# Edinho Silva defende transição para saída das bets do futebol

- Seção: Política
- Fonte: Poder360 (https://www.poder360.com.br/poder-partidos-politicos/edinho-silva-defende-transicao-para-saida-das-bets-do-futebol/)
- Publicado em: 2026-11-03T09:00:31.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1488816-edinho-silva-defende-transicao-para-saida-das-bets-do-futebol

> O presidente nacional do PT (Partido dos Trabalhadores), Edinho Silva, defendeu a construção de um período de transição para retirar as bets do financiamento do futebol brasileiro. Em entrevista ao Poder360 , afirmou que a discussão deve…

Segundo ele, essa é uma opinião pessoal, já que o partido nunca formulou uma posição coletiva sobre o tema.

Edinho disse que concorda com a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de proibir os jogos de aposta on-line no Brasil. Ressaltou, porém, que a medida pode favorecer o avanço de plataformas clandestinas.

“ A proibição das bets pode abrir espaço para que os jogos on-line se desenvolvam de forma clandestina, na ilegalidade, e o jogo ilegal pode acabar sendo apropriado pelo crime organizado e utilizado como instrumento de lavagem de dinheiro ”, declarou.

A decisão do governo foi formalizada pela MP 1.394 , de 25 de setembro de 2026. A iniciativa foi associada à preocupação com o endividamento dos brasileiros e ao impacto eleitoral da restrição às apostas. Nesse cenário, Edinho defende que a saída das empresas do futebol seja discutida de forma gradual, levando em conta os efeitos econômicos da medida sobre o setor.

Eis os temas abordados e que disse Edinho:

corte dos juros proposto por André Lara Resende – o economista André Lara Resende, 75 anos, um dos formuladores do Plano Real, sustenta que o Banco Central mantém a taxa básica de juros em patamar alto “em nome de uma teoria anacrônica” . Ele acha que deve ser criado um novo sistema que combine política monetária (controle da inflação) e fiscal (controle das despesas) e que assim seria possível cortar a taxa de juros drasticamente e de forma rápida. Confrontado com essa possibilidade, Edinho disse: “Essa proposta nunca foi debatida no PT ou com o presidente Lula, nem há agenda construída para isso” ;

presidências da Câmara e do Senado – Edinho Silva afirma que o PT será contra qualquer candidato de “inspiração fascista” e deve possivelmente acabar apoiando as reeleições (as disputas são em 1º de fevereiro de 2027) de Hugo Motta (para presidir a Câmara) e de Davi Alcolumbre (para o Senado). O objetivo, afirma, é que a legenda atue para impedir a chegada de representantes do “radicalismo” no comando das duas Casas;

anistia para o 8 de Janeiro – o presidente do PT diz que a prioridade neste momento segue sendo a defesa da democracia e não tratar de temas como a dosimetria de penas para os condenados pelo 8 de Janeiro. Afirma que “qualquer diálogo sobre a dosimetria das penas, se tiver de acontecer, deve ocorrer em um ambiente de pacificação nacional” ;

apreensão do passaporte de Flávio Bolsonaro – o pedido para que o documento fosse retido foi feito pela Polícia Federal só 7 minutos depois de proclamado o resultado da eleição presidencial de 25 de outubro. “ Exclusivamente do ponto de vista político, e não jurídico, considero que talvez a decisão tenha sido inoportuna naquele momento. Penso que poderia ter sido mais adequado aguardar a consolidação do resultado eleitoral e, posteriormente, caso houvesse necessidade, adotar as medidas cabíveis” , diz o petista. “Talvez o tempo permita compreender melhor por que a medida precisou ser tomada exatamente daquela maneira e naquele momento” ;

impeachment de ministros do STF – o presidente do PT lembra que o partido decidiu em seu 8º Congresso Nacional (realizado em abril de 2026) que é necessária “tanto a reforma política e eleitoral quanto a reforma do Poder Judiciário” . Sobre punir algum ministro do Supremo Tribunal Federal, entretanto, ele é mais cauteloso: “Precisamos distinguir claramente as iniciativas que fortalecem a democracia daquelas que podem enfraquecê-la. Na minha avaliação, o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, nas circunstâncias atuais, enfraqueceria a democracia e as próprias instituições [&#8230;] Precisamos corrigir rumos, enfrentar problemas e promover reformas urgentes para fortalecer a democracia brasileira. O que o PT não fará é aderir a iniciativas oportunistas que, sob o argumento de corrigir problemas, acabem fragilizando as instituições democráticas” ;

fim da taxa das blusinhas – aconselhado por seu marqueteiro, Sidônio Palmeira, o presidente Lula decidiu em maio de 2026 acabar com a chamada taxa das blusinhas –um imposto federal que incidia sobre compras de valor unitário de até US$ 50 (cerca de R$ 270). Edinho diz que o PT não tem uma política unificada a respeito do tema. “Essa é uma posição pessoal. Precisamos preservar o direito dos setores populares de realizar compras on-line, [mas] penso que é necessário construir uma mediação que considere também a realidade dos comerciantes brasileiros [para] preservar o pequeno e o médio comércio e considerar os impactos dessa política sobre o conjunto do varejo brasileiro” ;

transição para o fim da escala 6 X 1 – o Congresso aprovou e já promulgou o fim da escala de 6 dias de trabalho por 1 de descanso a cada semana. Até antes do Natal de 2026, todas as empresas terão de reduzir a escala de 44 horas para 42 horas semanais. E no Natal de 2027, já estarão em vigor só as 40 horas semanais com 2 dias de descanso por semana. O Brasil é um dos países que reduziu a jornada de trabalho dando o tempo mais curto para que as empresas se adaptem. Edinho Silva diz ver espaço para negociar melhorias no processo de transição. “É necessário olhar para as particularidades de cada setor e dialogar sobre as regras de transição, considerando suas diferentes realidades” .

A seguir, trechos da entrevista de Edinho Silva ao Poder360 :

Poder360 – O que o PT acha da proposta do economista André Lara Resende para mudar a política monetária e cortar a taxa de juros de maneira mais rápida?

Edinho Silva – Essa proposta nunca foi debatida no PT ou com o presidente Lula, nem há agenda construída para isso.

Qual foi o principal acerto e o principal erro do PT na campanha eleitoral de 2026?

Uma eleição não se ganha nem se perde por um único fator. O resultado é consequência de um conjunto de circunstâncias, decisões e ações políticas construídas ao longo do processo eleitoral. A eleição de 2026 foi extremamente difícil, certamente uma das mais difíceis da história brasileira. Não enfrentamos apenas um candidato. Enfrentamos, sobretudo, um sentimento de mudança que já estava presente na sociedade antes mesmo do início da campanha.

