Na madrugada de 11 de outubro de 2024, quando ouviu os gritos de “perdeu” seguidos de tiros, pegou a bolsa e correu descalça para a mata. Caiu numa grota seca, machucou o joelho e quebrou dois dedos do pé. Enquanto um helicóptero baixava sobre a vegetação, escondia-se entre as moitas. Não acendeu o celular: temia que a luz denunciasse onde estava.

“Eu pensava: matou todo mundo”, relembra. Dois anos depois, o som de aeronave ainda provoca crises de ansiedade.

Rosa é um nome fictício. Os demais sobreviventes da operação policial Fortis Status, na fazenda Mutamba, também serão identificados por nomes trocados. A ação terminou com dois sem-terra mortos, quatro trabalhadores presos e perguntas ainda sem respostas sobre o que de fato aconteceu naquela madrugada.

A Repórter Brasil analisou milhares de páginas de documentos oficiais e foi a campo para ouvir, com exclusividade, trabalhadores sem-terra e policiais civis com conhecimento sobre aquela madrugada de outubro.

A apuração revela fragilidades na versão de que teria havido confronto entre policiais e sem-terra, reconstrói as lacunas de um inquérito que não chegou a um consenso sobre a trajetória dos tiros fatais, e mostra como um dos comandantes da operação ascendeu na Polícia Civil enquanto recebia apoio público de dirigentes ruralistas, numa das regiões mais violentas do país em conflitos por terra.

Pela primeira vez, sobreviventes apresentam a um veículo de imprensa suas versões sobre a operação. Um deles afirma ter visto policiais “arrumando” os corpos. Outro declara que espingardas teriam sido disparadas pelos próprios policiais e, em seguida, posicionadas junto aos mortos para simular um confronto.

Rosa diz que, desde a operação, o som de helicópteros e a visão de viaturas lhe provocam crises de ansiedade (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Desde o dia da operação Fortis Status, a Polícia Civil do Pará conta uma história diferente. Sustenta que os agentes avançaram uniformizados, anunciaram a presença da polícia e foram recebidos a tiros por homens armados que corriam pelo terreno. Cinco policiais admitiram ter disparado. Nenhum deles ficou ferido.

Até hoje, o inquérito não determinou de quais armas partiram os tiros que mataram os sem-terra Adão Rodrigues de Sousa, de 53 anos, e Edson Pereira da Silva, de 43.

Ao longo de mais de um mês, entre setembro e outubro, a Repórter Brasil procurou as assessorias de imprensa da Polícia Civil, do Governo do Estado, além de proprietários rurais e políticos citados nesta reportagem, para que se posicionassem sobre o conteúdo desta investigação. Os contatos foram feitos por e-mail, ligações, mensagens de Whatsapp e de redes sociais. No entanto, não houve resposta.

(Arte: Rodrigo Bento/Repórter Brasil)

O delegado que chama a farda de “armadura” e se considera soldado

Antonio Mororó Júnior foi um dos comandantes da Operação Fortis Status. Na época, ele chefiava a Deca, unidade especializada em conflitos agrários no sul do Pará, e coordenava a Core Carajás, braço regional de operações especiais da Polícia Civil. Hoje, Mororó é superintendente regional da corporação em Marabá.

Na véspera da ação de 11 de outubro de 2024, ao pedir a prisão preventiva de duas lideranças da ocupação na Fazenda Mutamba, ele encerrou a representação enviada à Justiça com uma pergunta: “O que faltou para a região ser palco de mais um derramamento de sangue?”

Mororó cultiva uma imagem na qual o delegado e o soldado quase nunca se separam. De cabelos grisalhos e barba branca cerrada, costuma aparecer cercado por fuzis e integrantes de grupos táticos, usando coturno e uniforme verde-oliva. Ele chama o traje de “armadura”.

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Para vesti-la, disse em entrevista a um podcast , não basta comprá-la numa loja. É preciso “entregar a carcaça ao jogo”. Com a farda, lembra um G.I. Joe amazônico, o soldado de brinquedo e desenho animado transplantado para o calor da maior floresta do mundo. “Eu me considero um soldado. Ainda sou um soldado”, disse na mesma entrevista.

Nascido em Cruz das Almas, na Bahia, Mororó entrou aos 18 anos no Corpo de Fuzileiros Navais. Serviu depois por cerca de oito anos no Batalhão de Choque da Polícia Militar baiana, formou-se em Direito e advogou para sindicatos de policiais e petroleiros.

