A imagem de um cacto costuma remeter a paisagens áridas, com pouca chuva e vegetação esparsa. Mas, em Alcatrazes, no litoral de São Paulo, essas plantas também fazem parte da biodiversidade de uma região coberta pela Mata Atlântica.

Atualmente, são quatro as espécies de cactáceas com ocorrência confirmada em Alcatrazes: Coleocephalocereus fluminensis, Mandacaru-de-fruto-amarelo (Cereus hildmannianus), Pereskia aculeata e Rhipsalis grandiflora.

Entre elas estão plantas de formatos e hábitos diferentes. Algumas espécies, como os cactos de formato colunar, estão adaptadas a ambientes rochosos e mais expostos. Já a Pereskia aculeata, conhecida como ora-pro-nóbis e também cultivada para o consumo de suas folhas, é nativa da Mata Atlântica, bastante comum e mais associada a ambientes florestais e úmidos.

A presença de cactáceas no arquipélago tem relação tanto com as características do ambiente quanto com a história geológica e climática da região. Apesar de inseridos no domínio da floresta, os afloramentos rochosos oferecem condições semelhantes às encontradas em ambientes mais secos, favorecendo a ocorrência dessas plantas.

“Embora a Mata Atlântica tenha essa matriz florestal, ela é um mosaico de ambientes”, explica a bióloga Thayná Mello, do ICMBio Alcatrazes.

Presença de cactos em Alcatrazes revela a história geológica e climática do arquipélago, que passou de montanha costeira a ilha isolada

Segundo a pesquisadora, os afloramentos rochosos são áreas em que a rocha fica exposta, principalmente em terrenos íngremes, onde o solo não consegue se estabelecer. Nessas condições, a disponibilidade de água e nutrientes é menor, enquanto a incidência solar e a exposição aos ventos são elevadas. Nas áreas próximas ao mar, a vegetação também está sujeita à salinidade trazida pela brisa marítima.

“São ambientes que, no final das contas, apesar de estarem inseridos na Mata Atlântica, são áreas bastante áridas também”, destaca Thayná.

É nesse cenário que se desenvolve a vegetação rupestre, formada por plantas adaptadas a essas condições, como bromélias, orquídeas, samambaias e cactáceas.

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Quando Alcatrazes ainda estava conectada ao continente

Além das características ambientais, a presença dos cactos no arquipélago também pode ser explicada pelas transformações ocorridas ao longo de milhares de anos.

Durante o último período glacial, o clima do planeta era mais frio e parte significativa da água dos oceanos estava retida nas geleiras. Com isso, o nível do mar ficou muito abaixo do atual, expondo áreas hoje submersas e permitindo a conexão de Alcatrazes com o continente.

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Segundo Thayná, o último período glacial atingiu seu auge há cerca de 26 mil anos e terminou há aproximadamente 11 mil anos. Nesse intervalo, além das temperaturas mais baixas, o clima também era mais seco.

Foi um período em que o clima do planeta ficou mais frio do que é hoje e boa parte da água do mar ficou concentrada na forma de gelo. Isso fez com que o nível do mar ficasse entre 100 e 150 metros mais baixo do que ele é hoje. E, nessa época, Alcatrazes não era uma ilha. Alcatrazes estava conectado ao continente

A pesquisadora aponta que a vegetação que ocupava a região naquele período provavelmente apresentava características mais próximas às das restingas, adaptadas à menor disponibilidade de água e à salinidade, do que à floresta úmida de encosta encontrada atualmente.

Atualmente, são quatro as espécies de cactáceas com ocorrência confirmada em Alcatrazes: Coleocephalocereus fluminensis, Cereus hildmannianus, Pereskia aculeata e Rhipsalis grandiflora

“Esse período de conexão é o período em que muito provavelmente todas as plantas que a gente tem lá hoje chegaram”, afirma.

Com o fim da glaciação e a elevação gradual do nível do mar, Alcatrazes voltou a ficar isolada do continente, separada por cerca de 45 quilômetros de mar. As plantas que já ocupavam a região permaneceram na ilha.

Isolamento e biodiversidade ainda pouco conhecida

O isolamento geográfico pode ter influenciado a trajetória evolutiva das plantas que permaneceram em Alcatrazes. Com a redução do fluxo gênico entre populações, ao longo das gerações, podem surgir diferenças genéticas que, em determinadas condições, contribuem para o aparecimento de novas espécies.

“Fatores evolutivos, por conta da redução do fluxo gênico e do isolamento geográfico, podem ter levado ao surgimento de novas espécies lá em Alcatrazes”, explica Thayná.

Esse processo, porém, ainda precisa ser investigado. Segundo a bióloga, a flora do arquipélago é pouco estudada, e ainda não se sabe ao certo se algumas das plantas identificadas na região correspondem às mesmas espécies encontradas no continente ou se apresentam diferenças genéticas importantes.

Para ajudar a esclarecer essas questões, um projeto aprovado em edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), em conjunto com o ICMBio, vai investigar a história genética de três espécies de cactáceas encontradas em Alcatrazes: Rhipsalis grandiflora, Coleocephalocereus fluminensis e Cereus hildmannianus.

O estudo pretende analisar como os períodos de conexão com o continente, a colonização e o posterior isolamento da ilha, associados às oscilações do nível do mar, influenciaram a diversidade genética atual dessas plantas.

A pesquisa poderá contribuir para compreender melhor a trajetória evolutiva dessas espécies e o papel do isolamento geográfico na biodiversidade do arquipélago.

Outro aspecto que chama a atenção é que os próprios afloramentos rochosos funcionam como ambientes isolados dentro da floresta. Assim, uma planta pode enfrentar diferentes níveis de isolamento, tanto por estar em uma ilha quanto por ocupar uma área rochosa cercada pela vegetação florestal.

“Quando você tem um afloramento rochoso em uma ilha, é como se ele fosse uma ilha na ilha. Então é um isolamento duplo”, comenta a pesquisadora.

Esse cenário amplia as possibilidades de investigação sobre a diversidade de Alcatrazes, onde ainda há muito a descobrir sobre a origem e a evolução das espécies.

Cactáceas e suas relações com a fauna

As cactáceas também podem ter um papel importante na manutenção da fauna local, embora as interações entre essas plantas e os animais de Alcatrazes ainda não tenham sido estudadas em profundidade.

No continente, algumas espécies de flores noturnas são polinizadas principalmente por mariposas, enquanto cactos com flores diurnas podem receber visitas de abelhas nativas.

É o caso de espécies como o Rhipsalis, conhecido popularmente como cacto-macarrão, que pode crescer sobre árvores ou diretamente no chão, entre as rochas.

“Pode ser que eles sejam um recurso bastante importante para ajudar a sustentar essas populações de abelhas em Alcatrazes”, diz Thayná, ao destacar que ainda não há estudos locais que confirmem essas interações.

A dispersão das sementes também é uma questão em aberto. No continente, aves, lagartos, formigas e morcegos podem atuar nesse processo, mas ainda não se sabe quais animais desempenham esse papel no arquipélago.

A equipe do ICMBio já identificou a presença de morcegos em uma pequena caverna de Alcatrazes, mas ainda não existem estudos que confirmem se esses animais utilizam os cactos como recurso ou participam da polinização.

“Os cactos e os morcegos estão perto um dos outros, mas se eles interagem ou não, ainda é um mistério”, conclui a bióloga.

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