Esse sentimento não é exclusivo do Brasil. É um fenômeno mundial, resultado de profundas transformações econômicas e sociais. Desde a crise de 2008, a economia mundial enfrenta dificuldades para retomar um crescimento sustentável. Ao mesmo tempo, vivemos uma transformação do sistema produtivo talvez comparável, em sua profundidade, à Revolução Industrial. A incorporação da robótica, da informática e, mais recentemente, da inteligência artificial ao sistema produtivo e ao setor de serviços está transformando profundamente o mundo do trabalho. Essas mudanças, associadas à financeirização da economia, têm provocado concentração de renda, precarização das relações de trabalho e perda de poder aquisitivo de parcelas importantes da classe trabalhadora, especialmente dos setores médios e daqueles que tradicionalmente dependiam do emprego formal.

Esse processo produz insatisfação e um sentimento generalizado de mudança. As pessoas vão às urnas, votam, mas não percebem melhorias significativas em suas condições de vida. Isso acaba colocando em xeque a própria democracia. É um sentimento que tem sido apropriado pela direita e pela extrema direita em diversas partes do mundo. Basta observar as últimas eleições na América Latina, nas quais, majoritariamente, os governos que estavam no poder foram derrotados.

No Brasil, iniciamos o processo pré-eleitoral com esse sentimento já presente na sociedade. Ele se aprofundou com as denúncias envolvendo o Supremo Tribunal Federal. E, naturalmente, quem paga o maior preço político diante de um sentimento generalizado de mudança é quem está governando, é o incumbente.

Além disso, enfrentamos a manifestação aberta do governo Trump contra a candidatura do presidente Lula, a atuação das big techs e um enorme poderio econômico. Basta comparar o volume de recursos arrecadados pela candidatura de Flávio Bolsonaro com as doações recebidas pela campanha do presidente Lula.

Portanto, enfrentamos uma correlação de forças extremamente adversa.

Mesmo nesse cenário, conseguimos construir importantes acertos políticos e organizativos. Organizamos palanques para o presidente Lula nos 27 Estados da Federação, algo inédito, e constituímos coordenações estaduais de campanha com a participação dos partidos aliados e dos movimentos sociais.

Também realizamos um movimento político decisivo ao impedir que os partidos de centro aderissem à candidatura de Flávio Bolsonaro no 1º turno. Isso evitou que ele tivesse o dobro do nosso tempo de televisão e rádio. Analisando o resultado do 1º turno, considero que essa foi uma decisão estratégica muito acertada, talvez decisiva para as condições de disputa no segundo turno. Esse movimento certamente evitou uma margem maior na “abertura da dianteira”.

Do ponto de vista da linha política, também considero correta a decisão de recuperar o legado do presidente Lula. O 3º governo Lula foi o mais exitoso da história brasileira em volume de entregas à população. Não poderíamos abrir mão desse legado. Era necessário demonstrar o que havia sido realizado e, ao mesmo tempo, sinalizar para o futuro. Quem fez poderia fazer ainda mais.

O problema é que as denúncias envolvendo o Supremo fizeram com que o sentimento de mudança fosse capturado pela candidatura de Flávio. Mesmo com o presidente Lula defendendo as investigações e afirmando que ninguém estava acima da lei, sua condição de presidente dificultava que esse sentimento se identificasse com nossa candidatura.

Quando conseguimos deslocar o protagonismo das denúncias e das decisões do Supremo do centro do debate eleitoral e estabelecer o confronto entre os projetos de país, já não havia tempo suficiente para reverter o sentimento que havia sido apropriado pela candidatura adversária. Não tenho dúvida de que esse foi um fator decisivo para a vitória de Flávio Bolsonaro no 1º turno.

No 2º turno, entretanto, o cenário político mudou. Flávio passou a reivindicar de maneira mais explícita o legado do governo de seu pai e a defender suas políticas. Isso nos permitiu recuperar o verdadeiro confronto entre 2 projetos de país. Demonstramos o que representou o governo Bolsonaro: o congelamento do salário mínimo e das aposentadorias, o desmonte do SUS, a retirada de recursos da educação, as perdas de direitos e a condução do país durante a pandemia.

Ao mesmo tempo, o apoio explícito do sistema financeiro à candidatura de Flávio Bolsonaro, as decisões de setores do TSE que consideramos favoráveis à sua campanha e a atuação ainda mais intensa das big techs tornaram evidente o alinhamento de sua candidatura com os interesses do sistema econômico e político dominante.

Conseguimos, então, demonstrar que Flávio Bolsonaro representava a manutenção de um sistema de privilégios, inclusive econômicos, da elite brasileira, enquanto Lula representava um projeto democrático e popular, comprometido com os direitos e com a melhoria das condições de vida do povo brasileiro.

Foi nesse momento que conseguimos disputar e conquistar o sentimento de mudança presente na sociedade. A candidatura de Lula passou a representar a possibilidade real de transformação, enquanto a de Flávio passou a ser identificada com a preservação dos privilégios.

Essa distinção entre os 2 projetos criou as condições políticas para uma extraordinária mobilização popular. Os estudantes, de forma autônoma, começaram a ocupar as ruas em defesa do projeto de país representado pela candidatura do presidente Lula.

A 1ª mobilização ocorreu com os estudantes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, e desencadeou manifestações em todo o Brasil, incorporando outros setores da sociedade. Construímos, certamente, a maior mobilização social da história brasileira, superior inclusive às mobilizações das Diretas Já e do Fora Collor.

Essa mobilização também foi decisiva para reverter a lógica de que a direita era hegemônica nas redes sociais. Conseguimos criar as condições políticas para que a mobilização das ruas se refletisse nas redes, ampliando enormemente o alcance da nossa campanha. É fundamental reconhecer o papel do deputado André Janones nesse processo. Sua atuação foi muito importante.

Foi também nesse momento que a estruturação dos palanques e das coordenações estaduais demonstrou toda a sua importância. As coordenações nos 27 Estados permitiram organizar os calendários de mobilização, articular as lideranças políticas, incorporar os movimentos sociais e construir as manifestações do Bora Lula.

Conseguimos transformar a mobilização espontânea das ruas em um movimento político orgânico a campanha, de incorporação da linha política, com presença nos Estados, participação das lideranças políticas e enorme repercussão nas redes sociais. Essa combinação foi fundamental para construir a vitória do presidente Lula.

Mas é evidente que também tivemos dificuldades importantes.

Embora tivéssemos palanques nos 27 Estados, enfrentamos problemas para fazer os materiais de campanha chegarem a todos eles. Também tivemos dificuldades na gestão das contradições políticas locais. Uma parte significativa da energia da coordenação nacional foi consumida na administração de conflitos e na busca de coesão política entre as diferentes forças que integravam a campanha.

Tivemos ainda dificuldades estruturais e financeiras. Uma campanha presidencial dessa dimensão, com candidaturas próprias ou de aliados aos governos estaduais, ao Senado e às disputas proporcionais nos 27 Estados, naturalmente gera demandas muito superiores à capacidade de atendimento.

Nossa prioridade absoluta era a campanha do presidente Lula. Isso provocou, em muitos momentos, conflitos com candidaturas proporcionais, aos governos estaduais e ao Senado, que também necessitavam de recursos e estrutura. Não tínhamos condições de atender a todas essas demandas.