Em 2018, ingressou na Polícia Civil paraense. Sua primeira lotação foi justamente na Deca de Redenção, no sul do estado. Quatro anos mais tarde, assumiria a unidade de Marabá, a mais importante da região.

Ali encontrou uma realidade marcada pela violência no campo. Nessa porção da Amazônia, Eldorado do Carajás e Pau D’Arco não são nomes apenas de municípios, mas também de alguns dos mais célebres e sangrentos massacres do meio rural brasileiro.

Dos 1.003 assassinatos em conflitos por terra registrados no Pará entre 1980 e 2024, 73,18% ocorreram precisamente no sul e no sudeste do estado, segundo dados da CPT (Comissão Pastoral da Terra). Ligada à Igreja Católica, a entidade documenta conflitos e acompanha comunidades desde 1975.

Em entrevista a um podcast, Mororó mostrou imagens de treinamentos táticos: tiro de precisão e instrução na água

Entre 2022 e 2025, houve sete episódios de assassinatos nos municípios do entorno de Marabá, com doze trabalhadores rurais mortos, segundo levantamento enviado pela CPT à Repórter Brasil .

A entidade afirma que nem um dos casos foi investigado pela Deca. O período começa no ano em que Mororó assumiu a unidade, mas se estende para além de sua gestão. A CPT afirma ainda que o sigilo dos inquéritos dificulta o acompanhamento dos casos por familiares e organizações de direitos humanos.

Sobreviventes relatam tiros antes das 6h; perícia aponta cena “inidônea”

A Fortis Status não era formalmente uma reintegração de posse. Nasceu de uma investigação aberta a partir de boletins de ocorrência que atribuíam a ocupantes da Fazenda Mutamba ameaças contra funcionários, furto de gado, incêndios, extração ilegal de madeira, venda de lotes e vigilância armada.

A Justiça havia expedido três mandados de prisão preventiva e autorizado buscas contra doze suspeitos, em dezenove endereços. Apenas dois pontos de busca ficavam dentro da Mutamba.

Adão, Edson e os quatro homens presos naquela manhã não eram alvos nominais dos mandados de prisão. A ordem judicial autorizava as buscas entre 6h da manhã e 6h da tarde. Os relatos dos sobreviventes, no entanto, situam os primeiros tiros entre 3h30 e 4h30. O boletim de ocorrência e o laudo do local registram o início da operação “por volta das 6h”.

Agentes e viaturas da Polícia Civil durante a Operação Fortis Status, na Fazenda Mutamba, em 11 de outubro de 2024 (Foto: Divulgação/Polícia Civil Pará)

Sete entidades paraenses de direitos humanos questionaram o planejamento da ação. Em documento enviado ao governo federal e ao Ministério Público Federal em 2024, argumentaram que vinte policiais, cinco viaturas e dois helicópteros permitiriam cercar o acampamento e prender os trabalhadores sem a necessidade de qualquer disparo.

“A operação, nessa perspectiva, foi uma farsa”, diz um trecho da nota, ao apontar que nenhum dos quatro presos ou dos dois mortos tinha prisão decretada.

Naquela mesma noite, ao examinar os quatro detidos, o IML (Instituto Médico Legal) anotou que dois deles disseram ter sido agredidos perto das 3h e um terceiro, às 5h30. São horários anteriores ao início da operação registrado pela polícia.

Responsável pela análise técnica do cenário das mortes, a Polícia Científica recebeu o chamado às 7h40. O exame começou às 8h46, cerca de cinco horas depois dos tiros relatados pelos sobreviventes, e quase três horas após o horário registrado pela polícia. Quando o perito chegou, equipes da Core e da Deca já ocupavam o local. Policiais circulavam durante o exame.

Antes de descrever os ferimentos dos cadáveres, o perito resumiu a cena como “inidônea”. No vocabulário pericial, isso significa que a cena pode ter sofrido alterações antes do registro técnico. No inquérito, os policiais presentes na operação afirmaram ter preservado o lugar e deixado intactas todas as evidências.

Naquela paisagem, o corpo de Edson Pereira da Silva escondia uma contradição que dois exames oficiais não resolveriam: o perito do local e o legista da necropsia descreveriam trajetórias opostas para o único tiro que o matou.

Depois das mortes, o delegado Mororó afirmou ter “vários minutos de vídeo” de sem-terra encapuzados e ostensivamente armados patrulhando a ocupação, em resposta a uma matéria da Repórter Brasil de outubro de 2024.

