Mas o que torna essa família especialmente interessante para os cientistas vai além das idades das três. A mãe delas, Jovelina de Deus Nunes, também viveu até os 100 anos, enquanto uma tia chegou aos 101. A presença de tantas centenárias na mesma família chamou a atenção de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), que investigam o DNA das irmãs em busca de pistas sobre a longevidade.
Nascidas em Cedro de São João, no interior de Sergipe, Levita, Zoraide e Zulina cresceram em uma família de oito irmãos. A infância foi marcada pelo trabalho, pela alimentação produzida em casa e pela convivência próxima entre os familiares. Décadas depois, essas lembranças passaram a fazer parte de uma história que interessa à ciência.
Uma homenagem de aniversário levou a família ao Guinness
A história ganhou visibilidade depois que uma homenagem pelos 108 anos de Levita foi compartilhada nas redes sociais. A publicação chegou ao conhecimento da LongeviQuest, organização internacional especializada em verificar casos de longevidade extrema.
A partir daí, pesquisadores começaram a investigar as idades das irmãs. O trabalho envolveu a análise de documentos produzidos em diferentes períodos da vida, incluindo certidões de nascimento, batismo e casamento, carteiras de trabalho e registros atuais de identificação.
A validação foi conduzida por Iara Souza e Gabriel Ainsworth. Em maio de 2026, Iara visitou as irmãs no Rio de Janeiro, onde vivem, para conhecê-las pessoalmente e registrar suas histórias.
O reconhecimento internacional veio em junho, quando o Guinness World Records divulgou o recorde de maior soma de idades entre três irmãos vivos.
O feito ganhou uma dimensão ainda mais curiosa por causa do histórico da família. Não eram apenas três irmãs que haviam ultrapassado um século de vida: a longevidade também estava presente na geração anterior.
Uma infância em que quase tudo o que se comia vinha do quintal
Muito antes de se tornarem personagens de uma pesquisa científica, as três viveram uma infância bastante diferente da rotina alimentar atual. O pai criava animais, enquanto frutas, verduras e legumes eram cultivados pela família. Boa parte do que chegava à mesa vinha diretamente do quintal.
Zulina se lembra especialmente do milho utilizado para preparar o cuscuz, ralado manualmente antes do cozimento. Em entrevista reproduzida pelo portal TudoGostoso, ela comentou a diferença entre o sabor dos alimentos daquela época e os de hoje: “A gente sentia o gosto do cuscuz do milho, hoje não sente gosto de nada.”
O trabalho também fazia parte da rotina desde cedo. Levita, a mais velha das três, assumiu responsabilidades domésticas e ajudou a cuidar dos irmãos enquanto os pais trabalhavam no campo. As habilidades manuais aprendidas naquele período acompanhariam as mulheres durante toda a vida.
Ângela, filha de Zoraide, acredita que a alimentação natural tenha contribuído para a longevidade da família. Os pesquisadores, porém, ainda não podem afirmar que esses hábitos expliquem as idades alcançadas pelas irmãs. A influência da genética, do ambiente e das experiências individuais precisa ser analisada em conjunto.
Três caminhos diferentes, mas uma vida inteira de proximidade
Embora tenham crescido juntas, Levita, Zoraide e Zulina seguiram trajetórias bastante diferentes.
Levita, nascida em 1917, dedicou grande parte da vida aos cuidados com familiares. Trabalhou com costura, crochê e bordado e, mais tarde, passou 12 anos na Rede Globo, participando de atividades nos bastidores de programas e produções da emissora. Ela não teve filhos, mas ajudou a criar irmãos, sobrinhos e outros parentes.
Zoraide, nascida em 1921, escolheu a educação e a saúde como caminhos profissionais. Formou-se professora e depois estudou enfermagem no Rio de Janeiro, onde trabalhou em hospitais. Casou-se, teve cinco filhos e construiu sua carreira enquanto cuidava da família.
A história de Zulina, nascida em 1923, teve uma mudança importante na década de 1950. Após o fim do casamento, ela decidiu deixar Sergipe e tentar uma nova vida no Rio de Janeiro. Levou inicialmente dois dos seis filhos e uma mala com bordados e toalhas produzidos por suas próprias mãos, que pretendia vender para garantir o sustento.