Portanto, tivemos problemas de organização, distribuição de materiais, gestão política e limitações financeiras que precisam ser reconhecidos e avaliados.

Mas o balanço final é positivo porque a campanha foi vitoriosa. Enfrentamos um sentimento de mudança que, no 1º turno, havia sido capturado pela direita, especialmente em razão das denúncias envolvendo o Poder Judiciário. Enfrentamos o governo Trump, as big techs, o poder econômico brasileiro e, em momentos importantes, também setores dos meios de comunicação.

Mesmo diante dessa correlação de forças, conseguimos reorganizar a disputa política, vincular a candidatura do Lula a mobilização da sociedade, das ruas, ampliar nossa presença nas redes e construir a vitória.

O principal acerto foi nossa capacidade de construir uma ampla articulação política e transformar o confronto entre dois projetos de país em linha política de uma extraordinária mobilização popular, autônoma, “e fora de controle”; mas com o mesmo discurso. Nosso principal erro, ou nossa maior dificuldade, foi não conseguir disputar desde o 1º turno o sentimento de mudança presente na sociedade, além dos problemas de organização e gestão da campanha nos estados.

Uma vitória eleitoral é sempre a síntese de um processo político. E a vitória do presidente Lula foi construída pela capacidade de superar dificuldades, corrigir rumos, apoiar a mobilização do povo brasileiro em defesa de um projeto democrático e popular.

O presidente Lula, depois do 1º turno, disse que teve a campanha mais desorganizada de todas. A que o presidente se referia?

Como já manifestei, tivemos muitas dificuldades no 1º turno, principalmente em relação à organização estrutural da campanha e à insuficiência de recursos para executar nossa estratégia eleitoral nos 26 Estados e no Distrito Federal. Desde o início, estabelecemos que a prioridade absoluta dos recursos seria a campanha do presidente Lula. E considero que acertamos nessa decisão. De nada adiantaria termos destinado mais recursos às candidaturas proporcionais, ao Senado ou aos governos estaduais se tivéssemos perdido a eleição presidencial.

Evidentemente, essa prioridade causou conflitos, descontentamentos e críticas à coordenação nacional. As candidaturas estaduais tinham demandas legítimas, mas não tínhamos condições financeiras de atender a todas elas. Também enfrentamos dificuldades importantes na área de comunicação, especialmente na produção e distribuição dos materiais de campanha. Inicialmente, tentamos descentralizar a produção, regionalizando a elaboração dos materiais. Essa estratégia não funcionou. Em muitos Estados, os materiais simplesmente não chegavam. Reconhecemos o problema e corrigimos rapidamente, concentrando a produção e a distribuição nos grandes centros. Essa mudança funcionou e permitiu superar as dificuldades iniciais.

O presidente Lula, ao percorrer os Estados, recebia muitas reclamações sobre a falta de materiais e sobre as limitações estruturais da campanha. Foi principalmente a essas dificuldades que ele se referiu quando, na passagem do 1º para o 2º turno, tornou públicas suas críticas à organização da campanha.

O presidente tinha razão. Os Estados também tinham razão em suas reclamações. De fato, cometemos um erro ao tentar descentralizar a produção dos materiais e enfrentamos dificuldades financeiras muito grandes. Mas é importante compreender que não tínhamos recursos suficientes para estruturar a campanha da maneira como todas as candidaturas estaduais desejavam. Nossa prioridade era garantir a reeleição do presidente Lula.

Não individualizo responsabilidades. Não é da minha prática atribuir os erros a uma ou outra pessoa. Uma coordenação de campanha acerta coletivamente e também erra coletivamente. Da mesma forma, não vou responsabilizar individualmente a comissão que estabeleceu os critérios de distribuição dos recursos. Esses critérios foram aprovados pelo Grupo de Trabalho Eleitoral. Como presidente do PT, considero que tanto os acertos quanto os erros dessas decisões são responsabilidades coletivas, que também assumo. O mais importante é que tivemos capacidade de reconhecer os problemas e corrigi-los. Se não tivéssemos feito isso, não teríamos vencido as eleições.

É inegável que cometemos erros, mas também é inegável que tivemos muitos acertos. Conseguimos construir a vitória do presidente Lula enfrentando uma correlação de forças extremamente adversa, o poder econômico, a atuação das big techs, a oposição do governo Trump e, em diversos momentos, setores dos meios de comunicação.

Portanto, reconheço as dificuldades apontadas pelo presidente Lula. Elas foram reais e precisaram ser superadas. Mas também considero fundamental reconhecer a capacidade política e organizativa que tivemos para corrigir os rumos da campanha e construir a vitória. Uma campanha que enfrenta todas essas adversidades, reconhece seus erros, corrige suas dificuldades e consegue vencer uma eleição tão difícil é, necessariamente, uma campanha vitoriosa.

Havia no PT um debate sobre o que fazer no caso de derrota de Lula: quem deveria comandar o partido. A sua presidência seria contestada. Hoje, como está a política interna do PT? Foi pacificada e não será necessário um novo PED em 2027?

Primeiro, é importante dizer que um partido como o PT, que tem uma ampla democracia interna, convive naturalmente com críticas e divergências. Eu não me importo com as críticas, nem me abalo com elas. Até porque reconheço de onde vêm essas críticas.

Minha candidatura à presidência do PT nunca foi unânime. Quando disputei o último PED (Processo de Eleições Diretas), enfrentei resistências de um núcleo dirigente que comandava o partido naquele momento. Esse núcleo só passou a apoiar minha candidatura na reta final do processo, quando ela já estava consolidada e havia construído maioria dentro do PT.

Também nunca escondi que fui eleito presidente do PT defendendo mudanças profundas no partido. Algumas decisões importantes foram adiadas em função da eleição presidencial, para que não criássemos um ambiente de divisão interna que pudesse prejudicar a candidatura do presidente Lula. Mas essas decisões terão que ser tomadas.

Eu fui eleito presidente do PT para fazer mudanças. Não vou abrir mão da plataforma que apresentei ao partido em 2025. Vou trabalhar para que essas transformações aconteçam.

O PT não pode continuar convivendo com um amontoado de projetos pessoais, em que muitas vezes o projeto coletivo é colocado em segundo plano. Em determinadas situações, o partido se transformou em um ajuntamento de mandatos parlamentares, nos quais os mandatos têm mais poder do que as próprias instâncias partidárias. Isso é inaceitável para um partido com as responsabilidades históricas e políticas do PT.

Também não podemos conviver com práticas patrimonialistas, em que a estrutura partidária é utilizada para atender a interesses pessoais e, em algumas situações, até para promover enriquecimento e crescimento patrimonial. O partido não pode ser instrumento de interesses particulares.

Precisamos recuperar a centralidade do projeto coletivo, fortalecer nossas instâncias democráticas e, principalmente, voltar a priorizar a organização de base.

