Tem início nesta quarta-feira (4) o sexto júri da Chacina do Curió, nome pelo qual ficou conhecida a sequência de 11 mortes que ocorreu em 2015, em Fortaleza. No novo julgamento, sentam no banco de réus os policiais militares José Oliveira do Nascimento e José Wagner Silva de Souza, que já haviam sido julgados e condenados em 2023, mas tiveram as sentenças anuladas em agosto deste ano. (Veja a linha do tempo dos julgamentos abaixo)

José Oliveira e José Wagner foram julgados inicialmente no terceiro júri do caso, ocorrido em setembro de 2023. À época, José Oliveira foi condenado a 210 anos de prisão por envolvimento nos homicídios, nas tentativas de homicídios e tortura. Já José Wagner foi condenado a 13 anos pelo crime de tortura.

As defesas dos dois apelaram da condenação e conseguiram, em agosto de 2025, a anulação de parte das condenações dos dois réus. A decisão judicial determinou a realização de um novo júri, que tem início nesta quarta, às 9h, no Fórum Clóvis Beviláqua. O julgamento será conduzido pela 1ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza.

A Chacina do Curió ocorreu entre a noite do dia 11 de novembro e a madrugada do dia 12 de novembro de 2015, na comunidade do Curió, na região da Grande Messejana, área na periferia de Fortaleza. As vítimas foram assassinadas por policiais militares. A maioria tinha de 16 a 18 anos, sem passagens pela polícia.

Mães cobram condenação no caso da chacina do Curió

Segundo o Ministério Público do Ceará (MPCE), os crimes foram motivados por vingança pela morte do soldado Valtemberg Chaves Serpa, assassinado horas antes ao proteger a mulher em uma tentativa de assalto, no bairro Lagoa Redonda, também na região da Grande Messejana.

O júri que será realizado envolvendo José Oliveira e José Wagner diz respeito a integrantes do que o MPCE descreveu como “Núcleo da Tortura”, um grupo de policiais que atuava em três viaturas na noite do crime e cometeu crimes de tortura.

Condenações e absolvição

Devido ao tamanho do inquérito e ao número de réus, julgamentos da Chacina do Curió foram divididos em vários processos

Devido ao tamanho do inquérito e ao número de investigados, a Chacina do Curió foi dividida em vários processos. Inicialmente, 45 policiais militares foram denunciados por envolvimento no episódio. Dos 45 acusados, a Justiça acatou a denúncia contra 44.

No decorrer do processo, outros 10 policiais foram impronunciados - isto é, não foram levados a júri por falta de evidências. Dos 34 restantes, um morreu e três tiveram o caso transferido para a Vara Militar, restando 30 réus que foram enviados para júri.

Desses 30 levados a júri, 29 já foram julgados ao longo dos cinco júris realizados entre 2023 e 2025, e um teve o julgamento adiado por questões mentais. Dos 29 julgados, 21 foram absolvidos e 8 foram condenados.

Dos 8 policiais militares que haviam sido condenados por algum tipo de envolvimento na chacina, dois eram José Oliveira e José Wagner, que depois tiveram as sentenças anuladas. Portanto, atualmente, há 6 pessoas condenadas pelo crime. Com o novo julgamento dos dois, o número pode mudar.

Veja a linha tempo dos julgamentos:

📍Primeiro julgamento, de 21 a 25 de junho de 2023: quatro condenados

No primeiro júri, foram julgados quatro policiais militares acusados de participar do núcleo que executou os assassinatos e tentativas de assassinato. Os quatro foram condenados a 275 anos e 11 meses de prisão em regime fechado. Além disso, eles foram condenados à perda do cargo de policial militar.

Marcus Vinícius Sousa da Costa: condenado a 275 anos e 11 meses de prisão por homicídios, tentativas de homicídio e tortura

Antônio José de Abreu Vidal Filho: condenado a 275 anos e 11 meses de prisão por homicídios, tentativas de homicídio e tortura

Wellington Veras Chaga: condenado a 275 anos e 11 meses de prisão por homicídios, tentativas de homicídio e tortura

Ideraldo Amâncio: condenado a 275 anos e 11 meses de prisão por homicídios, tentativas de homicídio e tortura

📍Segundo julgamento, de 29 de agosto a 6 de setembro de 2023: oito inocentados

No segundo júri, foram julgados oito policiais militares apontados como parte do ‘Núcleo da Omissão’ durante a chacina porque "estavam de serviço na região onde os crimes ocorreram, tinham o dever legal e podiam agir para evitar a chacina, mas nada fizeram".

