# Coordenador do programa de Lula defende proposta de Lara Resende para reduzir juros

- Seção: Economia
- Fonte: InfoMoney (https://www.infomoney.com.br/politica/coordenador-do-programa-de-lula-defende-proposta-de-lara-resende-para-reduzir-juros/)
- Publicado em: 2026-11-03T12:02:58.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1490608-coordenador-do-programa-de-lula-defende-proposta-de-lara-resende-para-reduzir

> O debate sobre os rumos da economia no quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganhou uma nova divergência dentro do campo governista. José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo da campanha à reeleição, defendeu…

A manifestação foi publicada na segunda-feira (2), em um artigo sobre as contas públicas para 2027, e ocorre em meio à pressão do mercado financeiro por medidas de controle de gastos após a reeleição de Lula.

A posição de Gabrielli contrasta com a adotada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que descartou publicamente a possibilidade de o governo estabelecer limites administrativos para as taxas de juros.

No documento, o ex-presidente da Petrobras argumenta que o principal desafio fiscal brasileiro está no custo de financiamento da dívida pública. Para ele, concentrar o ajuste no aumento do superávit primário pode comprometer o crescimento econômico sem produzir a redução esperada dos juros.

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O comentário foi feito após notícias de possível encontro de Lula com André Lara Resende

Proposta prevê Selic de 7,5% em um ano

A iniciativa de André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, prevê a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, com atribuições mais amplas do que as exercidas atualmente pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

O novo órgão teria a função de estabelecer objetivos coordenados para as políticas fiscal e monetária em um horizonte de quatro a cinco anos.

Entre as medidas defendidas por Lara Resende está a redução gradual da Selic, atualmente em 13,75% ao ano, para 7,5% em um período de 12 meses. Posteriormente, a taxa seria estabilizada em uma faixa de 3% a 5,5%.

A proposta exigiria alterações na estrutura atual de condução da política monetária, na qual o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, define a taxa básica de juros.

Gabrielli considera que a iniciativa merece atenção por buscar uma coordenação mais estreita entre o controle das contas públicas e a política de juros.

Durigan, porém, afirmou que o tabelamento não está em discussão no governo. O ministro também negou a existência de uma reunião marcada entre Lula e Lara Resende para tratar da proposta.

O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, igualmente afastou a possibilidade de adoção imediata do plano.

Juros de R$ 1,2 trilhão entram no centro do debate

Para sustentar sua posição, Gabrielli compara o peso dos juros com o resultado primário das contas públicas. Segundo os dados apresentados no artigo, o setor público acumulou aproximadamente R$ 1,2 trilhão em despesas com juros nos 12 meses encerrados em agosto, o equivalente a 8,9% do Produto Interno Bruto (PIB).

No mesmo período, o déficit primário do Governo Central correspondeu a 0,62% do PIB.

Na avaliação do economista, a diferença ajuda a explicar por que uma política baseada principalmente no corte de despesas teria efeitos limitados sobre a trajetória da dívida, caso os juros permaneçam elevados.

Gabrielli reconhece, entretanto, que o resultado primário influencia expectativas, câmbio e percepção de risco. Seu argumento é que o governo precisa considerar esses efeitos juntamente com o impacto direto da taxa de juros sobre o endividamento.

A dívida bruta brasileira chegou a 82,9% do PIB em setembro. O economista afirma que o indicador exige atenção, mas destaca que a dívida líquida está em 69,3% do PIB e que a maior parte dos compromissos brasileiros é denominada em reais.

A avaliação diverge da apresentada por economistas do mercado, que alertam para o risco de uma redução dos juros sem sustentação nas expectativas de inflação e na trajetória fiscal. Entre os efeitos apontados estão a desvalorização cambial e o aumento dos prêmios exigidos pelos investidores.

Ajuste fiscal sem cortes sociais

No artigo, intitulado Política fiscal para o fim de 2026 e para 2027, Gabrielli também apresenta alternativas para melhorar o resultado das contas públicas preservando compromissos sociais assumidos por Lula.

Uma das prioridades seria revisar benefícios tributários considerados ineficientes. A estimativa de renúncias fiscais para 2027 é de R$ 434,3 bilhões, embora o economista ressalte que esse valor não corresponde a uma arrecadação imediatamente recuperável.

O plano também prevê reforçar a cobrança de dívidas de grandes contribuintes, revisar contratos administrativos próximos do vencimento e ampliar a fiscalização sobre a destinação das emendas parlamentares.

Na Previdência, Gabrielli propõe discutir novas fontes de financiamento, especialmente diante das mudanças no mercado de trabalho. Ele rejeita a adoção de uma nova idade mínima como instrumento de ajuste fiscal.

O documento também defende preservar os reajustes reais do salário mínimo, o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e os pisos constitucionais de saúde e educação.

A proposta orçamentária de 2027 prevê superávit primário de 0,5% do PIB, equivalente a R$ 73,2 bilhões, e limite de despesas de aproximadamente R$ 2,6 trilhões.

Gabrielli alerta que parte das receitas esperadas ainda depende de medidas legislativas, como a regulamentação do Imposto Seletivo, cuja arrecadação estimada é de cerca de R$ 42 bilhões.

Divergência ocorre após reação negativa do mercado

A discussão ganhou força depois da turbulência financeira registrada na semana seguinte à reeleição de Lula. No primeiro pregão após o segundo turno, o Ibovespa caiu 13,88%, enquanto o dólar avançou mais de 8%. O Tesouro Nacional realizou operações extraordinárias de recompra de títulos para reduzir as pressões no mercado de dívida pública.

Gabrielli atribui parte dessa reação à expectativa de investidores que apostavam em uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Também critica a pressão por um ajuste fiscal concentrado na contenção de despesas.

Na visão do economista, as decisões para 2027 devem considerar a possibilidade de desaceleração da atividade econômica. Ele defende que o governo preserve investimentos públicos e adote medidas de economia administrativa com efeitos comprováveis.

A proposta de Lara Resende, entretanto, ampliou as divergências entre integrantes do próprio PT. Enquanto a ministra Gleisi Hoffmann defendeu a abertura da discussão, o presidente do partido, Edinho Silva, afirmou que Durigan é o responsável por apresentar as posições oficiais sobre política econômica.

Debate coloca autonomia do Banco Central em discussão

A principal implicação da proposta de Lara Resende está na forma como o Brasil define a taxa básica de juros.

Atualmente, o Banco Central possui autonomia operacional para conduzir a política monetária e perseguir a meta de inflação estabelecida pelo CMN. A criação de um novo conselho com metas conjuntas exigiria definir como essas atribuições seriam distribuídas e quais decisões permaneceriam sob responsabilidade da autoridade monetária.

Para Gabrielli, uma coordenação maior permitiria reduzir conflitos entre a necessidade de financiar o Estado e o custo dos juros. Críticos da proposta alertam que metas administrativas para a Selic poderiam comprometer a credibilidade do combate à inflação.

A discussão ocorre antes da definição da equipe econômica do próximo mandato, quando Lula terá de conciliar as promessas de campanha com as metas fiscais já estabelecidas para 2027.

Embora tenha participado da elaboração do programa eleitoral, Gabrielli não fala oficialmente pelo Ministério da Fazenda. Sua manifestação amplia o debate entre aliados do presidente, mas a proposta de criação do conselho ainda não foi incorporada à política econômica do governo.

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