As mobilizações que ajudaram a construir a vitória do presidente Lula demonstraram que existe na sociedade um sentimento profundo de mudança, inclusive em relação ao modelo político e à maneira de fazer política. O PT precisa ser o representante e o catalisador desse sentimento.

Para isso, precisamos estar presentes de forma orgânica na vida da sociedade, recuperar a organização nos territórios e utilizar a internet e as redes sociais como instrumentos para ampliar e fortalecer essa presença.

Também precisamos compreender as profundas transformações do mundo do trabalho. O crescimento do empreendedorismo não pode ser interpretado simplesmente como uma parcela da classe trabalhadora capturada pelo neoliberalismo. Para milhões de brasileiros, empreender é uma forma de sobrevivência, de enfrentar o desemprego, a precarização do trabalho, a perda de renda e a deterioração dos salários.

O empreendedorismo também é uma realidade dos setores populares. O PT precisa dialogar com esses trabalhadores, com os microempreendedores e com os micro e pequenos empresários, que muitas vezes também são economicamente oprimidos.

Da mesma forma, precisamos enfrentar temas que hoje estão no centro das preocupações da sociedade. A segurança pública, por exemplo, é um direito do trabalhador e da trabalhadora. O PT precisa apresentar respostas concretas a esse desafio.

Precisamos também formular um projeto de desenvolvimento para a Amazônia. Não podemos nos limitar a dizer o que não pode ser feito na região. Precisamos dizer o que pode, qual modelo de desenvolvimento econômico defendemos, como gerar riqueza, melhorar a renda e garantir condições dignas de vida para a população amazônica.

A possibilidade de exploração de petróleo na Costa Equatorial coloca novos desafios e oportunidades. Precisamos discutir como essa riqueza pode contribuir para o desenvolvimento da região, ao mesmo tempo em que avançamos na transição energética, na produção de energia limpa e na construção de uma sociedade ambientalmente sustentável.

Essas questões precisam fazer parte do cotidiano político do PT.

Também precisamos defender uma profunda reforma política e eleitoral. Não podemos continuar convivendo com um modelo em que o Congresso Nacional, muitas vezes, se transforma em um balcão de negócios, e em que as emendas parlamentares, como demonstram diversas denúncias, podem se tornar instrumentos de corrupção.

Precisamos defender também uma reforma do Poder Judiciário, capaz de aproximar a Justiça e o Ministério Público da realidade e das necessidades do povo brasileiro. Não é aceitável que essas instituições permaneçam tão distantes do cotidiano da população.

O PT precisa ser um instrumento dessas transformações. Precisa representar o sentimento de mudança que cresce na sociedade e apresentar um projeto político capaz de responder aos desafios do século 21. Evidentemente, para que isso aconteça, teremos que enfrentar e superar contradições internas. Estou inteiramente disposto a fazer esse debate de maneira democrática, mas também com muita firmeza.

Não tenho compromisso com a manutenção de estruturas ou práticas que impeçam o PT de se renovar. Meu compromisso é com o fortalecimento do partido, com seu projeto coletivo e com sua capacidade de continuar sendo um instrumento de transformação da sociedade brasileira.

O PT não pode deixar de ser o partido da mudança, o partido da transformação e um grande instrumento de luta do povo brasileiro.

O PT vai sustentar a candidatura de Hugo Motta para presidente da Câmara. No caso de Davi Alcolumbre, o presidente Lula já disse que o PT deve apoiá-lo para presidente do Senado. Na sua avaliação, qual a chance de sucesso dessas duas candidaturas para comandar o Congresso em 2027?

Penso que a prioridade, neste momento, é impedir que o radicalismo representado pela candidatura de Flávio Bolsonaro, marcado pela intolerância, pelo ódio, pela negação do diálogo e pelo enfrentamento à democracia, conquiste hegemonia no Congresso Nacional. Na minha avaliação, são manifestações políticas de inspiração fascista, que não podem ganhar força nem na Câmara dos Deputados nem no Senado Federal.

Nesse sentido, cabe aos partidos do campo democrático construir uma ampla articulação política, independentemente das divergências que existam entre nós, das críticas que possamos fazer uns aos outros e das diferenças entre os projetos que representamos na sociedade. O momento exige que tenhamos clareza sobre o que é prioritário: impedir que representantes desse radicalismo, que considero de inspiração fascista, conquistem o comando das duas Casas do Congresso Nacional.

Por isso, a orientação do PT é trabalhar pela construção de um amplo arco de alianças entre as forças democráticas, reconhecendo nossas diferenças e contradições, mas compreendendo a importância de uma unidade política em defesa da democracia. Se essa construção resultar na unidade em torno da candidatura de Hugo Motta à presidência da Câmara e de Davi Alcolumbre à presidência do Senado, o PT apoiará as duas candidaturas.

O fundamental é construir uma maioria democrática capaz de impedir que esse campo político de inspiração fascista amplie seu poder e conquiste a direção do Congresso Nacional.

No caso do Senado, acha que a oposição (sobretudo os partidos de direita) terá condições de formar um bloco para barrar a eleição de Alcolumbre?

Penso que, se os partidos do campo democrático tiverem capacidade de construir uma unidade política, compreendendo a importância do momento histórico que o Brasil atravessa, teremos condições de derrotar a ultradireita no Congresso Nacional.

É evidente que existem divergências e contradições entre os partidos desse campo. Representamos projetos políticos diferentes e temos visões distintas sobre diversos temas. Mas precisamos compreender que, neste momento, mais importante do que nossas diferenças é construir uma vitória política que impeça o avanço de manifestações que, na minha avaliação, são de inspiração fascista.

Se tivermos essa compreensão e capacidade de colocar a defesa da democracia acima das divergências conjunturais, acredito que teremos condições de construir uma maioria no Senado e impedir que a ultradireita conquiste o comando da Casa. Portanto, acredito que a unidade das forças democráticas é o caminho para derrotar esse campo político e garantir uma vitória no Senado Federal.

O presidente Lula chamou militantes jovens para que ajudassem no 2º turno da campanha de 2026. O grande organizador nas redes sociais foi o deputado André Janones, que é filiado à Rede. Por que o PT não estimulou antes quadros como Janones para conduzir esse tipo de interação com os eleitores na internet?

Como já disse, não é verdade que o PT não tenha estimulado a mobilização nas redes sociais. Nós estimulamos muito. O problema é que enfrentamos uma conjuntura política extremamente adversa, que dificultava qualquer iniciativa de comunicação e mobilização. As denúncias envolvendo o Supremo Tribunal Federal criaram uma verdadeira cortina de fumaça sobre o debate eleitoral. Praticamente qualquer iniciativa ou tema que tentávamos apresentar à sociedade acabava sendo ofuscado por esse ambiente político.

Durante parte do 1º turno, foi praticamente impossível romper essa cortina de fumaça e estabelecer um diálogo com a sociedade sobre os projetos de país em disputa.