As gravações, no entanto, não aparecem no inquérito sobre os dois homicídios e tampouco foram enviadas à redação. Não se sabe quando os registros teriam sido feitos, nem se mostram a aproximação dos agentes e os tiros. Meses mais tarde, a Polícia Civil informou ao Ministério Público que a operação não havia sido registrada por câmeras corporais nem por qualquer outro equipamento de videomonitoramento.

Sobrevivente da ação policial, Domingos estava na chamada Casa Amarela, outra construção da Fazenda Mutamba. Segundo ele, os policiais teriam mandado as mulheres se sentarem e obrigado os homens a permanecerem de bruços.

Confundido com uma liderança procurada, ele diz ter passado cerca de duas horas no chão enquanto agentes pisavam em seu corpo para fazê-lo confirmar uma identidade que não era a sua. Também relata que sua cabeça teria sido mergulhada num tambor de água.

Outro sobrevivente, Jonas conta ter sido perseguido por um helicóptero e diz que os tiros teriam continuado mesmo após trabalhadores erguerem as mãos em sinal de rendição. Capturado, teria sido arrastado, levado socos nos ouvidos e chutes nas costas. Atribui à operação as dificuldades auditivas que carrega desde então.

Os exames de corpo de delito registraram lesões em três dos quatro presos. Um tinha hematomas alongados nas costelas e abaixo da escápula; outro, quatro marcas em faixa nas costas; um terceiro, ferimentos espalhados pelas regiões dorsal e lombar.

Os peritos atribuíram as marcas à ação de objetos rígidos e alongados, sem lâmina ou ponta, que produzem ferimento pelo impacto. Um laudo concluiu não haver elementos suficientes para afirmar ou negar tortura, embora registrasse sinais de agressão.

Diante de um juiz pela primeira vez, dois membros da ocupação voltaram a relatar agressões. Era a audiência de custódia, em que o juiz verifica se houve maus tratos, e se a prisão foi legal e deve continuar. Um disse ter sido levado para perto dos cadáveres.

Outro afirmou que um policial teria encostado uma faca em seu pescoço para obrigá-lo a revelar o paradeiro de uma liderança. O juiz enviou cópias à Corregedoria da Polícia Civil e à Promotoria de Controle da Atividade Policial.

A Polícia Civil do Pará não enviou resposta às 16 perguntas da Repórter Brasil . O questionário foi encaminhado em 8 de setembro, com pedido de envio a Mororó, aos demais delegados e policiais citados, além da Corregedoria.

Desde então, a reportagem fez sucessivas tentativas de obter as respostas por e-mail, telefone e WhatsApp. Também procurou integrantes da assessoria de imprensa da corporação e acionou a Segup (Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social), a Secom (Secretaria de Estado de Comunicação), a Ouvidoria da Polícia Civil e o Gabinete do Delegado-Geral.

A Ouvidoria informou que a demanda passaria por análise jurídica. Em 28 de setembro, o Gabinete do Delegado-Geral acusou recebimento e informou o número de um protocolo . Até a publicação, a Polícia Civil não havia enviado um posicionamento.

Sobrevivente de Pau D’Arco foi assassinado; Mororó investigou o caso

A Fortis Status não foi a primeira vez em que uma operação de desfecho sangrento do campo paraense foi registrada sob a tese de confronto entre sem-terra e policiais.

Uma ação das polícias Civil e Militar na Fazenda Santa Lúcia, no município de Pau D’Arco, em 2017, terminou com dez trabalhadores rurais mortos. A primeira versão falava justamente em confronto.

Entretanto, perícias realizadas pela Polícia Federal, depoimentos de sobreviventes e colaboração de agentes envolvidos na ação levaram o Ministério Público a acusar policiais por homicídio e tortura.

Mororó não estava em Pau D’Arco e ainda nem havia entrado na Polícia Civil paraense. Seu nome se conectaria ao massacre quatro anos mais tarde, quando o assassinato de uma testemunha chegou à delegacia que ele comandava.

Fernando dos Santos Araújo sobreviveu à ação na Fazenda Santa Lúcia escondido sob o corpo do namorado e ajudou a convencer outros sobreviventes a falar. De volta à Fazenda Santa Lúcia, relatou à Repórter Brasil ameaças atribuídas a policiais acusados pela chacina. Em 26 de janeiro de 2021, avisou que deixaria a área na manhã seguinte. Naquela noite, enquanto recolhia as galinhas para a mudança, foi assassinado com um tiro na nuca.

