“Para mim, ter água na torneira era um luxo”, contou Irina ao criador de conteúdo Gaston Marotta, que visitou a comunidade e registrou sua história em vídeo. Ela chegou ao local aos 15 anos, depois de deixar a família, e permanece ali há 11 anos.

O que parece uma escolha radical para quem está acostumado às comodidades das cidades tem outro significado para Irina. Antes de chegar às montanhas da província de León, no noroeste espanhol, ela passou por uma infância marcada por mudanças constantes e condições de vida ainda mais difíceis.

Aos 15 anos, Irina deixou a família depois de uma infância de mudanças e dificuldades

Durante a infância, Irina acompanhou os familiares em sucessivas mudanças de residência. Viveu em cidades e pequenos povoados, alguns praticamente abandonados, sem conseguir estabelecer uma rotina em um lugar fixo.

Em uma dessas localidades, a família morava em condições precárias, cercada por cinco cabras, dois cães e um cavalo. O povoado ficava a aproximadamente três horas de caminhada do vilarejo onde ela acabaria se estabelecendo.

Ao recordar esse período, Irina descreveu uma vida difícil e solitária. Foi nesse contexto que decidiu sair de casa aos 15 anos, em busca de uma realidade diferente daquela em que havia crescido.

A oportunidade surgiu quando conheceu um grupo de jovens que vivia em uma antiga comunidade nas montanhas. A presença de pessoas de idade semelhante contribuiu para sua decisão de permanecer no local.

A escolha não foi completamente inesperada. Irina contou que, desde os 11 anos, já imaginava viver em um lugar como aquele. Quando conheceu a comunidade nas montanhas, encontrou a oportunidade de realizar esse desejo e construir uma vida longe das dificuldades que marcaram sua infância.

A vila havia sido abandonada e os moradores criaram um teleférico para transportar compras

O lugar escolhido por Irina também tem uma história incomum. O pequeno vilarejo foi praticamente abandonado na década de 1960, mas começou a ser recuperado cerca de 20 anos depois, quando um grupo de jovens decidiu ocupar e restaurar as antigas construções.

Atualmente, algumas dezenas de pessoas vivem na comunidade. A ausência de estradas para automóveis, porém, transforma atividades comuns, como fazer compras ou levar materiais para uma reforma, em desafios.

Para resolver parte desse problema, os moradores contam com um sistema artesanal de transporte por cabos, semelhante a um teleférico. Construído há aproximadamente duas décadas, ele permite movimentar alimentos, lenha, materiais de construção e até o lixo produzido no vilarejo.

Sem essa estrutura, transportar cargas pesadas pelos caminhos de montanha seria ainda mais complicado. O equipamento se tornou uma peça importante para a manutenção da comunidade, permitindo que as casas continuem habitadas apesar do isolamento.

Sem chuveiro, Irina reformou a própria casa e aprendeu a produzir parte do que consome

Ao longo dos 11 anos em que vive nas montanhas, Irina realizou melhorias graduais em sua residência. Instalou painéis solares para produzir eletricidade, organizou reservatórios para armazenar água e passou a utilizar um fogão a lenha para aquecer a casa durante os meses mais frios.

O chuveiro continua entre as instalações que faltam. Ainda assim, a jovem considera que conseguiu construir uma moradia confortável dentro das possibilidades oferecidas pelo lugar, especialmente quando compara sua situação atual com as experiências da infância.

A alimentação também exige adaptações. Irina cultiva hortaliças em espaços compartilhados pela comunidade, mas reconhece que não consegue produzir tudo o que precisa.

Produtos como café, arroz, farinha, azeite e leguminosas continuam sendo comprados fora do vilarejo. Por isso, embora os moradores produzam parte dos próprios alimentos e utilizem recursos locais, a vida nas montanhas ainda depende do abastecimento realizado em outras localidades.

Como os moradores conseguem dinheiro vivendo tão longe das cidades?

A distância dos centros urbanos não significa que os habitantes tenham abandonado completamente o trabalho remunerado. Mesmo com despesas reduzidas, precisam de dinheiro para comprar alimentos, ferramentas e outros produtos que não conseguem produzir.

Segundo Irina, muitos moradores passam alguns meses trabalhando temporariamente fora do vilarejo e depois retornam às montanhas. Como os gastos cotidianos são relativamente baixos, conseguem utilizar o dinheiro recebido durante períodos mais longos.

Esse modelo permite alternar temporadas de trabalho com a permanência na comunidade. Também ajuda a explicar como pessoas que vivem em uma região de difícil acesso conseguem manter suas casas e comprar os mantimentos necessários.

A rotina, entretanto, está longe de ser livre de dificuldades. Além das limitações no abastecimento e no transporte, o isolamento é uma das condições que os moradores precisam aceitar para continuar vivendo ali.

Depois de 11 anos nas montanhas, Irina revela por que não quer voltar para a cidade

Apesar das dificuldades, Irina afirma que nunca se arrependeu de sua decisão. Quando questionada sobre a possibilidade de voltar a morar em uma cidade, sua resposta foi negativa.

Ela reconhece que estar tão isolada é um dos aspectos mais difíceis da experiência, mas considera que aquela é a vida com a qual sempre sonhou.

Para Irina, as dificuldades do isolamento não diminuem o valor da vida que construiu nas montanhas. Depois de uma infância marcada por mudanças constantes, ela encontrou naquela pequena comunidade um lugar onde pôde se estabelecer, criar sua própria rotina e viver da maneira que sempre desejou.

Irina tinha apenas 15 anos quando deixou a família e decidiu permanecer no vilarejo. Hoje, a casa ainda não tem chuveiro, os carros continuam sem chegar à comunidade e transportar compras exige um sistema de cabos. Mas ela não pretende ir embora. Para quem cresceu em condições ainda mais precárias, ter uma casa recuperada aos poucos e água saindo da torneira representa um conforto que, durante muito tempo, parecia distante.