Começamos a superar essa dificuldade na reta final do 1º turno e, principalmente, no 2º turno, quando conseguimos estabelecer com clareza a polarização entre 2 projetos de Brasil.

A participação do deputado André Janones foi muito importante nesse processo, assim como já havia sido na eleição de 2022. No 1º turno, ele estava concentrado em sua própria candidatura a deputado federal. No 2º turno, passou a contribuir diretamente para a mobilização nacional em apoio ao presidente Lula.

Quando Janones se propôs a organizar o canal de WhatsApp chamado Exército do Lula, conseguimos transformar a extraordinária mobilização que acontecia nas ruas em uma força também presente nas redes sociais.

Foi a mobilização política na vida real que criou as condições para o crescimento da mobilização virtual. As manifestações populares, especialmente dos estudantes e de outros setores da sociedade, produziram um ambiente político que se refletiu diretamente nas redes.

Portanto, não foi falta de estímulo do PT. O que mudou no 2º turno foram as condições políticas para que nossas iniciativas de comunicação e mobilização alcançassem a sociedade.

A combinação entre a mobilização nas ruas, a organização nas redes sociais e a contribuição fundamental de André Janones explica, na minha avaliação, o crescimento extraordinário da nossa presença digital no 2º turno.

O Brasil tem 5.560 cidades. Em 2.647 cidades há mais beneficiários do Bolsa Família do que pessoas com Carteira de Trabalho assinada. A 17 dias do 1º turno, Lula disse que não havia sido informado que o benefício havia ficado 3 anos e meio sem reajuste. Anunciou um aumento de 15% no valor base do Bolsa Família, que subiu de R$ 600 para R$ 691. O pagamento com o reajuste seria no final de outubro, mas foi antecipado para antes do 2º turno.

Nas 2.647 cidades com prevalência do Bolsa Família, o presidente Lula elevou sua votação do 1º turno para o 2º turno de 62,97% para 68,15% (foram 2.091.396 votos a mais nessas localidades: metade da diferença geral que deu a vitória a Lula).

Vários governos baixam medidas para melhorar a popularidade antes de uma eleição. No caso do presidente Lula, foram medidas em período muito próximo à eleição. Essa concessão do reajuste do Bolsa Família 17 dias antes do 1º turno e a antecipação do pagamento do valor maior para antes do 2º turno é uma prática que o PT aceitaria se fosse tomada dessa mesma forma por um adversário político?

Penso que cada circunstância merece uma análise específica. Não podemos tratar todas as questões como se fossem iguais.

O Bolsa Família, por exemplo, é um programa já instituído, com dotação orçamentária prevista. Portanto, não foi necessária a criação de uma nova despesa, mas apenas a atualização de valores com base no índice inflacionário. Penso que, quando a questão é caracterizada dessa forma, não há problema algum.

É importante compreender também que o Bolsa Família é um programa de transferência de renda destinado às famílias em situação de vulnerabilidade social. É um instrumento fundamental de combate à pobreza e à fome, mas também de promoção da inclusão social e econômica. E os resultados demonstram que o Bolsa Família é um programa que tem porta de entrada e porta de saída.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, mais de 5,1 milhões de famílias deixaram de necessitar do benefício de março de 2023 a abril de 2026, em razão do aumento da renda ou após cumprirem o período previsto na Regra de Proteção. Isso demonstra que o programa não significa dependência permanente do Estado. Ao contrário, ele oferece proteção social enquanto as famílias buscam melhores condições de vida e maior autonomia econômica.

É evidente que o Bolsa Família pode e deve ser aperfeiçoado. Nenhuma política pública é estática, nenhuma política pública tem cláusula pétrea. Os programas precisam acompanhar as transformações da sociedade e ser permanentemente avaliados e aprimorados.

Em relação ao reajuste, é preciso compreender a dimensão das responsabilidades de um presidente da República. O presidente Lula precisa acompanhar os grandes temas nacionais, definir as prioridades, estabelecer as diretrizes e orientar as políticas de todos os ministérios.

É praticamente impossível exigir que o presidente conheça todos os detalhes administrativos de cada programa do governo. Seria como exigir que ele soubesse, pessoalmente, de cada reajuste do Bolsa Atleta, de cada atualização do Pé-de-Meia, dos subsídios do Minha Casa, Minha Vida ou dos índices de inadimplência do Plano Safra.

Essas são responsabilidades administrativas dos ministérios, que precisam acompanhar a execução dos programas e informar ao presidente as questões que exigem decisões políticas.

Quando o presidente Lula tomou conhecimento de que o Bolsa Família não havia recebido a recomposição inflacionária e verificou que existia dotação orçamentária para realizar o reajuste, tomou a decisão correta.

Não faria sentido deixar de corrigir o valor do benefício simplesmente porque estávamos em um período eleitoral. Isso significaria continuar penalizando milhões de famílias que já haviam perdido poder de compra em razão da inflação acumulada.

Estamos falando de quase R$ 100 a mais por família. Para quem vive em situação de vulnerabilidade, esse dinheiro faz uma enorme diferença. Significa mais comida na mesa, melhores condições de alimentação e maior capacidade de atender às necessidades básicas da família.

Por que essas famílias deveriam continuar sendo penalizadas apenas porque o país estava vivendo uma eleição? O presidente Lula acertou ao determinar a recomposição do benefício. Foi uma decisão necessária e socialmente justa.

Reafirmo que o Bolsa Família precisa continuar sendo aprimorado, inclusive para fortalecer os mecanismos de inclusão produtiva, qualificação profissional e acesso ao mercado de trabalho. Mas ninguém pode negar a importância desse programa para milhões de brasileiros.

O Bolsa Família é uma política de proteção social que também cria condições para a superação da pobreza. Os dados das famílias que deixaram o programa demonstram que ele tem porta de entrada e porta de saída. E a decisão de recompor o poder de compra dos beneficiários foi correta, independentemente do calendário eleitoral.

O presidente Lula, ao vencer a disputa no 2º turno, fez duas menções derrogatórias ao grupo derrotado. Primeiro, disse ter vencido o “representante genuíno do milicianismo” . Depois, fez uma citação bem-humorada, mas também em tom negativo: “O Corinthians está parecendo o Bolsonaro: só perde” . O presidente falou que vai governar para todos os brasileiros. Não usou a palavra pacificação –e ainda provocou os derrotados. O que garante que desta vez haverá um esforço real para pacificar a relação entre os Três Poderes?

Penso que a derrota imposta ao bolsonarismo nessas eleições é uma derrota histórica, com impacto nacional, na América do Sul, na América Latina e também com grande repercussão internacional. Diante de uma vitória tão significativa, é necessário um esforço de pacificação do país. Precisamos disputar uma parcela da sociedade que foi hegemonizada pelo bolsonarismo, pela ultradireita e, inclusive, pelo pensamento fascista.