Fernando dos Santos Araújo na Fazenda Santa Lúcia. Sobrevivente e testemunha central da chacina de Pau D’Arco, ele foi assassinado em janeiro de 2021 (Foto: Lunaé Parracho/Repórter Brasil)

Cerca de uma semana depois, o inquérito chegou às mãos de Mororó. A polícia prendeu um suspeito e trabalhou com a hipótese de roubo, contestada pela família e pela CPT porque, segundo ambos, nada havia sido levado. O delegado concluiu a investigação sem relacionar o homicídio às ameaças e ao massacre a que Fernando havia sobrevivido.

Os policiais citados por Fernando não chegaram a ser ouvidos, e o vídeo em que ele relatava as intimidações não apareceu no relatório final. Mororó disse à época que fez “diversas diligências” e que nenhuma prova indicava a participação de policiais, embora tampouco pudesse afirmar que as ameaças não existiram.

O homem preso pela morte de Fernando foi condenado a catorze anos em 2024. A sentença respondeu à pergunta sobre quem foi o responsável pelo tiro, mas não apontou os mandantes nem as possíveis motivações. Essas perguntas ainda estão sendo investigadas em procedimento aberto pelo Ministério Público.

Da festa à tropa especial: os encontros de Mororó com ruralistas

Antes de ascender na hierarquia da Polícia Civil do interior do Pará, Mororó já dividia a fotografia com quem cobrava uma polícia mais ostensiva no campo.

Entre dirigentes ruralistas que aparecem ao lado de Mororó estão Maurício Pompeia Fraga Filho, o Mauricinho, presidente da Acripará (Associação de Criadores do Pará) e Antônio Vieira Caetano, o Neném do Manelão, então vice-presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Marabá.

Mauricinho era um dos administradores de uma fazenda de seu pai, que figurou na chamada “Lista Suja” do trabalho escravo em 2021 em razão de autuação por fiscais do Ministério do Trabalho por reduzir trinta pessoas — entre eles um adolescente de 16 anos — a condições análogas às de escravo em uma propriedade no Sudeste do Pará. Procurados, ambos não se manifestaram até o fechamento desta reportagem.

Neném, por sua vez, chamou de “inversão de valores” a prisão de pecuaristas acusados de integrar milícias para expulsar ocupantes de fazendas, quando ainda ocupava a cadeira de presidente do Sindicato dos fazendeiros, em 2019.

Depois da eleição de 2022, o MPF (Ministério Público Federal) incluiu o nome de Neném num pedido de medidas cautelares relacionadas ao bloqueio da BR-155, quando manifestantes defenderam um golpe de Estado após a derrota do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Entre outras providências, o MPF queria que ele fosse proibido de usar as redes sociais para divulgar notícias falsas e desacreditar o sistema eleitoral. Um juiz federal negou todos os pedidos, considerou as provas “extremamente rarefeitas” e não viu indícios mínimos de autoria e materialidade. Em fevereiro de 2024, o inquérito foi arquivado.

Mororó e Neném também apareceram juntos na Faepa (Federação da Agricultura e Pecuária do Pará), em Belém. Na ocasião, o delegado figurava entre quinze policiais homenageados por ações de segurança no campo. Ao discursar, Neném aproveitou a presença de integrantes do governo para pedir duas caminhonetes novas para a Deca de Marabá, comandada pelo delegado.

Procurados, Neném do Manelão e Mauricinho não se manifestaram.

Em março de 2024, o governo do Pará anunciou a criação de uma unidade de operações especiais em Marabá. Mororó, ainda à frente da Deca, assumiu a coordenação da Core Carajás. Era a primeira base regional da tropa de operações especiais da Polícia Civil no interior do Pará.

A portaria justificou a instalação pela necessidade de “levar ao interior ações táticas e ampliar a capacidade de resposta” da corporação.

O então deputado estadual paraense Aveilton Souza (PSD) apresentou uma motivação mais específica. Num vídeo publicado em suas redes sociais, disse que a tropa atendia a uma demanda levada “prioritariamente” pelo setor produtivo rural, por intermédio da Acripará e de sindicatos de produtores. Também agradeceu a Mororó pela parceria.

Advogado, Aveilton chefiou de 2020 a 2022 a Superintendência Regional do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) no Sul e Sudeste do Pará. Foi nomeado no governo Jair Bolsonaro e, na avaliação de movimentos sociais do campo, teria encampado uma política de desmonte da reforma agrária perpetrada durante o governo do ex-capitão do Exército.

