# Como alimentar a população mundial se a IA derrubar a rede elétrica

- Seção: Política
- Fonte: Poder360 (https://www.poder360.com.br/poder-agro/como-alimentar-a-populacao-mundial-se-a-ia-derrubar-a-rede-eletrica/)
- Publicado em: 2026-11-02T09:30:23.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1474516-como-alimentar-a-populacao-mundial-se-a-ia-derrubar-a-rede-eletrica

> * Por Joshua M. Pearce

A capacidade de agentes de inteligência artificial rebeldes de destruir nossa espécie na próxima década tem sido tema de debate. Há preocupações no setor com o rápido avanço das capacidades da tecnologia.

Se uma IA decidisse –ou fosse usada– para eliminar a humanidade, uma interrupção prolongada das redes elétricas seria uma abordagem direta. Uma análise do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos e da Sociedade Americana de Engenheiros Mecânicos descreve como operações cibernéticas sofisticadas poderiam, teoricamente, alcançar esse objetivo. O risco é considerado sério o suficiente para que Sam Altman, CEO da OpenAI, tenha se reunido com executivos de concessionárias de energia para discutir como evitar esse cenário .

Um ataque às redes elétricas prejudicaria gravemente a agricultura convencional. Teriam energia apenas aqueles que conseguissem produzi-la por conta própria, por exemplo, com painéis solares e microrredes. Sem bombas de combustível, ventilação para o gado, refrigeração de alimentos, sistemas de irrigação, secagem de grãos e produção de fertilizantes, o sistema alimentar entraria rapidamente em colapso. Até os pequenos agricultores enfrentariam dificuldades.

Mas nem todos teriam de passar fome. Há uma década, escrevi um livro com meu colega David Denkenberger que mostrava ser possível produzir calorias suficientes para alimentar a população mundial durante uma catástrofe global, mesmo sem a agricultura convencional.

A seguir, estão 8 maneiras de produzir alimentos para sobreviver caso a agricultura moderna entre em colapso.

Como a agricultura entraria em colapso

Se agentes de IA rebeldes derrubassem as redes elétricas, a agricultura convencional entraria em colapso em uma sequência previsível.

Primeiro, faltaria combustível. As bombas dos depósitos e postos de combustível dependem de eletricidade. Assim, tratores, colheitadeiras, geradores para irrigação e outros equipamentos parariam de funcionar em questão de dias ou semanas, dependendo da quantidade de combustível armazenada nas propriedades rurais.

Em seguida, o gado confinado em ambientes controlados morreria. Muitos galpões de aves e suínos dependem de ventilação motorizada. Em climas quentes, as perdas começariam poucas horas depois da falha, enquanto os sistemas automatizados de alimentação e abastecimento de água também deixariam de funcionar.

Os alimentos também durariam pouco sem armazenamento refrigerado, embalagem e transporte. Leite, carne e produtos agrícolas estragariam em poucos dias.

Sem irrigação, armazenamento de grãos ou fertilizantes

A médio prazo, os sistemas de irrigação das lavouras deixariam de funcionar, já que as bombas e os pivôs centrais dependem de eletricidade. Apenas os sistemas de irrigação por gravidade e pela água da chuva continuariam funcionando, o que reduziria drasticamente a produtividade das safras em regiões áridas.

Em seguida, haveria falhas na secagem e no armazenamento de grãos. O milho colhido úmido precisaria ser seco e arejado com soluções solares. Sem a secagem mecânica, o crescimento de mofo liberaria micotoxinas e estragaria as reservas de grãos armazenadas.

A safra seguinte ao colapso deixaria de contar com fertilizantes nitrogenados sintéticos. Produzidos pelo processo Haber-Bosch, que consome grandes quantidades de eletricidade e gás e converte o nitrogênio atmosférico em amônia, esses fertilizantes são essenciais para a alimentação de cerca de metade da população mundial. Sem a reposição de nitrogênio, a produtividade dos cereais cairia de 30% a 50% devido ao esgotamento dos solos.

Sem moinhos nem frigoríficos

O processamento seria outro gargalo. Muitos moinhos, frigoríficos e fábricas de embalagem funcionam inteiramente com energia elétrica. Cereais e gado poderiam continuar nos campos, mas os alimentos ainda assim ficariam indisponíveis.

