# O que está em jogo na primeira decisão do Copom após a reeleição de Lula

- Seção: Economia
- Fonte: InfoMoney (https://www.infomoney.com.br/economia/o-que-esta-em-jogo-na-primeira-decisao-do-copom-apos-a-reeleicao-de-lula/)
- Publicado em: 2026-11-03T08:00:00.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1488114-o-que-esta-em-jogo-na-primeira-decisao-do-copom-apos-a-reeleicao-de-lula

> Bastaram cinco pregões para os agentes econômicos refazerem as contas sobre os juros no Brasil. A semana que se seguiu à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) levou a Bolsa à pior queda semanal desde março de 2020,…

A decisão deve indicar como o BC avalia o efeito desse choque sobre a inflação e se a sequência de cinco cortes chegou ao fim ou foi apenas suspensa. &#8220;A reunião ganhou peso por ser a primeira decisão relevante de política econômica depois da eleição, num momento de incerteza muito alta sobre a política fiscal&#8221;, afirma Guilherme Ghidetti, sócio e CIO da Jera Capital .

O tombo começou na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno, quando o Ibovespa acionou o circuit breaker. O índice emendou cinco sessões de queda e encerrou outubro com o pior desempenho mensal desde junho de 2022.

No Tesouro Direto , os títulos prefixados tiveram a maior alta diária de taxas da série histórica, iniciada em 2005, e o Tesouro Nacional cancelou leilões e recomprou papéis para conter a volatilidade. Na Bolsa, a leitura predominante entre analistas passou a ser de cautela, com carteiras mais defensivas e alertas de que a recuperação pode levar meses .

Para Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital , a reação reflete uma quebra de expectativa, já que o mercado esperava maior controle de gastos no próximo governo. Com o resultado das urnas, segundo ele, &#8220;o mercado encontra-se em um momento de incerteza quanto às contas públicas e de receio quanto ao futuro da dívida pública brasileira&#8221;.

Nas opções de Copom negociadas na B3, a probabilidade de manutenção da Selic, minoritária antes da eleição, chegou a perto de 70% no fechamento de quinta-feira (29), contra cerca de 30% de chance de um corte de 0,25 ponto percentual. Os contratos embutem até apostas residuais em alta dos juros.

Antes do segundo turno, a discussão se concentrava em quantos cortes adicionais o Copom ainda faria, lembra Leandro Padulla, economista do ASA . &#8220;Agora, o debate passou a incluir a possibilidade de interrupção imediata do ciclo de flexibilização monetária&#8221;, diz.

Para um operador ligado a um importante banco estrangeiro, ouvido pelo InfoMoney , a volatilidade dos últimos dias tira do BC parte da base técnica para decidir. Os preços na tela, segundo ele, ainda refletem desmontagem de posições e ordens de stop loss, e o câmbio pode mudar de patamar rapidamente a depender dos anúncios do governo. &#8220;A decisão deixa de ser uma decisão quantitativa, vai ser uma decisão mais qualitativa&#8221;, afirma.

O operador vê argumentos para os dois caminhos, mas defende a pausa. Na avaliação dele, interromper os cortes depois de um evento desse porte é mais fácil de justificar e deixa a porta aberta para retomá-los mais adiante. Já um corte agora, com o investidor local em pânico, poderia alimentar teorias sobre a independência do BC, ainda que ele não veja risco real de credibilidade. &#8220;Se eu fosse ele, eu não cortava&#8221;, resume.

João Peixoto, CEO da Ouro Preto Investimentos , não vê motivo para o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afrouxar a política monetária no curto prazo. &#8220;Se ele não fez antes para beneficiar Lula, agora tem menos motivo para fazer&#8221;, diz.

Câmbio, inflação e expectativas

O efeito do choque sobre a inflação está no centro da decisão. &#8220;O papel do Banco Central, neste momento, é avaliar em que medida a depreciação cambial e o aumento dos prêmios de risco serão persistentes e poderão contaminar as expectativas e as projeções de inflação no horizonte relevante&#8221;, explica Padulla.

De um lado, segundo o economista do ASA, a atividade econômica continua em desaceleração, refletindo os efeitos dos juros altos. De outro, a depreciação cambial, a incerteza fiscal e o risco de deterioração adicional das expectativas recomendam mais cautela. O efeito líquido deve ser uma elevação da inflação projetada pelo Copom.

Em relatório, o Bradesco aponta que, desde a última reunião, o petróleo ficou mais pressionado e o real se desvalorizou frente ao dólar, o que deve elevar a projeção de inflação do BC no horizonte relevante. Ainda assim, o banco projeta um corte de 0,25 ponto percentual nesta quarta, para 13,5% ao ano.

Padulla não descarta um último corte. Mesmo revisada para cima, a projeção do Copom pode seguir perto da meta, o que não inviabilizaria necessariamente essa decisão. &#8220;No entanto, em um ambiente de expectativas mais desancoradas e maior incerteza fiscal, diminui o espaço para reduzir o grau de restrição monetária&#8221;, pondera.