Em março de 2024, o anúncio da criação da Core Carajás, divisão especial da Polícia Civil do Pará, contou com políticos e dirigentes ruralistas em Marabá (Foto: Divulgação/ Prefeitura de Marabá)

400 famílias e o espólio de um ex-deputado disputam a Fazenda Mutamba

Localizada a cerca de 25 quilômetros da área urbana de Marabá, a Fazenda Mutamba é disputada por trabalhadores rurais sem-terra e pelo espólio de Aziz Mutran Neto, membro de uma tradicional família ruralista e ex-deputado estadual falecido em 2012.

Dez anos antes, uma fiscalização do Ministério do Trabalho concluiu que 25 pessoas estavam instaladas em alojamentos precários e eram submetidas a dívidas ilegais impostas por empreiteiros de mão de obra, configurando condições análogas às de escravidão. Aziz chegou a ser incluído na Lista Suja do governo federal em novembro de 2003, mas o Ministério do Trabalho excluiu seu nome do cadastro em dezembro de 2005.

Há anos os sem-terra reivindicam a destinação do imóvel à reforma agrária. A Defensoria Pública do estado já havia se manifestado dizendo que parte da área poderia se sobrepor a terras públicas e que, por essa razão, solicitava a realização de uma perícia fundiária.

Atualmente, cerca de 400 famílias vivem na Mutamba, divididas entre as associações Terra Prometida, Balão e Da Mata. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) se aproximou da Terra Prometida há cerca de três anos. Depois da Fortis Status, o movimento passou a acompanhar as denúncias de violações e a situação das famílias. Elas vivem nos lotes, plantam, vendem parte da produção nas feiras de Marabá e mantêm duas escolas no território.

A pedido de Maria de Nazaré Mutran, a Vara Agrária de Marabá determinou o despejo das famílias da Mutamba para 8 de setembro de 2026. A ordem proibia a participação de seguranças privados ou homens armados contratados pelos proprietários. Ainda segundo a decisão, os moradores poderiam retirar pertences, benfeitorias e animais, e as casas só poderiam ser destruídas depois de concluída a operação.

Seis dias depois da ordem de despejo, no entanto, o Incra avançou na proposta de destinar a área à reforma agrária. Uma resolução do Conselho Diretor da autarquia autorizou o presidente do instituto a encaminhar ao governo federal a proposta de desapropriação por interesse social do Complexo Mutamba.

Poliane Soares, integrante da coordenação do MST, diz que os proprietários se recusam a vender a área. Por isso, o MST cobra a desapropriação, em vez da compra negociada pelo Incra.

À reportagem, o Incra confirmou ter optado pela desapropriação após a negativa da venda pelos donos da área. Leia aqui a íntegra da resposta.O órgão não informou, porém, prazo para a conclusão do processo nem detalhou se vai tomar medidas antes da nova data de reintegração de posse da fazenda.

Em 2 de setembro, a Vara Agrária de Marabá comunicou que o início da retirada das famílias da Mutamba havia sido adiado para 17 de novembro.

Três dias depois, o MST denunciou novos ataques ao acampamento: homens armados e pessoas descritas como agentes descaracterizados teriam provocado incêndios no pasto, bloqueado acessos, invadido barracos, interrogado e roubado moradores.

Delegado pediu para ouvir Mororó e foi removido dois dias depois

Em 8 de outubro de 2024, três dias antes da operação Fortis Status, um gerente da fazenda Mutamba declarou à polícia que ele estava acompanhando investigadores numa viatura descaracterizada quando homens armados teriam atirado contra eles. Segundo o gerente, os policiais estavam fora do carro, preparando um drone para reconhecer a área, e disseram ter revidado antes de recuar.

Mororó citou o episódio no pedido de prisão de lideranças sem-terra da ocupação, protocolado em 10 de outubro. Era no fim desse documento que ele perguntava o que faltaria para a região ser palco de “mais um derramamento de sangue”.

O delegado dividiu o comando geral da Fortis Status com seu colega Vannir Wagner Fernandes. Em campo, o grupo da Core estava sob a chefia do delegado Luiz Nogueira.

Quatro dias depois das mortes, o deputado Aveilton Souza saiu em defesa da ação. Publicou um vídeo no qual atribuiu aos ocupantes crimes ambientais, agressões, danos a cercas e ataques à polícia, e chamou Mororó de “grande amigo”. Procurado, o parlamentar não reeleito nas últimas eleições não respondeu aos questionamentos da Repórter Brasil .

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Quatro dias depois da Fortis Status, o deputado Aveilton Souza publicou um vídeo em defesa da Deca e chamou Mororó de “grande amigo”

A Fortis Status deu origem a dois inquéritos. Mororó conduziu o procedimento contra os quatro presos. Já Vannir Wagner abriu aquele destinado a esclarecer as mortes dos sem-terra.