Há setores da sociedade que foram influenciados por esse pensamento, mas que não possuem identidade ideológica com ele. São setores que precisam ser disputados para que possamos construir uma maioria na sociedade. Não basta formarmos uma maioria institucional no país. Precisamos construir uma maioria social.

O presidente Lula tem essa compreensão e tem sinalizado nesse sentido. Penso que seu 4º mandato será, sim, um mandato comprometido com a pacificação do Brasil e com o diálogo com setores que votaram no bolsonarismo, mas que não possuem identidade ideológica com esse projeto.

Precisamos construir uma maioria na sociedade para restabelecer as relações de convivência democrática, promover a paz e derrotar a intolerância e o ódio.

O presidente Lula foi muito claro em seu pronunciamento após a proclamação da vitória: afirmou que vai governar para todas as brasileiras e todos os brasileiros, tanto para aqueles que votaram nele quanto para aqueles que não votaram.

Uma das propostas recorrentes da oposição é promover a aplicação do PL da Dosimetria, que libertaria muitos dos condenados pelo 8 de Janeiro que ainda estão presos. O PL da Dosimetria foi aprovado pelo Congresso e vetado por Lula. O veto foi derrubado pelo Congresso e a lei entrou em vigor em 8 de maio. No dia seguinte, chegaram ações ao STF e a decisão está com Alexandre de Moraes. O que o PT defende a respeito dessa lei? Acha positivo ou negativo aplicar a lei já aprovada pelo Congresso?

Penso que a prioridade do Brasil, neste momento, não é o debate sobre a dosimetria das penas. A prioridade absoluta deve ser a defesa da democracia, das instituições brasileiras e da legitimidade do nosso processo eleitoral.

Não podemos minimizar a gravidade dos ataques que Flávio Bolsonaro vem fazendo ao resultado das eleições, ao Tribunal Superior Eleitoral e às instituições democráticas do país. Esses ataques são extremamente prejudiciais à democracia brasileira e acabam alimentando, inclusive, declarações do governo Trump que não têm nenhum fundamento.

O processo eleitoral brasileiro foi legítimo e reconhecido internacionalmente. Não há justificativa para colocar em dúvida a vontade soberana do povo brasileiro expressa nas urnas.

Considero extremamente oportunista a postura de Flávio Bolsonaro. Ele não questionou o sistema eleitoral quando seus aliados conquistaram uma parcela expressiva das cadeiras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Também não questionou a legitimidade das eleições quando seus aliados elegeram governadores e governadoras.

Por que, então, questionar a legitimidade do mesmo processo eleitoral quando o resultado da eleição presidencial não lhe foi favorável?

Essa postura é muito ruim para o país, porque estimula a radicalização política e coloca sob ataque instituições fundamentais para o funcionamento da democracia.

Qualquer diálogo sobre a dosimetria das penas, se tiver de acontecer, deve ocorrer em um ambiente de pacificação nacional, quando tivermos superado esses ataques às instituições e à legitimidade do processo eleitoral brasileiro. Não podemos permitir que esse debate se sobreponha à necessidade de defender a democracia.

Para mim, a prioridade absoluta, neste momento da história brasileira, é a defesa das nossas instituições, do resultado legítimo das eleições e da democracia brasileira.

No dia 25 de outubro (o domingo do 2º turno) a PF pediu 7 minutos depois de ser anunciado o resultado da eleição a retenção dos passaportes do senador Flávio Bolsonaro . O ministro Alexandre de Moraes aceitou o pedido. O senador não entregou os documentos e fugiu do país. O presidente Lula já disse que Flávio foi covarde. Mas e o ato da Polícia Federal e a decisão do ministro Moraes? O sr. considera que foi uma medida adequada para ser tomada 7 minutos depois de encerrado o 2º turno?

Eu não conheço os motivos que levaram a Polícia Federal a fazer esse pedido, nem os fundamentos jurídicos que levaram o Supremo Tribunal Federal a deliberar sobre ele. Evidentemente, acredito que devam existir razões muito fortes para que essas medidas tenham sido adotadas.

Mas, analisando exclusivamente do ponto de vista político, e não jurídico, considero que talvez a decisão tenha sido inoportuna naquele momento. Penso que poderia ter sido mais adequado aguardar a consolidação do resultado eleitoral e, posteriormente, caso houvesse necessidade, adotar as medidas cabíveis.

Do ponto de vista político, tomar essa decisão alguns dias ou semanas depois talvez não alterasse sua finalidade, mas poderia contribuir para dar maior legitimidade política ao processo e evitar questionamentos sobre o momento em que ela foi adotada.

Quero deixar muito clara essa distinção: estou fazendo uma avaliação política, não jurídica. Não conheço os elementos que fundamentaram a decisão e, portanto, não tenho condições de questionar sua necessidade do ponto de vista legal.

Talvez o tempo permita compreender melhor por que a medida precisou ser tomada exatamente daquela maneira e naquele momento.

Mas, politicamente, considero que teria sido mais adequado aguardar um período após a eleição, porque isso poderia enfraquecer qualquer tentativa de Flávio Bolsonaro de se apresentar como vítima e utilizar a decisão para alimentar questionamentos sobre o processo eleitoral.

Reafirmo que essa é uma avaliação exclusivamente política, sem qualquer julgamento sobre os fundamentos jurídicos que motivaram a atuação da Polícia Federal e a decisão do Supremo Tribunal Federal.

Há questionamentos no Congresso sobre atuação de ministros do STF. O PT acredita que já há elementos necessários para abrir um processo de impeachment contra um ou mais magistrados do Supremo?

Eu e o Partido dos Trabalhadores defendemos que seja realizada, com urgência, uma profunda reforma do Poder Judiciário brasileiro.

É importante lembrar que, no 8º Congresso do PT, aprovamos como prioridades tanto a reforma política e eleitoral quanto a reforma do Poder Judiciário. Portanto, não se trata de uma posição oportunista ou de uma reação às circunstâncias atuais. É uma posição que foi construída ao longo de 2025 e consolidada democraticamente no Congresso do partido.

Considero que essas duas reformas são urgentes e fundamentais para o fortalecimento da democracia brasileira.

Como o próprio presidente Lula afirmou, o sistema apodreceu. É uma afirmação forte, mas que considero histórica, porque traduz a necessidade de enfrentarmos problemas estruturais que comprometem a confiança da sociedade nas instituições.

O sistema precisa ser reformado para o bem da democracia, para recuperar a confiança da população nas instituições e para fortalecer os mecanismos que garantem o funcionamento do Estado democrático de Direito.

Por isso, defendo que tenhamos coragem política para realizar as mudanças necessárias, tanto no sistema político e eleitoral quanto no Poder Judiciário. Mas precisamos distinguir claramente as iniciativas que fortalecem a democracia daquelas que podem enfraquecê-la.

Na minha avaliação, o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, nas circunstâncias atuais, enfraqueceria a democracia e as próprias instituições. Isso não significa negar a necessidade de mudanças. Ao contrário, precisamos corrigir rumos, enfrentar problemas e promover reformas urgentes para fortalecer a democracia brasileira. O que o PT não fará é aderir a iniciativas oportunistas que, sob o argumento de corrigir problemas, acabem fragilizando as instituições democráticas.