Os quatro filhos menores permaneceram temporariamente em Sergipe, sob os cuidados dos avós e de Levita. No Rio, Zulina encontrou abrigo na casa de Zoraide, que a ajudou durante o primeiro mês. Mais tarde, Levita também se mudou para apoiar a irmã nos cuidados com a família.
Com o trabalho de costura e bordado, Zulina conseguiu se estabelecer na cidade e reunir novamente os seis filhos, que posteriormente concluíram cursos universitários.
A história familiar documentada pela LongeviQuest mostra como as três se apoiaram em diferentes momentos, dividindo responsabilidades, oferecendo abrigo e ajudando na criação das novas gerações.
O que as irmãs acreditam ter contribuído para uma vida tão longa?
Quando perguntadas sobre a longevidade, as brasileiras não apresentam uma fórmula única.
Zoraide associa sua trajetória a uma vida tranquila e ao respeito pelas outras pessoas. Zulina resume sua visão em uma frase: “O segredo é saber viver.” Para Levita, a fé também tem importância, e ela atribui sua longa vida à graça de Deus.
Além das lembranças sobre alimentação e trabalho, a família destaca a convivência entre gerações e a manutenção de atividades ao longo dos anos.
Zulina continua interessada pela culinária e pela rotina dos familiares. Zoraide gosta de recordar acontecimentos da juventude e da criação dos filhos. Levita, que passou a necessitar de cuidados constantes após um AVC em 2023, preserva o interesse pela leitura.
Filhos, netos, bisnetos e outros parentes participam da rotina e oferecem o apoio necessário. São diferentes formas de envelhecer dentro de uma mesma família, com necessidades e condições de saúde que não são idênticas.
Essas experiências ajudam a compreender a trajetória das irmãs, mas não demonstram que um determinado alimento, atividade ou comportamento seja responsável por fazê-las ultrapassar os 100 anos.
Por que a USP quer estudar o DNA dessas mulheres?
A presença de várias pessoas centenárias em uma mesma família oferece uma oportunidade especial para os pesquisadores investigarem a influência da herança genética no envelhecimento.
Levita, Zoraide e Zulina participam do Projeto DNA Longevo , coordenado pela geneticista Mayana Zatz, da USP. A pesquisa procura identificar características genéticas que possam proteger o organismo contra determinados efeitos do envelhecimento e ajudar a preservar funções físicas e cognitivas.
Os cientistas analisam perfis genéticos, moleculares e celulares de pessoas que chegaram aos 90, 100 anos ou mais. Esses resultados são comparados aos de indivíduos que desenvolveram fragilidade, doenças crônicas ou declínio cognitivo.
Em entrevista à TV Brasil, Mayana explicou que o objetivo é encontrar genes com possíveis efeitos protetores. Segundo a pesquisadora, estudar famílias com vários centenários aumenta as possibilidades de identificar características genéticas associadas à longevidade.
O Projeto DNA Longevo da USP também busca compreender por que algumas pessoas apresentam maior resistência a problemas relacionados à idade, mesmo quando compartilham condições ambientais com outras que envelhecem de maneira diferente.
A expectativa é que esse conhecimento contribua futuramente para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e promoção de um envelhecimento mais saudável.
Isso não significa que exista um gene único responsável pela longevidade ou que os descendentes das três irmãs necessariamente viverão tanto quanto elas. O envelhecimento envolve múltiplos fatores, e os resultados da investigação ainda não permitem apontar uma explicação definitiva para o caso da família.
Mais de um século de histórias compartilhadas
Na fotografia divulgada pelo Guinness, Zulina, Levita e Zoraide aparecem reunidas para celebrar o reconhecimento mundial. A imagem registra um acontecimento incomum, mas representa apenas um capítulo de uma história construída ao longo de mais de 100 anos.
Antes das placas e do interesse dos cientistas, houve uma infância compartilhada no interior de Sergipe, mudanças de cidade, trabalho, criação de filhos e momentos em que uma irmã precisou da ajuda da outra.
A pesquisa da USP procura descobrir o que o DNA dessas mulheres pode revelar sobre a longevidade humana. Enquanto os cientistas investigam essa resposta, a história das três já mostra algo concreto: elas atravessaram mais de um século seguindo caminhos diferentes, mas mantendo os laços familiares que começaram muito antes de qualquer recorde mundial.
