Vídeos de agentes armados entrando em áreas de mata, destruindo dragas e incendiando aeronaves utilizadas no garimpo ilegal têm chamado a atenção nas redes sociais. As imagens surpreendem parte do público, que nem sempre conhece o trabalho operacional do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Sustentáveis (Ibama).

No Amazonas, esse tipo de atuação faz parte das operações de combate a crimes ambientais realizados em regiões como o Vale do Javari e o Rio Madeira, muitas vezes em parceria com a Polícia Federal, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e outras instituições.

Uma das ações mais recentes no estado foi a Operação Aurum, em uma região próxima ao vilarejo Santa Rita do Weill, em Tabatinga. No dia 30 de outubro, equipes da PF, do Ibama e da Funai apreenderam ou destruíram oito dragas, sete embarcações conhecidas como motor-balsa, e uma embarcação do tipo rabeta, todas utilizadas no garimpo ilegal.

Operações deste tipo acontecem de forma regular no Amazonas. Segundo o superintendente do Ibama no estado, Joel Araújo, aproximadamente 4 mil dragas já foram destruídas no estado desde 2023.

Ibama vai além da fiscalização

O superintendente explica, ainda, que a atuação do instituto nessas operações vai muito além da fiscalização ambiental à que é comumente associada. Agentes do Ibama também participam diretamente do enfrentamento a grupos envolvidos em atividades criminosas, com equipamentos de proteção e armamentos letais e não letais.

"É um Ibama que se equipa, que se prepara, que usa armamento, que usa armamento letal e não letal, que usa colete à prova de bala, capacetes, helicópteros, lanchas rápidas, tem o apoio ali da Polícia Federal, da Força Nacional e outras agências de segurança pública", afirmou.

Segundo o superintendente, a maior visibilidade recente das operações nas redes sociais tem ajudado a mostrar uma dimensão do trabalho do órgão que muitas pessoas de outras regiões do país desconheciam.

"Muitas vezes o Ibama fica associado a algumas atividades que são mais brandas, tipo o licenciamento ambiental, ou o resgate, tratamento e soltura da fauna silvestre, manejo em vida livre da fauna. Isso dá um certo entendimento sobre o que é o Ibama. E agora as pessoas estão descobrindo outro Ibama, que faz o enfrentamento direto a criminosos", disse.

Agentes do Ibama participam de operações contra o garimpo ilegal no Amazonas.

Destruição de equipamentos do garimpo

No Amazonas, o combate ao garimpo ilegal exige deslocamentos por rios e áreas isoladas, onde o transporte de equipamentos apreendidos traz riscos para os agentes envolvidos. Nesses casos, a destruição desses equipamentos é uma medida excepcional, prevista no Artigo 111 do Decreto Federal nº 6.514/2008.

🔎 O decreto permite que produtos e equipamentos utilizados em infrações ambientais sejam destruídos quando o transporte e a guarda forem inviáveis diante das circunstâncias ou quando houver riscos ao meio ambiente ou às pessoas no local.

Ainda segundo Joel Araújo, a destruição costuma ser adotada em situações mais graves, principalmente em áreas protegidas, como terras indígenas e unidades de conservação. Ele explica que retirar milhares de equipamentos de regiões remotas exigiria uma estrutura de transporte e armazenamento de grande porte, além de expor as equipes a riscos durante os deslocamentos.

"Para você ter uma ideia, no Amazonas nós já contabilizamos desde 2023 aproximadamente 4 mil dragas destruídas. Então imagina se não houvesse essa medida cautelar da destruição. A logística seria inviável. Retirar essas dragas dos locais mais longínquos seria muito difícil e muito arriscado também. A equipe pode sofrer emboscadas no caminho", disse.

Uma dúvida que ganhou espaço nas redes sociais é sobre a destruição dos equipamentos em vez de apreendê-los e destiná-los a outro uso. O chefe da assessoria de comunicação do Ibama, Tiago Costa, explicou que além da dificuldade de transporte e armazenamento, os próprios equipamentos utilizados no garimpo oferecem condições inseguras de uso devido a adaptações feitas de forma precária.

"Essa questão da segurança é especialmente relevante para aeronaves, que são adaptadas para transporte de equipamentos e produtos do garimpo, comprometendo completamente a segurança dos passageiros", explicou Tiago Costa.

Danos ambientais pelo uso do fogo

Outro questionamento levantado nas redes sociais envolve a poluição provocada pela queima de maquinários e embarcações.

Joel Araújo afirma que o órgão considera os impactos ambientais da destruição, mas avalia que eles são menores do que os danos provocados pela continuidade da exploração ilegal.

"Então a gente avalia e compara a poluição causada por uma destruição de uma draga, que é ali momentânea, com a poluição causada por uma draga que fica atuando constantemente. Com certeza os danos dela atuar constantemente são muito maiores do que os danos ambientais dela sendo destruída", explicou.

O mesmo decreto que prevê a destruição dos produtos e equipamentos com o uso do fogo também determina que a inutilização seja documentada, com registros das condições dos bens antes e depois da ação, e avaliação técnica dos equipamentos destruídos.

Operações contra o garimpo ilegal no Amazonas

Nos últimos anos, operações conjuntas com a participação do Ibama atingiram estruturas utilizadas na exploração clandestina de ouro em diferentes regiões do Amazonas.

Entre os dias 21 e 25 setembro de 2026, a Operação Hidra Dourada, realizada entre os municípios de Autazes e Novo Aripuanã, no Rio Madeira, incluiu a destruição de 22 dragas e cinco embarcações de apoio. A ação foi conduzida pela Polícia Federal e pelo Ibama.

Em março de 2025, a Operação Xapiri, na região de Borba, também no Rio Madeira, resultou na destruição de 23 dragas e embarcações. Nesta operação, foram identificados 25 trabalhadores em situação análoga à escravidão, incluindo dois menores de idade.

Já no Vale do Javari, a Operação Nidaid Isquim, iniciada em abril de 2025, buscou combater o garimpo ilegal no Rio Jandiatuba e proteger territórios indígenas. O balanço inicial divulgado pela Funai registrou a inutilização de 16 dragas e maquinários.

Além da destruição de equipamentos, as operações também interrompem qualquer tipo de atividade criminosa que provoque alterações nos leitos e nas margens dos rios, supressão de vegetação e contaminação da água por mercúrio. Esses impactos são especialmente perigosos para comunidades indígenas e ribeirinhas que dependem dos rios para alimentação e sobrevivência.

Para Joel Araújo, o interesse da população nas ações de enfrentamento ao garimpo ilegal que acontecem no Amazonas e em toda a região amazônica fortalece o trabalho do órgão:

"Se a sociedade apoia, então isso nos encoraja muito mais e também nos dá muito mais responsabilidade, no sentido de que é preciso compreender e continuar fazendo o trabalho certinho", disse.

Agentes do Ibama atuam em conjunto com outros órgãos em suas operações de combate ao garimpo ilegal no Amazonas.

Dragas do garimpo são destruídas para evitar seu uso posterior para crimes ambientais.

Áreas de garimpo muitas vezes estão localizadas em áreas de difícil acesso.