Sete dias depois da ação, Mororó indiciou os trabalhadores por associação criminosa armada, porte ilegal de arma e tentativa de homicídio qualificado contra policiais. Pediu que continuassem presos, embora os exames dos armamentos ainda não estivessem prontos.

O Ministério Público considerou a prova insuficiente para denunciar e devolveu os autos. Queria saber a quem pertenciam as armas, se algum preso fora visto atirando e que exames poderiam ligar cada homem a um armamento. A Justiça soltou os quatro em 31 de outubro, vinte dias depois da operação.

Trabalhadores presos na Mutamba foram indiciados por tentativa de homicídio contra policiais. Dois meses depois, o delegado Mororó reconheceu que nenhum dos quatro havia sido flagrado atirando (Foto: Polícia Civil/ Divulgação)

Em dezembro de 2024, Mororó respondeu por escrito que “os 04 presos não foram flagrados atirando”, e que não era possível individualizar qual arma pertencia a cada um. Manteve, contudo, as acusações de associação criminosa armada e porte ilegal.

Em novembro de 2025, a Promotoria concluiu que não havia prova técnica ou testemunhal capaz de indicar quem havia disparado contra os policiais nem elementos que demonstrassem intenção de matar pessoa determinada.

Afastou naquele momento a tentativa de homicídio. Em janeiro de 2026, denunciou dois trabalhadores pelos outros crimes; para os dois restantes, considerou possível um acordo de não persecução penal.

Já no inquérito das mortes dos dois sem-terra, a falta de autoria individualizada produziu outro resultado. Cinco agentes da Core reconheceram que abriram fogo. A polícia não determinou qual deles causou os ferimentos. Ainda assim, o relatório concluiu que todos teriam usado de forma moderada os meios necessários para repelir uma agressão, e pediu o arquivamento por legítima defesa.

Seis dias depois da operação, um delegado da Diretoria de Polícia do Interior encaminhou o caso à Corregedoria e sugeriu que o órgão o avocasse para assegurar “total isenção”.

O Ministério Público paraense também pediu a avocação e, com o Ministério Público Federal, procurou o Ministério da Justiça para que a Polícia Federal continuasse o trabalho. A PF respondeu que não tinha identificado fundamento para assumir diretamente o inquérito, mas poderia oferecer apoio técnico.

Em 22 de outubro, a Corregedoria designou Leandro Pontes Oliveira, titular da Delegacia de Homicídios de Marabá, para conduzir o procedimento “até o final do feito”.

Em 11 de novembro, ele pediu mais noventa dias para ouvir Mororó, reinquirir os policiais, localizar testemunhas e esperar as perícias. Dois dias depois, foi removido para a delegacia de Abel Figueiredo, município de 6 mil habitantes. A portaria justificou a transferência com a frase “no interesse do serviço policial”.

Questionada, a Polícia Civil não respondeu às perguntas sobre os motivos da remoção de Leandro Pontes Oliveira.

Na mesma data da remoção de Oliveira, Mororó deixou a Deca para dirigir a principal unidade da Polícia Civil em Marabá. O delegado Rafael Lira Monteiro, lotado em Jacundá, foi escolhido no dia seguinte para substituir Oliveira. Recebeu formalmente os autos em 25 de novembro. Em menos de um mês, apresentou o relatório final, não indiciou nenhum policial e pediu o arquivamento.

Lira Monteiro incorporou depoimentos de pessoas ligadas à fazenda e à investigação anterior. Um tratorista descreveu Adão como um dos homens mais perigosos da ocupação e disse que ele “tocava o terror”. Outra testemunha chamou Adão e Edson de “os mais salientes e perigosos”. Um pequeno produtor que colaborara com levantamentos policiais afirmou que o barraco funcionava como posto de vigilância.

Pessoas ligadas à propriedade também falaram em consumo de álcool e drogas, tiros para o alto e ameaças. Os exames toxicológicos, porém, não encontraram álcool nem drogas nos organismos de Adão e Edson.

Para concluir que os policiais haviam reagido a um ataque, o delegado dispunha de duas espingardas fotografadas junto aos mortos, uma calibre 28, da CBC, e outra calibre 36, com marca, modelo e número de série desgastados, além de quatro cartuchos deflagrados encontrados no chão.

