Quando o elevador parou, um vasto espaço subterrâneo surgiu diante de mim: um centro logístico com centenas de metros de extensão e pelo menos três metros de altura. Conectada a ele havia uma rede enterrada de dutos que antes transportavam gás natural entre a Ucrânia e a Rússia.
Os soldados ucranianos não conseguem ficar em pé dentro dos tubos, que têm menos de 1,2 metro de diâmetro. Ainda assim, passam semanas ali dentro, enfrentando russos com armas e granadas, retirando companheiros feridos ou mortos da linha de frente e levando suprimentos essenciais. Com drones monitorando o campo de batalha na superfície, estrategistas ucranianos dizem que este é o futuro da guerra.
Ao me aproximar de um dos dutos, o cheiro residual de gás fez minha cabeça girar. Soldados cobertos de poeira marrom apareciam e desapareciam constantemente do túnel em pequenos veículos elétricos enferrujados que circulam pela rede subterrânea.
Coloquei óculos de proteção e uma máscara de gás e me sentei atrás de militares que haviam recebido ordem para seguir até suas posições. Dentro do tubo, disseram eles, o cheiro seria ainda mais forte.
Não demorou muito, naquele dia de outubro, para entender por que os militares ucranianos querem levar uma parcela maior da guerra contra a Rússia para o subsolo.
Para chegar à abertura no solo que levava ao duto, eu e o fotógrafo Finbarr O’Reilly tivemos de cruzar campos abertos em uma caminhonete acompanhados por três soldados. Estávamos ao alcance de drones capazes de atingir qualquer coisa que se movesse.
Os militares permaneciam em silêncio. O clima era tenso. Um deles segurava um detector de drones em uma mão e um celular na outra, conversando com operadores de reconhecimento que monitoravam a estrada e perguntando sobre “pontos no céu”. O detector não parava de apitar.
Soldados ucranianos monitoram a presença de drones russos enquanto se deslocam nas proximidades de Kupiansk, na região de Kharkiv, leste da Ucrânia, em 9 de outubro de 2026. Crédito: Finbarr O’Reilly/The New York Times
Oleksandr, um sargento veterano do Exército ucraniano, que já cumpriu diversas rotações dentro dos gasodutos subterrâneos usados pelas forças ucranianas para deslocar tropas até posições na linha de frente, próximo a Kupiansk, na região de Kharkiv, leste da Ucrânia, em 9 de outubro de 2026. Crédito: Finbarr O’Reilly/The New York Times
De repente, o soldado gritou para que todos corressem.
O motorista parou a caminhonete e saltamos do veículo, correndo o mais rápido possível. Caminhonetes são alvos preferenciais dos drones. Mantivemos distância uns dos outros para reduzir o risco de ferimentos, ou algo pior, em caso de ataque.
O zumbido do drone sobre nossas cabeças ficou mais fraco, depois voltou a aumentar. Atrás de alguns arbustos, a única cobertura que encontrei, vi um soldado apontar a arma para o céu, pronto para disparar. O drone acabou indo embora.
Após mais meia hora atravessando os campos e outra saída apressada da caminhonete por causa da ameaça aérea, avançamos rapidamente para dentro da floresta.
Troca de tiros
As forças russas foram as primeiras a usar dutos industriais abandonados nesta guerra, retomando uma tática que lembra a Primeira Guerra Mundial, quando soldados britânicos e alemães cavavam túneis sob as linhas inimigas.
Na região visitada por nós, perto de Kupiansk, no nordeste da Ucrânia, existem cerca de 130 quilômetros de gasodutos desativados.
No fim do ano passado, tropas russas usaram esses dutos para se infiltrar em Kupiansk. Em resposta, os militares ucranianos planejaram sua própria operação subterrânea. O Corpo Khartia procurou mapas dos dutos e localizou engenheiros aposentados que haviam construído a rede. Depois, instalou sistemas de ventilação, a tarefa mais difícil.