Nossa posição é clara: defendemos reformas profundas e urgentes no Poder Judiciário e no sistema político-eleitoral, mas não faremos coro a medidas que possam enfraquecer a democracia brasileira.

Como deve ser montado o governo do presidente Lula no 4º mandato: com o mesmo tipo de divisão de cargos na Esplanada ou uma outra fórmula será seguida?

Os primeiros diálogos do presidente Lula e a orientação que ele nos transmitiu apontam para a construção da governabilidade a partir de um novo modelo de relação com os partidos políticos.

O presidente Lula, e considero que ele está absolutamente correto, entende que a governabilidade precisa ser construída por meio do fortalecimento dos partidos, e não de acordos fragmentados ou individuais. Isso significa que terão espaço no governo, inclusive com a participação em ministérios, os partidos que estiverem integralmente comprometidos com o 4º mandato do presidente Lula.

Não vamos trabalhar com a lógica de oferecer um ministério para a bancada de determinado partido na Câmara e outro para sua representação no Senado. A relação será construída com os partidos enquanto instituições políticas.

Para participar do governo, o partido deverá assumir integralmente o compromisso de sustentação política do presidente Lula, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal. Essa orientação valerá para os aliados históricos, que estiveram conosco durante a campanha eleitoral, e também para os partidos que venham a integrar a base de governabilidade após as eleições.

O mesmo princípio será aplicado ao Partido dos Trabalhadores. Terão espaço no governo aqueles setores do PT que estiverem integralmente comprometidos com a construção do 4º mandato do presidente Lula e alinhados com as profundas transformações que o próprio partido precisará realizar

Não vamos fortalecer, por meio da composição do governo, setores que não estejam comprometidos com esse processo de renovação e mudança do PT.

Precisamos construir um governo politicamente coeso, com unidade em torno de um projeto estratégico de futuro para o Brasil.

O 4º mandato do presidente Lula será um mandato de legado. Um mandato histórico, no qual teremos a oportunidade de estabelecer os parâmetros para que o Brasil se consolide como uma potência emergente no século 21.

Para alcançar esse objetivo, será indispensável construir unidade política entre as forças que darão sustentação ao governo, com compromissos claros, responsabilidade coletiva e alinhamento em torno de um projeto nacional de desenvolvimento.

Essa será a lógica da construção da base política e da composição do quarto mandato do presidente Lula: fortalecimento dos partidos, compromisso integral com a governabilidade e unidade em torno de um projeto histórico para o futuro do Brasil.

Especialistas dizem que a economia precisará de um forte ajuste para frear os gastos públicos. Qual área na sua opinião deveria ser alvo de cortes de gastos públicos?

Primeiro, é importante recuperar, mais uma vez, que o presidente Lula assumiu o país com um déficit de 2,6% nas contas públicas e está apresentando uma Lei Orçamentária Anual (LOA) com previsão de superavit. Portanto, mais do que o discurso, é a prática que demonstra o compromisso do presidente com o equilíbrio fiscal, com a racionalidade administrativa e com a qualificação do gasto público.

O presidente Lula tem destacado a necessidade de realizarmos uma reforma do Estado brasileiro, para evitar despesas desnecessárias, racionalizar os gastos públicos e, com isso, ampliar a capacidade de investimento do governo. O modelo de país que o presidente Lula pretende construir pressupõe um Estado com capacidade de investimento, inclusive para fomentar a iniciativa privada e sinalizar ao setor produtivo qual é o projeto de desenvolvimento que queremos implementar no próximo período.

Há uma discussão sobre criar o chamado imposto sobre grandes fortunas. O PT é a favor da criação desse novo imposto? Se sim, a partir de qual valor o patrimônio será considerado uma “grande fortuna”? Essa proposta pode ser aprovada ainda em 2026?

Não existe, dentro do Partido dos Trabalhadores, nenhum debate sobre a criação de novos impostos. Essa discussão nunca esteve presente na nossa campanha eleitoral, tampouco foi pautada pelo PT no último período. O que existe de consenso no PT é que precisamos dar continuidade às políticas de reforma da renda e avançar na construção de um sistema tributário mais justo.

É necessário aprofundar a desoneração dos salários, reduzir a carga tributária sobre o empreendedorismo e, principalmente, diminuir o peso dos tributos sobre as micro, pequenas e médias empresas. Ao mesmo tempo, precisamos enfrentar uma questão fundamental: a revisão das desonerações fiscais existentes no Brasil. É urgente avaliar todas as desonerações que hoje são financiadas pelo conjunto da sociedade brasileira. Precisamos saber quais delas efetivamente atendem ao interesse público, quais são estratégicas para o desenvolvimento econômico e quais representam benefícios que não se justificam. Essa revisão precisa ser feita com responsabilidade, mas também com coragem política.

Da mesma forma, precisamos combater os privilégios tributários. O Brasil não pode continuar convivendo com um sistema em que trabalhadores, empreendedores, prestadores de serviços e pequenas e médias empresas pagam tributos, enquanto determinados setores econômicos desfrutam de condições privilegiadas. Não é aceitável que o peso do financiamento do Estado recaia de maneira desigual sobre a sociedade brasileira.

O que defendemos é a continuidade de uma reforma da renda que reduza a carga tributária sobre quem trabalha e produz, enfrente as desonerações injustificadas e elimine privilégios.

Precisamos construir um sistema tributário que seja instrumento de desenvolvimento econômico, de distribuição de renda e de justiça social. Não há como construir um país efetivamente justo sem enfrentar as desigualdades do nosso sistema tributário. A justiça social começa também pela justiça tributária.

A equipe econômica atual estuda passar a cobrar IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre aplicações financeiras hoje isentas de Imposto de Renda como LCI (Letra de Crédito Imobiliário), LCA (Letra de Crédito do Agronegócio), CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários), CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) e debêntures incentivadas. Hoje, esses investimentos têm alíquota zero de IOF. O PT é a favor desse novo imposto?

Como afirmei anteriormente, o que existe de consenso neste momento é a necessidade de enfrentarmos os privilégios existentes no sistema tributário brasileiro e avançarmos na construção de uma tributação mais justa. Temos coragem política para rever as desonerações fiscais, avaliar quais benefícios efetivamente atendem aos interesses da sociedade e combater aqueles que representam privilégios injustificáveis.

Ao mesmo tempo, queremos dar continuidade à desoneração dos salários, à redução da carga tributária sobre os empreendedores e, principalmente, sobre as micro, pequenas e médias empresas. Também precisamos estudar mecanismos de valorização da produção, criando condições para fortalecer o setor produtivo, estimular a atividade econômica e ampliar a capacidade de desenvolvimento do país.

Essas são as diretrizes sobre as quais existe consenso.

