Para assumir o controle do Senado, o Partido Democrata precisa manter as cadeiras que já ocupa e conquistar mais quatro nas eleições desta terça-feira nos EUA. Independentemente do resultado que sairá das urnas, três candidatos se destacaram na corrida que, até a guerra contra o Irã, parecia certa para os republicanos.
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Com estilos e plataformas distintas, eles prometem fazer história e, se eleitos, poderão definir a trajetória política do partido na disputa presidencial de 2028, numa árdua batalha entre os moderados e a ala à esquerda. Em comum, os três candidatos despertaram a fúria do presidente Donald Trump em comentários jocosos nos comícios que ele fez pelo país em busca do voto republicano.
Em quatro mandatos como deputado estadual no Texas, James Talarico construiu uma sólida base de apoio entre os eleitores e ameaça transformar o estado tradicionalmente republicano em democrata, combinando fé cristã, discrição e apelos ao bipartidarismo.
O médico Abdul El-Sayed, que concorre a uma vaga ao Senado pelo Michigan, representa a ala mais progressista do partido e tem sido alvo de ataques virulentos tanto pela ascendência muçulmana quanto pelas posições contra Israel.
Senador mais jovem em exercício, Jon Ossoff tenta a reeleição pela Geórgia, mas seu nome aparece forte como possível candidato às eleições para a Casa Branca em 2028.
Veja a seguir como a corrida eleitoral acirrada os transformou em estrelas em ascensão no Partido.
JAMES TALARICO — TEXAS
Democratic Senate candidate James Talarico speaks at a rally on July 13, 2026, in Eagle Pass, Texas.
(AP Photo/Brenda Bazán, File)
Os democratas depositam no seminarista presbiteriano e deputado estadual a maior esperança de conquistar uma vaga para o Senado, após mais de três décadas de predomínio republicano consolidado no Texas. Talarico, de 37 anos, desafia o procurador-geral Ken Paxton numa disputa excepcionalmente competitiva no estado conservador, que o põe na dianteira, com 47,6% das intenções de voto contra 44,7% do republicano, segundo a média de pesquisas do Real Clear Politics.
O candidato democrata foi alvo de teorias da conspiração, quando, no fim de setembro, ficou nove dias afastado da campanha por uma gripe. Foi o suficiente para que seus opositores espalhassem o boato de que ele estaria internado em uma clínica psiquiátrica e que o presidente Donald Trump afirmasse, sem provas, que Talarico é vegano e teria comido carne para obter ganhos políticos.
O presidente americano deu força ao aliado Ken Paxton, ao ajudá-lo a derrotar o republicano John Cornyn nas primárias republicanas, apesar do extenso histórico de escândalos de corrupção envolvendo o procurador-geral.
“Eu tenho experiência legislativa, Ken Paxton tem antecedentes criminais. Esta eleição é sobre se vocês querem um senador que ponha dinheiro no bolso de vocês ou no próprio. É sobre se vocês querem um senador que defenda o Texas ou a si mesmo. É sobre se vocês querem um senador que sirva a vocês mesmo ou aos seus megadoadores bilionários”, clamou Talarico num comício em Houston.
Talarico se referia a Elon Musk, que gastou mais de 150 milhões de dólares do próprio bolso para apoiar Paxton. Para fazer frente ao rival, o candidato democrata focou a campanha na união e na fé. Ex-professor do ensino fundamental, ele capitaneia uma candidatura crucial para o país: o Decision Desk HQ dá a Talarico 60% de chances de vitória no Texas, onde Trump venceu nas três últimas eleições e derrotou, em 2024, a ex-vice-presidente Kamala Harris por mais de dez pontos percentuais.
ABDUL EL-SAYED — MICHIGAN
O presidente dos EUA, Donald Trump, diante de telão exibindo comício de Abdul El-Sayed, candidato a senador pelo estado do Michigan, em 25 de outubro de 2026.
Julia Demaree Nikhinson/ AP
Se derrotar o ex-congressista republicano Mike Rogers, o democrata Abdul El-Sayed se tornará o primeiro muçulmano a ocupar uma vaga no Senado americano. Representante do setor mais progressista, ele expôs as divisões no partido em Michigan, numa dolorosa batalha nas primárias em agosto, na qual derrotou a candidata moderada Haley Stevens.
