A cada novo corte em um bloco de calcário importado do Egito, uma parte diferente de um esqueleto aparecia na superfície da pedra. O material deveria ser transformado em placas decorativas, mas os trabalhadores de uma empresa de mármores na cidade italiana de Pietrasanta acabaram encontrando algo que ninguém esperava.
O proprietário da empresa, conhecido como Francioni, chegou a imaginar que havia descoberto um dinossauro. Na verdade, os ossos pertenciam a uma baleia que viveu há aproximadamente 40 milhões de anos , em uma época em que os ancestrais desses animais ainda conservavam características de mamíferos terrestres.
A descoberta aconteceu em julho de 2002. O bloco havia sido dividido em seis placas, cada uma contendo partes do esqueleto fossilizado. Em vez de descartar a pedra, o empresário procurou especialistas da Universidade de Pisa, dando início a uma investigação que revelaria uma espécie até então desconhecida pela ciência.
As seis placas escondiam um crânio quase completo e parte do esqueleto
O paleontólogo Giovanni Bianucci foi chamado para examinar o material e reconheceu os restos de um cetáceo primitivo, pertencente a um grupo de mamíferos que ajuda a compreender a evolução das baleias e dos golfinhos.
Apesar dos cortes feitos pela serra, a pedra preservava um crânio quase completo, com aproximadamente 68 centímetros de comprimento, além de mandíbula, dentes, vértebras e costelas.
As superfícies regulares das placas permitiram que os pesquisadores identificassem a posição dos fragmentos e reconstruíssem parte do esqueleto. O trabalho de preparação e remontagem levou cerca de um ano.
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O animal recebeu o nome científico de Aegyptocetus tarfa , em referência ao Egito e à região de origem da rocha. Sua descrição foi publicada em 2011 no Journal of Vertebrate Paleontology , em um estudo conduzido por Bianucci e Philip Gingerich, da Universidade de Michigan.
Mas a identificação da espécie era apenas uma parte da investigação. Os cientistas ainda precisavam descobrir de onde exatamente havia saído a pedra e o que os ossos poderiam revelar sobre a vida e a morte daquele animal.
Cientistas viajaram ao Egito para descobrir de onde veio a pedra
O calcário havia sido comercializado com um nome associado à região de Sheikh Fadl, no Egito. Essa informação levou os pesquisadores a investigar antigas áreas de extração próximas ao vale de Tarfa.
Com a ajuda de um pesquisador egípcio e de imagens de satélite, Bianucci identificou possíveis pedreiras. Em janeiro de 2006, ele e Gingerich viajaram até a região para examinar as formações rochosas.
A investigação confirmou que o material pertencia a depósitos marinhos de aproximadamente 40 milhões de anos, formados durante o Eoceno.
Naquele período, a região hoje ocupada pelo deserto egípcio fazia parte de um ambiente marinho associado ao antigo oceano de Tétis. Foi nesse cenário que o animal viveu e teve seus restos preservados pelos sedimentos que, milhões de anos depois, se transformariam em calcário.
A origem da rocha ajudou a estabelecer a idade do fóssil. Mas eram as marcas preservadas no próprio esqueleto que revelariam outra parte surpreendente de sua história.
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Marcas nas costelas revelaram mordidas de tubarão, mas não a causa da morte
Ao examinar os ossos, os pesquisadores encontraram marcas de dentes em quatro costelas. A distribuição das lesões indicava que o animal havia sido mordido por um grande tubarão, provavelmente em um ataque pela lateral do corpo.
As marcas não apresentavam sinais de cicatrização, o que sugere que a baleia não sobreviveu por tempo suficiente para que os ossos começassem a se recuperar.
Entretanto, não foi possível determinar se o tubarão provocou sua morte . O predador pode ter atacado o animal ainda vivo, quando já estava morrendo ou até depois da morte, alimentando-se da carcaça.
O esqueleto preservava outra pista: vestígios da atividade de cracas, pequenos crustáceos que se fixam em superfícies submersas. As marcas indicavam que os restos permaneceram expostos no fundo do mar antes de serem completamente cobertos pelos sedimentos.