Todos os oito foram inocentados. São eles:

Francinildo José da Silva Nascimento: absolvido

Gaudioso Menezes de Mattos Brito Goes: absolvido

Gerson Vitoriano Carvalho: absolvido

José Haroldo Uchoa Gomes: absolvido

Josiel Silveira Gomes: absolvido

Ronaldo da Silva Lima: absolvido

Thiago Aurélio de Souza Augusto: absolvido

Thiago Veríssimo Andrade Batista de Moraes: absolvido

O Ministério Público recorreu da sentença.

📍Terceiro julgamento, de 12 a 16 de setembro de 2023: dois condenados

No terceiro júri, foram julgados oito policiais militares, entre acusados de participar de algum modo da chacina e acusados de se omitir, isto é, de não agir para impedir o crime. Dois policiais foram condenados, cinco foram absolvidos e um teve o caso enviado para a Vara Militar.

Foram justamente os dois condenados neste julgamento que tiveram as penas anuladas em 2026 e vão a julgamento novamente agora em novembro.

Um sexto réu foi inocentado parcialmente no júri, mas uma das suas acusações foi encaminhada para a Vara de Auditoria Militar, que julga crimes militares, portanto ele ainda responde a um processo do caso.

José Oliveira do Nascimento: condenado a 210 anos de prisão por homicídios, tentativas de homicídio e tortura, mas teve a sentença anulada e vai a julgamento novamente

José Wagner Silva de Souza: condenado a 13 anos e 5 meses por tortura, mas teve a sentença anulada e vai a julgamento novamente

Antônio Carlos Matos Marçal: foi inocentado no júri, mas teve uma acusação encaminhada para a Vara de Auditoria Militar para um outro julgamento

Antônio Flauber de Melo Brazil: absolvido

Clênio Silva da Costa: absolvido

Francisco Helder de Sousa Filho: absolvido

Igor Bethoven Sousa de Oliveira: absolvido

Maria Bárbara Moreira: absolvida

📍Quarto julgamento, de 25 a 31 de agosto de 2025: sete absolvidos

No quarto júri, foram julgados sete policiais militares que, de acordo com denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE), também fizeram parte do ‘Núcleo da Omissão’ durante a chacina porque "estavam de serviço na região onde os crimes ocorreram, tinham o dever legal e podiam agir para evitar a chacina, mas nada fizeram".

O julgamento terminou com a absolvição dos sete. São eles:

Daniel Fernandes da Silva: absolvido

Gildásio Alves da Silva: absolvido

Luis Fernando de Freitas Barroso: absolvido

Farlley Diogo de Oliveira: absolvido

Renne Diego Marques: absolvido

Francisco Flávio de Sousa: absolvido

Francisco Fabrício Albuquerque de Sousa: absolvido

O Ministério Público recorreu da sentença.

📍Quinto julgamento, de 22 a 25 de setembro de 2025: dois condenados

No quinto júri, foram julgados dois policiais militares acusados de integrar o núcleo de agentes que participaram diretamente das execuções das vítimas. Ambos foram condenados à prisão e perda do cargo de policial. São eles:

Luciano Breno Freitas Martiniano: condenado a 275 anos e 11 meses de prisão por homicídios, tentativa de homicídios e tortura:

Marcílio Costa de Andrade: condenado a 315 anos, 11 meses e 10 dias de prisão por homicídios, tentativa de homicídios e tortura:

Além dos dois policiais julgados, um terceiro também estava no banco de réus, Eliézio Ferreira Maia Júnior, porém o julgamento dele foi suspenso com base em um exame de sanidade mental apresentado pela defesa dele.

📍Sexto julgamento: começa 4 de novembro de 2026

No sexto júri, serão julgados novamente José Oliveira do Nascimento e José Wagner Silva de Souza, que já haviam sido julgados e condenados no terceiro júri em 2023, mas tiveram as sentenças anuladas em agosto de 2026. O júri está marcado para 9h da manhã de 4 de novembro, em Fortaleza.

Policiais acusados da Chacina do Curió são ouvidos no terceiro dia de julgamento.