Michigan é um estado decisivo nas eleições, e as pesquisas dão vantagem de 3 a 7 pontos percentuais para El-Sayed. Enquanto os democratas tentavam centrar a campanha em Trump, seus opositores preferiram enfocar mais a origem do candidato, em vez de discutir os problemas que afligem a população do estado, como inflação, alta de preços dos combustíveis e a guerra contra o Irã.
Filho de egípcios, o médico El-Sayed, de 42 anos, enfrentou a retórica antimuçulmana oriunda de Trump e do adversário Rogers, de 63 anos. Em declarações consideradas islamofóbicas, o presidente o chamou de jihadista e questionou sua lealdade aos EUA, acusando-o de estar ao lado de terroristas e ser uma ameaça à segurança nacional.
Mike Rogers e Abdul El-Sayed disputam vaga no Michigan
Paul Sancya/AP; Julia Demaree Nikhinson/AP
O candidato negou ter laços com a Irmandade Muçulmana, afirmação repetida com insistência pelo republicano Rogers, ex-agente do FBI e ex-congressista. El-Sayed se indispôs também com parte da comunidade judaica, ao criticar duramente Israel e defender a retirada da ajuda militar dos EUA ao país. Precisou pedir desculpas por declarações como “pessoas feridas ferem pessoas”, sobre o massacre de 7 de outubro de 2023 em Israel, e condenou o antissemitismo.
Na reta final da campanha, o ex-presidente Barack Obama, outrora chamado por ele de “bastante centrista e moderado”, juntou-se a El-Sayed num comício em Detroit.
“Temos clareza sobre a escolha nesta eleição. Abdul está lutando por mudanças reais, que acabarão com esta guerra, tirarão o dinheiro da política e o devolverão para o seu bolso”, afirmou o ex-presidente.
Neste domingo, a dois dias das eleições, recebeu uma bola nas costas da ex-adversária democrata Stevens, que declarou apoio ao republicano Mike Rogers. O gesto reafirmou as diferenças com a ala mais à esquerda do partido, num claro sinal de que a pacificação está distante.
JON OSSOFF — GEÓRGIA
Jon Ossoff, candidato democrata ao Senado dos EUA pela Geórgia, durante ato de campanha nesta segunda-feira (4)
O senador democrata busca a reeleição, mas no horizonte é cotado como um dos possíveis candidatos do partido para as presidenciais de 2028. Nas eleições de terça-feira, Ossoff está em vantagem, e suas chances contra o deputado republicano Mike Collins são de 69%, segundo o Real Clear Politics.
O que parece estar em jogo é a reafirmação da carreira política em ascensão de Ossoff, o único senador democrata em exercício que busca a reeleição em um estado onde Trump venceu em 2024. Aos 39 anos, ele é frequentemente comparado com Obama em estilo e carisma. Num comício na quarta-feira passada, o ex-presidente derramou-se em elogios ao candidato:
“Não é só porque ele é tão bem-apessoado. Não é porque ele se parece com um Kennedy, todo charmoso nos vídeos. É porque ele aprendeu com seu mentor e meu mentor – um dos grandes: John Lewis", afirmou, referindo-se ao líder dos direitos civis.
Ossoff vive um momento de grande popularidade. Foi dele o comentário que expôs o suposto vínculo entre o presidente Trump e sua assistente Natalie Harp e viralizou nas redes sociais. Por enquanto, ele diz não ter interesse nas eleições para a Casa Branca, mas uma pesquisa recente apontou que ele venceria o vice-presidente JD Vance e o secretário Marco Rubio, num eventual confronto em dois anos.
Sua campanha para o Senado centrou-se em ataques a Trump pela maneira como o presidente conduziu a guerra contra o Irã e lidou com os arquivos de Jeffrey Epstein.
“Enquanto o presidente corrupto e sua família corrupta arrecadam bilhões do mundo todo, você paga mais por tudo. Eles dobraram seus prêmios de seguro e cortaram o Medicaid para reduzir os impostos para os ricos, nos levaram à guerra com mentiras e passaram a maior parte do ano passado acobertando o pedófilo mais famoso do mundo”, resumiu o candidato, num de seus comícios.
Primeiro senador judeu da Geórgia e o mais jovem da Casa, ele criticou Israel e votou contra a venda de armas ao país durante a guerra em Gaza, levantando a desconfiança de parte da comunidade judaica. Ele ataca o rival Mike Collins por vínculos com a extrema direita: o deputado foi alvo de uma investigação do Comitê de Ética da Câmara e de denúncias de postagens antissemitas e supremacistas feitas por seu genro.

