Uma fisgada no seio fez Waléria Capobiango, de 33 anos, desconfiar de que alguma coisa não estava bem. A princípio, ela pensou que pudesse ser ansiedade. Chegou a comentar o incômodo com a mãe, Maria Imaculada Ferraz, de 70 anos, que tinha uma mamografia marcada e ofereceu à filha a oportunidade de fazer o exame em seu lugar.

Waléria preferiu deixar para depois. A mãe fez a mamografia e descobriu um câncer de mama. Pouco tempo depois, enquanto Maria Imaculada se preparava para iniciar o tratamento, a filha decidiu procurar um médico. O que parecia apenas uma precaução também mudou a vida dela: o exame apontou uma alteração suspeita, e a biópsia confirmou o diagnóstico.

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Em um intervalo de aproximadamente 15 dias, mãe e filha se viram diante da mesma doença.

Moradoras de Guiricema e Visconde do Rio Branco, respectivamente, elas passaram a compartilhar consultas, exames, angústias e, principalmente, o apoio necessário para enfrentar uma rotina que nenhuma das duas havia imaginado viver.

A história de Maria Imaculada e Waléria ganha destaque durante o Outubro Rosa, mês de conscientização sobre o câncer de mama. Para elas, a experiência trouxe dificuldades, mas também revelou uma força que já existia na relação entre as duas e que se tornou evidente no tratamento.

Uma foi abrindo caminho para a outra

Quando Maria Imaculada recebeu o diagnóstico, Waléria ainda não sabia que também enfrentaria a doença. A mãe começou a percorrer o caminho dos exames e das consultas e, sem perceber, acabou ajudando a filha a compreender cada etapa.

Quando chegou a vez de Waléria, a mãe já tinha respostas para algumas das dúvidas que surgiam. O que antes era desconhecido se tornava um pouco menos assustador.

“Ela ia na frente, como se fosse abrindo o caminho para mim. Quando ela fazia um exame, eu perguntava como tinha sido. Ela falava que tinha sido tranquilo, que eu podia fazer sem medo. Na outra semana, eu ia e fazia o mesmo exame”, contou Waléria.

A descoberta do próprio câncer, no entanto, trouxe uma diferença que ela não esperava. Como o tratamento da mãe não havia incluído quimioterapia, Waléria acreditava que passaria por um processo semelhante. A notícia de que precisaria fazer o procedimento foi um dos momentos mais difíceis.

“Eu entrei em pânico, me desesperei. Como o processo da minha mãe tinha sido parecido com o meu, em momento algum achei que teria que fazer quimioterapia. Quando a médica me falou, foi desesperador, um dos piores momentos da minha vida”.

Dessa vez, era a filha quem precisava entrar em um território desconhecido. E foi a mãe quem permaneceu ao seu lado.

“Minha mãe estava do meu lado, me dando apoio. Eu pensei: ‘E agora?’. Era uma coisa que eu ia enfrentar no escuro, porque não sabia como era o processo”.

O medo, porém, não ficou sozinho. Waléria encontrou na presença da mãe a segurança de que precisava para seguir.

Waléria e Maria Imaculada descobriram o câncer em um intervalo de cerca de 15 dias

A força de não deixar a outra cair

O apoio entre as duas também se manifestava de uma maneira silenciosa. Mesmo diante das próprias preocupações, mãe e filha tentavam não demonstrar tristeza para não aumentar o sofrimento uma da outra.

“Eu não ficava triste para ela não ficar triste, e ela também não ficava triste para não me deixar triste. Foi aí que tudo ficou muito leve”, contou Waléria.

A decisão de se fortalecerem mutuamente não significava que a dor deixava de existir. Significava que, quando uma fraquejava, a outra estava ali.

Maria Imaculada acompanhou a filha nas consultas e permaneceu ao lado dela durante as etapas mais difíceis. Waléria também esteve presente no tratamento da mãe. A família, os amigos e as orações ajudaram a sustentar as duas durante a jornada.