Esses detalhes permitiram reconstruir parte do que aconteceu com o corpo antes da fossilização. O que não foi possível recuperar, porém, foram os membros e a parte posterior do animal, ausentes no exemplar encontrado.
Mesmo sem essas estruturas, os ossos preservados revelaram características importantes de uma fase da evolução em que as baleias ainda não viviam exclusivamente na água.
A baleia de 40 milhões de anos ainda tinha adaptações para viver em terra firme
As baleias atuais passam toda a vida na água, mas seus ancestrais eram mamíferos de quatro patas. A transformação em animais inteiramente aquáticos aconteceu gradualmente, ao longo de milhões de anos.
O Aegyptocetus tarfa pertence ao grupo dos protocetídeos, cetáceos antigos que reuniam adaptações terrestres e aquáticas.
Os cientistas observaram que suas primeiras vértebras torácicas possuíam estruturas robustas, compatíveis com a capacidade de sustentar o peso do corpo fora da água. Isso indica que o animal ainda conservava características importantes para a vida em terra firme.
Como as patas não foram encontradas, os pesquisadores não conseguiram determinar exatamente como ele se locomovia. Ainda assim, as evidências apontam para um modo de vida semiaquático, diferente daquele das baleias modernas.
O crânio também apresentava características reveladoras. Estruturas da mandíbula e dos ouvidos indicavam adaptações para perceber sons debaixo d’água, enquanto a região nasal conservava elementos associados à capacidade de sentir cheiros no ar.
Essa combinação mostra um animal em uma etapa intermediária da evolução: já adaptado ao ambiente marinho, mas ainda com características herdadas de seus ancestrais terrestres.
Uma tomografia revelou outra característica que as baleias modernas perderam
A importância do fóssil não terminou com sua descrição científica em 2011. Anos depois, pesquisadores voltaram a examinar o crânio utilizando tomografias computadorizadas, capazes de revelar estruturas internas que não podiam ser observadas diretamente.
O estudo, publicado on-line em 2019 no Journal of Anatomy , investigou como o olfato e o sistema respiratório se modificaram durante a transição evolutiva das baleias da terra para a água.
Os exames mostraram que o Aegyptocetus ainda conservava estruturas ósseas nasais presentes em mamíferos terrestres, embora bastante reduzidas.
As estruturas relacionadas ao olfato tinham apenas cerca de 26% da superfície esperada para os mamíferos terrestres utilizados como referência pelos pesquisadores. Isso indicava que o animal preservava a capacidade de perceber odores, mesmo já apresentando importantes adaptações à vida aquática.
O resultado ajudou a esclarecer uma das transformações dos cetáceos. Enquanto a audição na água se tornou fundamental para esses animais, o olfato aéreo foi progressivamente reduzido em diferentes linhagens ao longo da evolução.
Décadas depois de ser encontrado em uma pedra ornamental, aquele crânio continuava fornecendo informações sobre mudanças ocorridas milhões de anos antes do surgimento das baleias modernas.
O fóssil que poderia virar revestimento acabou em um museu
As seis placas chegaram a despertar o interesse de um colecionador particular, que pretendia utilizá-las na decoração de sua residência. O material, entretanto, foi adquirido pela administração pública da Província de Pisa e destinado ao Museu de História Natural da Universidade de Pisa.
O esqueleto passou a integrar a coleção científica da instituição, onde contribui para explicar uma etapa importante da evolução dos cetáceos.
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A descoberta também chamou a atenção para uma possibilidade pouco considerada fora da paleontologia: rochas destinadas à construção civil e à decoração podem esconder fósseis que nunca foram identificados em seu local de origem.
No caso do Aegyptocetus , os ossos permaneceram preservados durante milhões de anos dentro de um bloco de calcário. Foi somente quando a pedra chegou à Itália e passou pela serra de uma empresa de mármores que o esqueleto voltou a ficar visível.
As seis placas, que poderiam ter terminado como revestimento de uma casa, acabaram revelando uma espécie desconhecida, marcas de mordidas de tubarão e características de uma época em que os ancestrais das baleias ainda conservavam adaptações para viver fora do mar.