Magno, da AW Capital, avalia que os dados atuais até dão espaço para o Copom cortar, mas que a escolha passa pelo humor do mercado. Um corte poderia provocar novas altas nos juros futuros, enquanto a manutenção ajudaria a acalmar os preços e mostraria ao mercado que o BC &#8220;entende o momento e que não vai ceder à pressão política&#8221;. Ele espera um BC mais duro, que pause os cortes.

Fiscal como pano de fundo

A apreensão vem principalmente das contas públicas. A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em setembro, segundo o Banco Central. Pelos cálculos da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado , a perda de arrecadação com as bets, o pacote para microempreendedores individuais e o reajuste do Bolsa Família devem gerar um impacto fiscal de R$ 40 bilhões não previsto no orçamento, conta que não inclui outras promessas de campanha.

No discurso de vitória, Lula prometeu universalizar a escola de tempo integral até o ensino médio e criar o Pé-de-Meia universitário. Ghidetti observa que o presidente não fez menção a déficit, dívida ou juros. Segundo ele, a Fazenda reafirmou o compromisso com a meta fiscal e diz ter medidas prontas, mas não detalhou quais seriam.

Na segunda-feira, Lula se reuniu com os ministros Dario Durigan, da Fazenda, e Bruno Moretti, do Planejamento, para tratar da política fiscal e da composição da equipe. Até o fechamento desta reportagem, não havia anúncio sobre a nova equipe econômica.

Para o CIO da Jera, uma pausa é o caminho. &#8220;O que está em jogo é a credibilidade do Banco Central. O BC é a principal âncora das expectativas. Se cortar os juros logo depois de um choque desse tamanho, o mercado vai entender que a política monetária pode passar a acomodar o fiscal&#8221;, afirma. &#8220;Uma pausa, com um comunicado firme, mostra que a função de reação do BC não mudou com o resultado da eleição.&#8221;

Pierre Jadoul, diretor-executivo e responsável pela estratégia de crédito privado da ARX Investimentos , vê pouco espaço para cortes no curto prazo e condiciona o cenário à sinalização do governo sobre o ajuste fiscal. &#8220;Se não houver sinalização, e se [o] BC tentar cortar os juros, veremos a curva de juros futura estourando, e empresas se financiam na curva futura, não na Selic de um dia&#8221;, alerta.

Peixoto, da Ouro Preto, defende juros menores, mas com uma condição. &#8220;Eu discordo dos economistas, acho que tem de baixar a taxa de juros, mas antes o governo teria de mostrar que é responsável em termos fiscais&#8221;, diz.

Alexandre Muller, CIO da Leto Capital , projeta Selic média de dois dígitos ao longo de todo o novo mandato. &#8220;Essa matriz econômica que o governo escolheu vai produzir juro alto, não tem como fugir disso&#8221;, aponta.

Bernardo Feijó, COO da Kapitalo Investimentos , vê a alta dos juros como discussão mais provável daqui para frente. &#8220;E caso se esteja discutindo queda, será por motivos muito ruins, colapso na atividade ou até no limite, questionamento da independência do BC, o que se quer evitar a todo custo. São riscos de cauda, mas estão na mesa&#8221;, diz.

Sinais para dezembro e para a renda fixa

Para Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos , a postura mais adequada seria manter a Selic, com um comunicado firme e vigilante. Um corte sem sinalização convincente de convergência da inflação à meta, avalia, poderia ser interpretado como prematuro e pressionar ainda mais o câmbio e os juros longos. &#8220;Tão importante quanto a decisão será a clareza do comunicado sobre os riscos identificados e as condições necessárias para novos cortes&#8221;, ressalta.

O comunicado do Copom deve indicar se a porta fica aberta para a reunião de dezembro, a última do ano. Até a decisão, a agenda inclui as projeções do boletim Focus, divulgadas excepcionalmente nesta terça-feira por causa do feriado, e os dados de emprego formal do Caged, que saem na quarta.

Para o investidor, uma pausa mantém o rendimento das aplicações pós-fixadas, como o Tesouro Selic e os CDBs atrelados ao CDI, no patamar atual por mais tempo. Muller acredita que esse quadro deve manter a renda fixa no centro das carteiras. &#8220;Como tem sido no Lula 3, com a Selic média em dois dígitos, dificilmente a renda fixa vai deixar de ser dominante nas carteiras no próximo governo&#8221;, diz.

Os títulos prefixados e atrelados à inflação seguem sujeitos à marcação a mercado , que reflete diretamente a reação da curva de juros à decisão e ao comunicado. Diante de um resultado ainda incerto, o operador ouvido pelo InfoMoney diz que não montaria posição antes da reunião. &#8220;Eu nunca apostaria nesse trade&#8221;, conta.

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