Não há, neste momento, um detalhamento de medidas tributárias específicas. Portanto, qualquer afirmação sobre a adoção de um determinado imposto ou sobre mudanças pontuais na tributação é meramente especulativa.

O que está definido é nossa orientação de reduzir a carga tributária sobre o trabalho e a produção, especialmente sobre os pequenos e médios empreendedores, e enfrentar os privilégios que tornam nosso sistema tributário desigual.

Nosso compromisso é construir um sistema tributário efetivamente justo, que valorize quem trabalha, quem produz e quem empreende, e que não continue preservando privilégios de determinados setores da sociedade.

O PT considera positiva a forma como foram proibidas as bets no Brasil, por meio de uma medida provisória? Entidades esportivas, sobretudo times de futebol, argumentam que seria necessário um tempo maior para se adaptarem e conseguirem outros patrocínios. O PT acha válido esse argumento? Outro argumento que vem sendo usado é que as bets legais proscritas abrem espaço para as bets ilegais prosperarem. O PT concorda?

O PT nunca formulou uma posição coletiva sobre as bets. O que existe é uma posição do governo do presidente Lula, com a qual penso que todos nós concordamos, diante da forma como as bets se desenvolveram no Brasil, provocando danos à renda das famílias brasileiras. Isso é inegável.

É evidente, porém, que a proibição das bets pode abrir espaço para que os jogos online se desenvolvam de forma clandestina, na ilegalidade. E o jogo ilegal, como demonstra a própria história do Brasil, pode acabar sendo apropriado pelo crime organizado e utilizado como instrumento de lavagem de dinheiro.

Portanto, esse é um debate que precisamos aprofundar no próximo período, tendo sempre como perspectiva central a defesa e a preservação da renda das famílias brasileiras, mas também considerando os riscos de que a ilegalidade favoreça a atuação do crime organizado e transforme esse mercado em um ambiente propício à lavagem de dinheiro.

Também precisamos considerar a construção de um processo de transição que leve em conta a presença das bets no financiamento do futebol brasileiro. É inegável que essas empresas passaram a ocupar um espaço importante não apenas no patrocínio dos clubes, mas em toda a cadeia econômica e na indústria do futebol. Por isso, penso que devemos buscar um caminho que estabeleça um ambiente de transição, com a preservação de direitos.

Temos, neste momento, uma judicialização dessa questão, que terá seu desenlace. A partir dessa definição, penso que poderá ser aberto um espaço mais amplo de diálogo sobre o tema.

Quero enfatizar que essa é uma posição pessoal, não uma posição do governo ou uma formulação coletiva do PT.

Mas considero fundamental reafirmar que não podemos, em nenhuma hipótese, abrir mão da proteção da renda das famílias brasileiras. Precisamos combater todas as formas de dependência provocadas pelas bets, especialmente nas modalidades de jogos on-line.

A preservação da renda das famílias brasileiras deve estar no centro de qualquer decisão sobre esse tema.

O presidente Lula, entretanto, diante da gravidade da situação das famílias brasileiras, especialmente do endividamento provocado pelas apostas e até de casos de suicídio associados a esse problema, entendeu que era necessário agir imediatamente por meio de uma medida provisória.

E o presidente Lula tem todo o meu apoio nessa decisão. Ele agiu sensibilizado pelo sofrimento de milhares de famílias e pela necessidade de enfrentar um problema social que não poderia continuar sendo ignorado.

O governo Lula criou a taxa das blusinhas sob o argumento de que era necessário equilibrar as condições comerciais entre os fabricantes e varejistas brasileiros e os estrangeiros em relação aos da China. Depois, o presidente Lula disse ter pensado melhor e revogou a taxa das blusinhas. O que o PT pensa disso? Como dar paridade de condições para fabricantes e varejistas brasileiros e os estrangeiros, sobretudo os da China?

Também é importante esclarecer que essa é uma posição pessoal. Não existe uma posição coletiva formulada pelo Partido dos Trabalhadores sobre essa questão. A posição do governo do presidente Lula é clara e tem a minha concordância.

Precisamos preservar o direito dos setores populares de realizar compras online. Esse direito deve ser garantido e regulamentado. O que pondero é que, por trás da regulamentação e da não tributação das pequenas compras online, principalmente de roupas, outros interesses econômicos acabaram se beneficiando desse modelo, provocando danos significativos ao varejo brasileiro de maneira geral.

Penso que é necessário construir uma mediação que considere também a realidade dos comerciantes brasileiros, especialmente dos pequenos comerciantes dos bairros e das periferias, que são diretamente impactados por essa concorrência.

E quero reafirmar que só existe uma maneira de encontrarmos uma posição equilibrada: por meio do diálogo. Precisamos avaliar os impactos da regulamentação vigente, ouvir os diferentes setores envolvidos e, a partir dessa análise, construir uma solução que contemple os diversos interesses.

O desafio é garantir o direito do consumidor, especialmente dos setores populares, de realizar suas compras online, mas, ao mesmo tempo, preservar o pequeno e o médio comércio e considerar os impactos dessa política sobre o conjunto do varejo brasileiro.

É esse equilíbrio que precisamos buscar, por meio do diálogo e de uma avaliação responsável dos efeitos da regulamentação atual.

A emenda constitucional do fim da escala 6 X 1 foi aprovada e já está em vigor. Agora, em menos de 2 meses as empresas terão de reduzir a jornada de trabalho de 44 horas para 42 horas. Depois, em mais 12 meses, será necessário reduzir a jornada para 40 horas semanais. Muitos países deram um período de transição mais elástico . A França deu 3,5 anos. O PT acertou ao defender uma transição tão rápida para o fim da 6 X 1?

O Partido dos Trabalhadores acertou ao defender o fim da jornada de trabalho 6 X 1. Essa é uma posição coerente com a nossa história de defesa dos direitos dos trabalhadores brasileiros. Agora, se as regras de transição não contemplam adequadamente todos os setores da economia, penso que o diálogo nunca esteve fechado, nunca foi interditado.

O que não podemos é abrir mão da redução da jornada de trabalho, garantindo aos trabalhadores brasileiros direitos fundamentais, como mais tempo para a convivência familiar, para cuidar da saúde, para a educação, para o lazer e, inclusive, para a própria qualificação profissional.

Penso que essa é uma defesa da qual não podemos abrir mão.

Ao mesmo tempo, é necessário olhar para as particularidades de cada setor da economia brasileira e dialogar sobre as regras de transição, considerando suas diferentes realidades.

Esse diálogo nunca foi interditado e deve continuar aberto. O fundamental é preservar o compromisso com a redução da jornada de trabalho e com a ampliação dos direitos dos trabalhadores.

Reportagem completa: https://www.poder360.com.br/poder-partidos-politicos/edinho-silva-defende-transicao-para-saida-das-bets-do-futebol/

— Itatiba1 (https://www.itatiba1.com.br). Notícias agregadas e traduzidas; os direitos pertencem aos veículos de origem.