Os testes de laboratório atestaram o funcionamento das armas. Continuam em aberto, porém as conclusões sobre quem as usou, quando os tiros foram dados e onde estavam as espingardas antes de o perito chegar

Os cinco fuzis calibre 5,56 usados pelos agentes também foram recolhidos e testados. Todos funcionavam. Nenhum exame ligou um fuzil a um ferimento específico, e o inquérito não informa quantos tiros cada policial deu ou onde se encontrava ao atirar. Os agentes foram identificados; os tiros fatais, não.

Por onde entrou o tiro que matou Edson? Dois laudos discordam

O corpo de Edson, uma das vítimas da operação na Fazenda Mutamba, guardava um problema que nenhum depoimento resolveu. Ele morreu com um único projétil, mas os dois exames oficiais descrevem sentidos opostos da trajetória percorrida pela bala.

No local, o perito Marcelo Moraes apontou como entrada uma perfuração na parte direita do abdômen e como saída uma lesão abaixo da escápula esquerda: a bala teria ido da frente para as costas.

Na necropsia, o médico-legista Ronaldo Costa e Silva concluiu o contrário. Para ele, o projétil entrou abaixo da escápula esquerda, atravessou pulmões e vasos do tórax e saiu pelo lado direito do abdômen. O tiro teria vindo de trás. A bala não ficou alojada no corpo.

Se a necropsia estiver correta, Edson foi atingido pelas costas, e a versão de um confronto com homens que corriam e atiravam de frente fica prejudicada. O relatório final que pediu o arquivamento, no entanto, não enfrenta a divergência.

A reportagem pediu à Polícia Civil que encaminhasse à Polícia Científica e aos peritos Marcelo Moraes e Ronaldo Costa e Silva perguntas sobre a divergência entre os laudos e o exame de resíduos de disparo. Não recebeu resposta a essas questões.

Adão, a outra vítima fatal, tinha múltiplas perfurações no ombro, no antebraço, no tórax, nas costas e na região escrotal. Algumas trajetórias foram descritas como descendentes. Uma lesão na linha axilar esquerda apresentava características de “tiro próximo”, sem que o legista calculasse a distância.

Para sustentar que a quantidade de ferimentos em Adão não indicava necessariamente excesso por parte dos policiais, o delegado Lira Monteiro citou o caso de um homem que, mesmo atingido doze vezes em Icoaraci, distrito de Belém, ainda teria atacado um policial com uma barra de ferro.

Nos bolsos, Adão levava documentos de entidades de trabalhadores rurais, R$ 56 e quatro cartuchos de espingarda, segundo o perito. No bolso dianteiro direito da bermuda de Edson, o laudo registrou outros dois cartuchos. A identidade e a carteira de vacinação dele estavam numa mochila encontrada no barraco.

Quatro dias depois da operação, foi requisitado à Polícia Federal um exame capaz de testar parte da versão de que Adão havia disparado uma arma.

O laudo aponta partículas indicativas de resíduos de disparo em amostras da mão e do pulso direitos de Adão. O resultado é compatível com a hipótese de que ele tenha atirado, mas não é suficiente para comprová-la.

O perito advertiu que a presença ou ausência desses resíduos deveria ser interpretada em conjunto com os demais indícios e com a dinâmica do local do crime. O documento foi juntado ao processo em junho de 2025. A reportagem não localizou, nos autos consultados, laudo equivalente relativo a Edson. Segundo registro do Ministério Público, o Centro de Perícias de Marabá ainda não havia respondido aos requerimentos sobre esse exame.

O relatório final sobre o caso saiu em dezembro de 2024. Nele, o delegado Lira Monteiro escreve que nenhuma testemunha relevante havia ficado de fora.

Em janeiro e fevereiro de 2025, três sobreviventes relataram ao Ministério Público que policiais haviam mudado os corpos de posição e disparado armas encontradas no barraco. Esses depoimentos só foram juntados ao processo em junho, depois da conclusão policial de arquivamento.

Nos registros policiais, porém, as versões atribuídas a dois deles eram diferentes das que dariam ao Ministério Público: um teria dito que os ocupantes fizeram “inúmeros disparos”; outro teria visto entre dez e doze pessoas correndo e atirando. O terceiro sobrevivente permaneceu calado. Meses depois, os três negaram que tivesse havido reação a tiros e acusaram os policiais de mexer nos corpos e nas armas.

As circunstâncias em que as primeiras declarações foram produzidas e a divergência entre os relatos não haviam sido esclarecidas em nova oitiva nos autos consultados pela reportagem.

O relatório final concluiu que a cena fora integralmente preservada antes de conhecer os depoimentos que contestariam essa versão.

