Orações diárias, cultos em pleno Pentágono, um escritório da fé dentro da Casa Branca, candidatos e influenciadores defendendo valores cristãos conservadores. E um presidente proclamando que seu país virou uma "nação de Deus".
Desde o início de seu mandato, o governo de Donald Trump vem se aproximando de organizações, símbolos, práticas e personalidades religiosas e levando o cristianismo para dentro da Casa Branca. A fé também virou peça-chave na campanha para as eleições de meio de mandato nos EUA — as chamadas midterms, que renovarão parte do Congresso norte-americano nesta terça-feira (3).
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ELEIÇÕES NOS EUA: Acompanhe as últimas notícias sobre as midterms
Para tentar manter o controle do Congresso — e contrariar as pesquisas, que apontam vitória democrata —, o Partido Republicano sabe que depende do eleitorado cristão. Pesquisas de aprovação e intenção de voto nos EUA apontaram que cristãos evangélicos brancos — principalmente os protestantes, segundo o instituto Pew Research — são o eleitorado mais fiel de um presidente em baixa história de popularidade.
Entre todos os outros grupos, inclusive outros evangélicos e católicos, há mais eleitores que desaprovam que aprovam Trump.
👉 Ao voltar à Presidência dos EUA, em 2025, Trump afirmou que seu governo iria "trazer a religião de volta ao nosso país". Desde então, a Casa Branca vem investindo em um "projeto de nação cristã", incorporando práticas religiosas dentro do próprio governo, afirma o antropólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Rodrigo Toniol, que pesquisa religião e política.
Entre elas essas práticas, estão:
A abertura do Escritório da Fé e de Assuntos Religiosos, que funciona dentro da Ala Oeste da Casa Branca e se dedica a apoiar organizações religiosas e garantir que elas tenham acesso a licitações públicas;
A realização de cultos mensais no Pentágono, normalmente liderados pelo secretário de Guerra, Pete Hegseth, com sermão e leitura da Bíblia;
Rezas esporádicas dentro da Casa Branca, a sede do governo dos EUA;
Apoio ao America Prays, canal no YouTube em que pastores conduzem rezas on-line diariamente.
Dentro do governo, dois nomes lideram o movimento: o vice-presidente, JD Vance, e o secretário de Guerra, Pete Hegseth.
👉 Hegseth, que costuma adotar a retórica religiosa ao falar guerra contra o Irã, tem comandando cultos no Pentágono. Também enxugou a lista de religiões oficialmente reconhecidas pelos EUA. Segundo um memorando do Departamento de Guerra que o site de notícias Military teve acesso, de 211 crenças reconhecidas pelos EUA, a relação passou para apenas 31, 22 delas religiões cristãs.
👉 Já a linha de JD Vance se dedica a mobilizar e organizar influenciadores e movimentos fora da Casa Branca que associem o governo Trump à fé cristã e divulguem estilos de vida associados a um cristianismo mais conservador e "antimoderno" -- caso da onda contrária ao voto feminino --, que Washington vem tentando resgatar, na avaliação de Rodrigo Toniol.
"A religião sempre esteve presente na política norte-americana. Mas Trump quer um cristianismo muito específico, um tipo de cristianismo antimoderno", disse o antropólogo ao g1. "Isso permite a Trump deter o controle narrativo sobre o próprio cristianismo".
O objetivo do presidente norte-americano, para Toniol, é usar a fé cristã -- cuja adesão tem crescido entre republicanos, segundo o Instituto de Pesquisa de Religiões Públicas dos EUA (PRRI, na sigla em inglês) -- para tentar unir o país em torno de seu governo.
"Nesse momento de guerra e tensões, o cristianismo é trazido à tona como grande elemento de união da nação", afirmou. "Trump reivindica para si o nacionalismo cristão e se coloca como o guia de um projeto cristão maior".
Durante a corrida para as midterms, o presidente norte-americano reforçou a retórica. Na campanha, Trump afirmou que, "se trouxermos a religião de volta com mais força, vocês verão tudo melhorar cada vez mais. Vamos nos rededicar a uma nação sob Deus".
Fé nas urnas
O presidente dos EUA, Donald Trump, diante de telão exibindo comício de Abdul El-Sayed, candidato a senador pelo estado do Michigan, em 25 de outubro de 2026.
Julia Demaree Nikhinson/ AP
Segundo a CEO do Instituto de Pesquisa de Religiões Públicas dos EUA, Melissa Deckman, as "midterms" são o pleito mais propenso a que o Partido Republicano ganhe votos a partir do projeto de cristianismo que o governo Trump propaga.
“Há uma forte relação entre a disseminação da ideologia nacionalista cristã e a representação republicana nas legislaturas estaduais, indicando quais estados estão propensos a aprovar políticas defendidas por importantes líderes nacionalistas cristãos”, disse.
A atenção do governo à questão religiosa na corrida para as midterms foi tanta que fez as campanhas de dois dos candidatos mais populares entre os democratas -- partido com menos eleitores propensos a votar de acordo com a fé -- girarem em torno do tema.
James Talarico discursa em im comício em junho de 2026, no Texas, nos EUA.
(Brenda Bazán/ AP)
No Texas, James Talarico, ex-seminarista presbiteriano e candidato democrata ao Senado, tem usado o cristianismo para criticar o governo Trump e defender a taxação dos mais ricos, apostando em uma visão do cristianismo oposta à do governo Trump.
"O presidente dos Estados Unidos diz que eu insulto Jesus. Sabe o que é um insulto para Jesus? Cortar o seguro de saúde de pessoas doentes enquanto se baixa os impostos para bilionários. Deportar um estrangeiro e separar bebês de suas mães. Bombardear crianças inocentes no Irã e enviar nossos homens e mulheres para morrer em outra guerra sem fim", disse Talarico durante comício no Texas.
Já no Michigan, o candidato ao Senado Abdul El-Sayed, muçulmano, foi alvo de questionamentos e ataques por parte de republicanos por conta de sua fé.
Nas urnas, eleitores também já expressavam a tendência. Em Iowa, a pecuarista Elizabeth Marlett, de 61 anos, se disse "inquieta" com o que chamou de uma guinada da sociedade em direção à esquerda e o enfraquecimento da fé cristã.
“Os valores familiares estão sendo deixados de lado, e é preciso resgatá-los”, disse a eleitora republicana ao votar à agência de notícias norte-americana Associated Press. “A religião foi pisoteada".
O pastor evangéligo Erik Estep faz sermão durante serviço religioso na Village Church, na Carolina do Sul, nos EUA, em 14 de outubro de 2026.
Sam Wolfe/ Reuters

