Embora não disponha de dados relacionados a essa transformação particular dos modos do público, a Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex) avalia que o interesse da Geração Z (nascidos de 1997 a 2012) pelo circuito é um destaque no recorte recente.

“A mudança está menos na conduta dentro da sala e mais nos hábitos de consumo”, avalia o diretor-executivo da Abraplex, Tiago Mafra.

É uma análise compartilhada pelo gerente de marketing da Cinépolis Brasil, Luiz Fernando Angi. “É uma geração que nasceu com o celular nas mãos, faz parte do corpo delas”, aponta.

Uma busca por “celular no cinema” na rede social X (antigo Twitter) resulta em dezenas de reclamações do público sobre o uso de smartphones nas salas. “Vou parecer boomer, mas gostava da época em que as pessoas tinham muita cautela em não estragar a experiência de desconhecidos no cinema”, escreve uma usuária em referência ao choque geracional e à geração Baby Boomer, dos nascidos entre 1946 e 1964.

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Apesar da ironia, a observação da usuária tem respaldo. Um levantamento divulgado em 2026 pela pela plataforma de venda de ingressos Fandango com 7 mil adultos nos Estados Unidos mostra que 87% dos integrantes da Geração Z foram ao cinema ao menos uma vez nos 12 meses anteriores, acima dos 82% dos Millennials, 70% da Geração X e 58% dos Baby Boomers.

“Criada em um ambiente intensamente conectado, essa geração aponta, segundo o próprio estudo, a dimensão social como principal motivo para ir ao cinema”, afirma Mafra. “Busca justamente o que a tela do celular não oferece, como imersão, convivência e experiência compartilhada, e por isso se tornou um dos públicos mais estratégicos para o setor exibidor.”

Reclamações sobre o uso dos celulares durante as sessões, em muitos casos, são acompanhadas também de queixas pelas conversas em voz alta durante a exibição dos filmes.

Apesar dos relatos, Angi conta que o nível de reclamações formalizadas à rede Cinépolis pelos clientes não mudou drasticamente nos últimos anos. “Não é algo perene. Acontece com alguns tipos de conteúdo, por exemplo quando há música e gera maior interação”, afirma Angi.

Um exemplo é “Michael”, a cinebiografia de Michael Jackson que atraiu o dobro do público projetado às salas da Cinépolis em 2026. O filme se tornou um fenômeno em sessões embaladas por cantoria e dança à trilha do Rei do Pop enquanto levava nada menos que 7,6 milhões de pessoas aos cinemas brasileiros, terceira maior bilheteria do ano.

Eventos nas salas de cinema

Como a pandemia atingiu em cheio o setor exibidor brasileiro, os cinemas precisaram diversificar as receitas na sua lenta retomada a partir de 2020. Salas que antes eram ocupadas apenas por longa-metragens passaram a receber mais sessões de exibições de shows de bandas de K-pop a especiais para fãs de animações japonesas.

São eventos marcados por um público fiel vestido a caráter manifestando sua empolgação com o que assistem em pé, em alto e bom som. Como quem vai já espera essa experiência, essas sessões não se tornam um problema para ninguém, conta Angi.

De toda forma, o senso de comunidade nesse tipo de sessão é observado, em outra medida, também nos filmes tradicionais. “Essa nova geração que chega para assistir os conteúdos mais tradicionais às vezes tem uma forma diferente de estarem no cinema”, afirma o gerente de marketing.

“As pessoas gostam de pertencer, de ir ao cinema com uma certa comunidade, para assistir um certo conteúdo que viralizou. Acontece muito com filmes inspirados em livros, por exemplo. Às vezes as comunidades têm essa interação, comentam o filme como se estivessem na sala de casa”, aponta.

Iniciativas de educação

Para contornar o transtorno que o novo comportamento nas salas pode causar a outros consumidores, redes têm investido mais nos chamados filmes pré-show , aqueles com orientações sobre saídas de emergência e uso de celulares que antecedem os filmes.

Frutos de briefings enviados pelas exibidoras a agências de publicidade, essas peças institucionais podem custar até R$ 100 mil e estão cada dia mais sofisticadas, avalia Angi. A ideia é atrair e educar o público em relação aos comportamentos relacionados, por exemplo, ao uso de smartphones.

“Esses conteúdos são mais assertivos”, diz Angi, uma vez que são exibidos quando a atenção do expectador já foi capturada. Ele afirma que também há conteúdos nos espaços físicos e digitais dos cinemas a serem explorados.

Uma das estratégias para frear o uso de celulares em salas é montar espaços que geram ocasiões de fotos no hall, como a caixa em tamanho humano da boneca Barbie disposta em diversos cinemas durante as exibições do filme inspirado no brinquedo em 2023. “A pessoa quer mostrar que faz parte daquilo. Ela precisa registrar, tirar uma foto.”

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