Durante a primeira operação do tipo, soldados ucranianos encontraram russos dentro de um duto, contou o coronel Volodymyr Lysiuk, subcomandante do Corpo Khartia. Houve um intenso tiroteio, mas eles não conseguiram expulsar os russos.
Então os ucranianos abriram uma saída no tubo, cavaram um túnel até um duto paralelo e voltaram a entrar no primeiro atrás das posições russas, encurralando o inimigo, disse ele.
As forças ucranianas mataram dezenas de russos e capturaram vários prisioneiros, segundo Lysiuk.
O presidente Volodymyr Zelensky e analistas militares independentes afirmam que a operação ajudou a defender a cidade de Kupiansk, embora a batalha continue. Baseando-se em pesquisas de campo, uma equipe liderada pelo analista militar Franz-Stefan Gady, sediado em Viena, classificou a ação subterrânea como um “sucesso tático”, dizendo que ela desacelerou, mas não interrompeu totalmente o avanço russo.
O sucesso levou a Ucrânia a estudar outras formas de transferir a guerra para o subsolo. Parte da produção militar e da logística já foi levada para estruturas subterrâneas. Segundo duas autoridades militares ucranianas, os militares também calculam os custos de construir uma rede de túneis para conectar melhor postos de observação, estoques de suprimentos e unidades de apoio na retaguarda.
A poeira queimava nossos rostos enquanto avançávamos lentamente pelo túnel.
Nos trechos de subida, o veículo quase parava. Nas descidas, ganhava velocidade, chegando a cerca de 16 km/h. Levamos aproximadamente 40 minutos para percorrer quase 10 quilômetros dentro do estreito duto.
Chegamos a outro centro logístico. Embora profundamente subterrâneo, ele fica próximo do que é conhecido como “linha zero”, o último ponto da frente de batalha ocupado por forças ucranianas.
Diversas bombas guiadas russas atingiram áreas próximas na superfície, provocando leves tremores no espaço subterrâneo.
“Os russos acabaram de almoçar”, brincou Vladyslav, de 32 anos, sargento-chefe responsável pela posição, explicando que esses bombardeios costumam ocorrer no início da tarde.
O centro logístico fervilhava de atividade. Para sair do caminho dos veículos, subi sobre sacos de terra retirados dos túneis. Os soldados então empurravam os sacos para outras áreas da estrutura subterrânea.
O duto havia sido cortado ao meio para criar duas entradas voltadas para direções opostas. Durante o dia, os veículos transportavam principalmente munição e alimentos. À noite, na direção contrária, carregavam sobretudo terra.
Quando Vladyslav gritou que um drone quadricóptero russo se aproximava de uma das entradas, os soldados correram entre sacos de terra e comida para se esconder mais profundamente na instalação. Segundo ele, drones russos frequentemente tentam localizar formas de entrar na posição, inclusive usando sensores térmicos capazes de detectar calor humano.
Um a um, os soldados que estavam prestes a ser substituídos chegaram ao centro logístico e aguardaram transporte. Um dos motoristas permanecia dentro do duto ouvindo uma música popular ucraniana sobre um homem pedindo um abraço.
No caminho de volta, vimos uma abertura na lateral do tubo iluminada por uma luz amarela. Paramos para recolher mais soldados que emergiam de um túnel secundário. Já perto da saída, o veículo não conseguia mais transportar todos, e tivemos de percorrer os últimos 50 metros agachados.
Na superfície, entramos em um carro que nos levaria novamente pelos campos abertos.
“Meu Deus, nos ajude aqui”, disse o motorista, conhecido pelo codinome Radik, ao ligar o motor.
Ele dirigiu em velocidade alucinante, subindo colinas e descendo rapidamente do outro lado. Havíamos deixado para trás a desagradável guerra do futuro e voltado para a aterrorizante guerra do presente.
Quando alcançamos uma estrada coberta por redes para proteger veículos contra drones, marcando o fim da parte mais perigosa da viagem, o motorista ligou para a esposa.
“Querida, voltei”, disse. “Está tudo bem. Beijos.”
c.2026 The New York Times Company
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