As mortes de um instrutor e um turista durante um voo de asa-delta na região de São Conrado, na Zona Sul do Rio, na segunda-feira (2), expõem dificuldades na fiscalização da atividade no Rio. Desde o início de 2026, cinco pessoas morreram em ocorrências na região.

A Polícia Civil investiga os acidentes, enquanto o Ministério Público Federal (MPF) cobra esclarecimentos de órgãos públicos e do clube responsável pelos voos.

Dados do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ) mostram que a corporação foi acionada 16 vezes para atender ocorrências envolvendo praticantes de voo livre no município entre 1º de janeiro e 2 de novembro deste ano. No mesmo período de 2025, foram 20 registros. Em 2024, foram 15.

Considerando os 16 atendimentos de 2026, a média é de uma ocorrência a cada 19 dias. O levantamento reúne casos com asa-delta e parapente, sem separar as modalidades.

Acidente com asa-delta deixa 2 mortos no Rio

O caso mais recente terminou com a morte do instrutor Luiz Eduardo Rodrigues dos Santos, de 45 anos, e do turista argentino Adrian Guillermo Arismendi, de 26, depois que a asa-delta em que estavam caiu durante a aproximação para o pouso na Praia de São Conrado.

Vídeos obtidos pelo g1 mostram as imagens da colisão do equipamento na rampa que liga a areia ao calçadão onde fica a pista de pouso. As imagens foram entregues à polícia, que investiga as causas do acidente.

Nesta terça-feira (3), peritos da Polícia Civil estiveram no Clube São Conrado de Voo Livre para analisar a asa-delta envolvida no acidente. Segundo o presidente do clube, Bruno Menescal, o equipamento era novo e havia realizado apenas três voos.

Bombeiros foram acionados e utilizaram um helicóptero para fazer o resgate. As vítimas foram levadas em estado grave para o Hospital Municipal Miguel Couto, mas não resistiram aos ferimentos.

Vídeo mostra acidente da asa-delta no Rio

Luiz Eduardo tinha cerca de dez anos de experiência no voo livre e atuava como instrutor havia aproximadamente um ano. Segundo o presidente do clube, ele era cadastrado na Confederação Brasileira de Voo Livre (CBVL) e na associação, além de ter o nível máximo de avaliação da entidade.

O enterro do instrutor está previsto para esta quarta-feira (4), às 12h30, no Cemitério São João Batista. O corpo do turista argentino permanecia no Instituto Médico-Legal (IML).

Cinco pessoas morreram em 2026

Além das duas mortes desta segunda-feira, outros três acidentes fatais foram registrados na região neste ano.

Em agosto, o coronel do Exército Álvaro Roberto Cruz Ferreira Lima morreu depois de cair de parapente no mar de São Conrado. Na época, o Clube São Conrado de Voo Livre afirmou que uma linha com cerol teria atingido o equipamento e provocado a queda.

Em fevereiro, o instrutor de voo livre Rodolfo Pascoal Ladeira e a turista Jenny Colôn Rodríguez também morreram depois de caírem no mar da Praia de São Conrado.

Rodolfo Pascoal Ladeira e Jenny Cólon Rodriguez

A região ainda registrou acidentes sem mortes. Na quinta-feira (29), duas mulheres ficaram feridas em uma ocorrência com parapente durante a aproximação para o pouso, no mesmo trecho da orla onde aconteceu o acidente desta segunda-feira.

No dia 24 de outubro, uma asa-delta caiu abaixo da rampa de decolagem da Pedra Bonita. Um homem ficou ferido, sem gravidade.

As causas dos acidentes fatais são investigadas pela Polícia Civil. O Ministério Público Federal também acompanha os episódios. O procurador Daniel Prazeres cobrou informações da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Clube São Conrado de Voo Livre.

Volume de voos ajuda a explicar ocorrências

O presidente do Clube São Conrado de Voo Livre, Bruno Menescal, afirma que o número de acidentes precisa ser analisado considerando a quantidade de voos realizados na região. Segundo ele, foram cerca de 60 mil voos no ano passado.

Ao comentar a sequência de ocorrências, o dirigente afirmou que os acidentes também levaram o clube a rever procedimentos.

“Eu acho que o ser humano, simplesmente a atividade e o ser humano (número de acidentes). E isso que nos vamos rever. Não tem explicação. Com todo rigor que a gente tem, não tem explicação. Isso causou uma comoção”, disse Bruno.

Após o acidente de segunda-feira, o clube suspendeu as atividades por tempo indeterminado.

Vídeo mostra queda de asa-delta

ANAC proíbe passeios comerciais

A regulamentação federal estabelece uma diferença entre passeios panorâmicos vendidos a turistas e voos realizados com finalidade de instrução.

Pelas regras da ANAC para atividades enquadradas no Regulamento Brasileiro da Aviação Civil (RBAC) nº 103, a comercialização de voos de aerodesporto é proibida, com exceção dos voos de instrução.

A agência permite que o instrutor receba pagamento para ensinar novos praticantes, mas ressalta que a atividade de instrução não é objeto de regulamentação técnica da própria ANAC e ocorre por conta e risco dos envolvidos.

O Guia Prático do Aerodesportista, publicado pela agência, também informa que a instrução remunerada exige a contratação de seguro aeronáutico.

Na prática, o Clube São Conrado de Voo Livre chama de voo de instrução a experiência oferecida a pessoas que nunca praticaram o esporte. O presidente da associação descreve a atividade como um primeiro contato com a modalidade.

“É o voo de batismo. É a iniciação. É o primeiro contato que a pessoa tem pra saber se ela quer virar um piloto. É uma primeira aula que nos realizamos aqui. Alguns se tornam piloto a partir dali”, explicou o presidente do clube.

O dirigente reconheceu que a distinção entre passeio e instrução é uma questão que precisa ser revista.

O valor cobrado por uma experiência de voo duplo pode ultrapassar R$ 1 mil.

Quem fiscaliza os voos de asa-delta?

As atividades enquadradas no RBAC 103 têm regras operacionais, mas não seguem o mesmo modelo de certificação e habilitação aplicado à aviação convencional. Para esse tipo de operação, a ANAC não exige certificado de aeronavegabilidade do equipamento nem uma licença de piloto emitida pela agência.

O praticante, no entanto, precisa ter cadastro ativo como aerodesportista e comprovar conhecimento das regras operacionais e de uso do espaço aéreo.

O guia da ANAC prevê fiscalização conjunta da agência, do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) e das secretarias estaduais de Segurança Pública, por meio das forças policiais.

A confederação e os clubes também estabelecem critérios técnicos para a prática e para a realização de voos duplos. No caso da CBVL, há exigências específicas de experiência e homologação para pilotos que transportam passageiros.

Quando ocorre um acidente, a investigação das circunstâncias e das possíveis responsabilidades criminais cabe à Polícia Civil. A atuação do Ministério Público Federal nos casos também busca esclarecer as condições em que os voos são realizados e o papel dos órgãos responsáveis.

Para o presidente do Clube São Conrado de Voo Livre, uma das soluções seria regulamentar de forma mais específica os voos comerciais de instrução.

“Você tem nivelamento da Confederação Brasileira de Voo Livre, sendo que o próprio clube pode instituir regras. Nós temos regras a mais, uma cobrança muito maior do que existe da confederação. A gente gostaria muito que isso fosse revisto em nível Brasil pra instituir a atividade como uma atividade legal”, comentou Bruno.