Para Maria Imaculada, um dos momentos mais delicados foi quando a filha precisou ficar internada. Ela passou uma semana ao lado de Waléria, tentando transmitir a força de que a filha precisava.

“Foi difícil, mas a gente sempre esteve junta, uma apoiando a outra. Tive o apoio do meu marido, dos meus filhos, das minhas noras, dos meus netos, dos amigos e de toda a família. As orações também deram força para a gente aguentar”, relatou.

A aposentada também destacou o acolhimento recebido na Fundação Cristiano Varella, em Muriaé, onde as duas fizeram o tratamento. Segundo ela, o cuidado dos profissionais ajudou a tornar o percurso menos solitário.

O dia em que o cabelo caiu

Para Waléria, a quimioterapia trouxe desafios que ela não havia previsto. Entre eles, a queda do cabelo. Raspar a cabeça foi outro momento difícil, mas ela decidiu enfrentá-lo à sua maneira. Quando reuniu pessoas em casa para raspar os fios, encontrou familiares e amigos emocionados.

Enquanto alguns choravam, ela tentava manter o sorriso.

“Naquele momento, estava todo mundo chorando e eu estava rindo. Pensei: ‘Isso não vai me destruir, não vai apagar meu brilho nem minha força".

Waléria também começou a compartilhar a experiência nas redes sociais. Gravava vídeos para falar sobre os dias em que o tratamento parecia mais difícil e aqueles em que conseguia lidar melhor com a rotina.

A exposição trouxe uma rede de apoio que foi além das pessoas próximas. Mensagens de carinho chegaram de conhecidos e desconhecidos, e a própria experiência passou a servir de incentivo para outras pessoas.

“Eu falava: ‘Hoje está difícil, hoje está fácil’. Recebi muito apoio e acolhimento. Com isso, inspirei outras pessoas a não desistirem, a procurarem o diagnóstico e a continuarem vivendo”, afirmou.

Durante o tratamento, Waléria procurou manter atividades de que gostava, respeitando as limitações impostas pela doença. Encontrar os amigos e preservar momentos da própria rotina também fizeram parte da maneira como escolheu enfrentar o câncer.

Ela reconhece que a quimioterapia foi difícil, mas diz que a experiência mudou sua forma de enxergar a vida.

“Antes, eu era muito nervosa, não sabia esperar. Hoje, vejo a vida de outra forma. O câncer trouxe dor, sofrimento, choro e angústia, mas também me trouxe uma sabedoria muito grande”.

Mãe e filha tiveram relação ainda mais fortalecida após descobrirem que ambas estavam com câncer de mama

Uma nova forma de enxergar a vida

A relação entre mãe e filha já era próxima antes dos diagnósticos. Depois da experiência compartilhada, Waléria diz que o vínculo ganhou uma dimensão difícil de traduzir em palavras.

“Ela não soltou a minha mão um minuto, e eu também fui com ela todas as vezes. A gente já era muito agarrada, mas parecia que eu fazia parte dela e ela de mim. É um amor fora do normal”.

Hoje, Maria Imaculada já concluiu o tratamento e se recupera bem da cirurgia, realizada há quase um ano. Waléria também passou pelas etapas do tratamento, mas ainda precisa fazer radioterapia.

Ao olhar para o período que enfrentaram juntas, as duas destacam a importância de procurar ajuda médica diante de alterações no corpo e de não adiar a investigação por medo ou insegurança.

Maria Imaculada aconselha outras mulheres a não ignorarem sinais diferentes e a buscarem atendimento o mais cedo possível.

“Quando descobrir, aceite e vá à luta. Não espere. Se perceber alguma coisa diferente, procure ajuda o mais rápido possível”.

Já Waléria reforça que o acolhimento faz diferença durante o tratamento e que ninguém precisa enfrentar a doença isoladamente. “Não desistir, aceitar e ter uma rede de apoio. A rede de apoio é fundamental”, resumiu.

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