Para complicar a situação, os sistemas de distribuição e pagamento também deixariam de funcionar. A sinalização ferroviária, a logística do transporte rodoviário e os pagamentos eletrônicos entrariam em colapso, fragmentando os mercados nacionais de alimentos em mercados locais quase imediatamente.

As comunidades agrícolas de pequena escala estariam em melhor situação, mas também enfrentariam desafios. As cadeias de abastecimento que elevaram a produtividade ao longo do último século se romperiam, levando a produção de volta aos níveis do início do século 20.

Sementes híbridas e geneticamente modificadas precisam ser compradas novamente a cada ano. Se estivessem disponíveis apenas sementes guardadas da safra anterior, elas sofreriam segregação e a produtividade cairia. Pesticidas, medicamentos veterinários e peças de equipamentos também seriam muito mais difíceis de obter.

Até comunidades que dependem pouco da tecnologia, como os Amish, seriam afetadas. Os agricultores convencionais, porém, enfrentariam dificuldades ainda maiores. Os efeitos atingiriam a população em geral.

8 maneiras de produzir alimentos

A prioridade seria desligar a IA rebelde e consertar as redes elétricas. Enquanto isso não fosse possível, o retorno ao trabalho manual e à tração animal reduziria a produção por trabalhador em uma ordem de magnitude. O abastecimento global de alimentos seria suficiente para sustentar apenas uma fração da população mundial atual.

Regiões com agricultura de subsistência e de sequeiro, como partes da África, estariam em situação melhor do que regiões industrializadas, como a América do Norte.

Ainda assim, há medidas que poderiam ajudar a garantir o abastecimento de alimentos:

redirecionar alimentos destinados aos animais para o consumo humano . Alimentar animais com produtos próprios para consumo humano e depois consumir esses animais é ineficiente. Direcionar os grãos usados na pecuária para a população seria uma das formas mais rápidas de recuperar calorias, já no primeiro dia do apagão;

suspender a produção de biocombustíveis . As culturas comestíveis atualmente convertidas em combustível precisariam voltar imediatamente ao abastecimento alimentar;

interromper a produção de álcool . Nos Estados Unidos, as culturas utilizadas para produzir álcool poderiam alimentar 425 milhões de pessoas por ano se fossem destinadas diretamente ao consumo humano;

reduzir o desperdício de alimentos . O foco deveria ser aproveitar as calorias existentes, em vez de produzir novas. A Aliança para Alimentar a Terra em Situações de Desastre defende que medidas de conservação são mais eficazes nos estágios iniciais de uma crise alimentar global;

plantar mais leguminosas para fixar nitrogênio . Essa medida substituiria parte do fertilizante produzido pelo processo Haber-Bosch e seria fundamental para manter a fertilidade do solo;

extrair calorias de resíduos agrícolas . Palha e restolho –caules e folhas que sobram das colheitas– poderiam ser transformados em ração animal e, depois, em alimentos por meio da pecuária. Também poderiam ser convertidos em açúcares e produtos comestíveis por meio de microrganismos, usados no cultivo de fungos, como substrato para cogumelos ou fermentados para produzir proteína unicelularl;

pescar com embarcações movidas a energia eólica . A pesca à vela eliminaria a dependência de combustível e permitiria capturar grandes quantidades de peixes;

plantar alimentos nos quintais . Gramados decorativos poderiam dar lugar a hortas. O cultivo de plantas como a soja em quintais ajudaria a fornecer parte da proteína necessária às famílias.

Uma última linha de defesa

Se a situação piorasse muito, grupos de pesquisa já teriam desenvolvido mais de uma dúzia de maneiras de produzir as calorias necessárias para alimentar a população enquanto a agricultura convencional fosse restabelecida.

A última linha de defesa seria criar os chamados alimentos resilientes para abastecer a população.

Esses processos incluem a conversão de plástico em alimento, a produção de proteína unicelular comestível a partir de gás natural, a extração de proteína de folhas e até a transformação de resíduos de impressão 3D em matéria-prima para proteínas unicelulares que possam ser convertidas em alimentos próprios para consumo humano.

Essas alternativas, porém, seriam mais radicais –e, espera-se, desnecessárias.

Este texto foi publicado originalmente pelo The Conversation , em 27 de outubro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360 .

Reportagem completa: https://www.poder360.com.br/poder-agro/como-alimentar-a-populacao-mundial-se-a-ia-derrubar-a-rede-eletrica/

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