?

Lenda da menina fantasma conta a história de uma criança que apareceria durante a madrugada no Parque Via Norte, em Campinas

Para Paola, essas narrativas cumprem um papel importante na preservação da memória coletiva, inclusive quando resgatam episódios que a sociedade preferiria esquecer.

Os fantasmas representam aquilo que, às vezes, a gente não queria contar. Eles fazem parte do lado feio da história e são necessários porque escancaram essa verdade. Precisamos, sim, dos nossos fantasmas, porque a história não é bonita e não serve ao entretenimento.

A historiadora relaciona esse papel ao conceito de "patrimônio difícil", usado para tratar de lugares e memórias associados a acontecimentos traumáticos.

"O patrimônio difícil está intrinsecamente relacionado às memórias difíceis e sensíveis. Um patrimônio difícil está relacionado à dor, encarceramento, tragédia, morte e às memórias difíceis também, ou às memórias sensíveis; a gente chama dos dois jeitos", explica Paola.

Ela ressalta ainda que uma cidade é formada por diferentes grupos sociais, culturais e étnicos. Nesse contexto, os fantasmas ocupam o imaginário coletivo e ajudam a lembrar histórias muitas vezes silenciadas.

"A consciência de um fato histórico não serve ao fetiche nem ao entretenimento com a dor alheia. Serve para entender o que aconteceu, quais medidas devem ser tomadas diante dos impactos e como evitar que aquilo aconteça novamente", afirma.

Senso de pertencimento

Thiago afirma que essas narrativas costumam ser tratadas apenas como lendas urbanas e, muitas vezes, são consideradas manifestações culturais de menor relevância. "Para mim, talvez a forma mais pura de cultura seja aquela que emana do povo genuinamente", diz.

Para ele, as histórias de assombração também ajudam a construir uma conexão afetiva entre os moradores e Campinas.

"Esse senso de pertencimento desperta nas pessoas o orgulho de contar suas histórias e mostrar que as cidades têm uma mitologia própria. Também permite que a gente se reencontre com outras pessoas."

Mais do que descobrir se as aparições realmente aconteceram, Thiago considera importante compreender o que esses relatos revelam sobre a identidade cultural de uma comunidade.

"A gente é muito místico, seja pela religião ou pela espiritualidade. Por isso, entender as histórias de assombração é entender um pouco de nós mesmos, a partir dos nossos medos e afetos", diz.

Entre a preservação e a exploração da dor

Cemitério da Saudade, em Campinas

O interesse pelo sobrenatural também leva visitantes a locais históricos de Campinas, como o Cemitério da Saudade, e pode despertar a curiosidade pela história da cidade.

Para Paola, porém, esse movimento exige cuidado. Ao mesmo tempo que pode incentivar o respeito e a preservação, também pode transformar o sofrimento de outras pessoas em entretenimento.

"Acho que existem os dois lados. Refleti muito sobre isso durante minha pesquisa porque, quando comecei a estudar o tema, pensava que as histórias de assombração poderiam ser problemáticas", conta.

Ela afirma que identificou situações em que a dor alheia era transformada em entretenimento. No entanto, após aprofundar os estudos, concluiu que também existem formas mais respeitosas de abordar essas histórias.

Para a historiadora, o principal risco é que o fascínio pelas assombrações faça o público esquecer as pessoas reais por trás dos relatos.

"O risco é entrar em contato com essas figuras e esquecer que foram seres humanos, que tinham ambições, sonhos e sentimentos", conclui.

10 fantasmas de Campinas que você precisa conhecer

*Estagiária sob supervisão de Yasmin Castro e Gabriella Ramos.

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