Mororó sobe na hierarquia, mas a reconstituição das mortes não sai do papel

Enquanto o inquérito terminava sem identificar os tiros fatais, Mororó avançava na hierarquia da Polícia Civil. Em novembro de 2025, ele foi promovido a superintendente regional.

Pouco mais de um ano após a Fortis Status, Mororó recebeu da Câmara Municipal o título de Cidadão Marabaense. A justificativa elogiava sua trajetória “exemplar” e os “relevantes serviços prestados” à cidade.

Mororó, ao centro e fardado, recebe o título de Cidadão Marabaense em 9 de dezembro de 2025 (Foto: Câmara Municipal de Marabá/Divulgação)

Na cerimônia de 9 de dezembro de 2025, Mororó posou ao lado da vereadora Cristina Mutran (MDB). Viúva de Nagib Mutran Neto, ex-prefeito de Marabá sobrinho de Aziz Mutran Neto, cujo espólio disputa a posse da Fazenda Mutamba, ela integrava a Mesa Diretora da Câmara e assinou o decreto da homenagem. Procurada, ela não respondeu aos questionamentos da Repórter Brasil .

Três meses depois, Mororó apareceu no programa Broncas da Cidade . Sérgio França, o Bronca, usava óculos escuros, um colete com a palavra “imprensa”, um distintivo semelhante aos da polícia e uma faixa onde se lia “Mete Bala”. Antes da primeira pergunta, apresentou o convidado como homem simples e honesto, capaz de fazer justiça sem distinguir pobre de milionário. Disse que ele tinha “sangue no olho” e “sede de justiça”. Mororó agradeceu e definiu a polícia como sacerdócio.

Mororó compareceu ao programa para falar sobre a prisão de um suspeito de feminicídio. Descreveu uma ação em que a Core entrou pela mata, cercou a casa e recolheu material genético sob o acompanhamento de um perito.

Ao explicar a cadeia de custódia, descreveu o percurso documentado de um vestígio desde a coleta até a análise, com registro de quem o recolheu e por quais mãos passou. É esse controle que permite demonstrar que a prova examinada é a mesma retirada da cena. “Estamos vindo aqui prestar contas à comunidade, à sociedade, aos contribuintes”, afirmou.

Em março de 2026, o programa Broncas da Cidade apresentou Mororó, de uniforme da Core, como o “homem de aço” da Polícia Civil (Foto: Reprodução/Broncas da Cidade)

Na Mutamba, no entanto, esse percurso começou num cenário que o próprio perito declarou inidôneo. Os agentes que atiraram contra os sem-terra disseram tê-lo preservado. Já os sobreviventes afirmam que policiais teriam movido corpos e armas antes do registro pericial.

O Ministério Público do Pará rejeitou o pedido de arquivamento da investigação apresentado pela Polícia Civil. Em resposta à Repórter Brasil , a promotora Cristine Magella Correa Lima, titular da 5ª Promotoria de Justiça de Marabá, afirmou que seria “prematuro” tanto denunciar os policiais quanto encerrar a investigação sem esclarecer como ocorreram as mortes.

Segundo ela, ainda existem dúvidas sobre a posição e a movimentação dos policiais e das vítimas, as distâncias dos disparos, o campo de visão e a compatibilidade dos ferimentos. Por isso, requisitou uma reconstituição, autorizada pela Justiça em maio de 2025.

A reconstituição deveria levar à fazenda os cinco agentes que admitiram disparar e outros participantes. Eles reproduziriam a aproximação aos barracos, indicariam o que podiam ver e ouvir, e mostrariam onde estavam localizados Adão, Edson e as armas. A perícia testaria se a história contada nos depoimentos cabia no espaço físico e nas lesões dos mortos.

Em abril deste ano, o Ministério Público recebeu os autos de volta sem “qualquer informação” sobre a medida e classificou a demora como “inércia injustificada”. Seis dias depois, Lira Monteiro enviou à Polícia Científica um pedido de análise de viabilidade e posterior agendamento. Solicitou ainda apoio da Superintendência para reunir os agentes. O órgão já era dirigido por Mororó, um dos comandantes da operação que a reconstituição deveria esclarecer.

Questionada sobre a demora, a promotora reconheceu a “morosidade das investigações” e afirmou estar “tomando as providências cabíveis” para dar continuidade às diligências.

Procurado, o Governo do Pará não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

Na manhã de 11 de outubro de 2024, o perito começou seu trabalho às 8h46. O laudo do local registrou Adão fora do barraco e Edson quatro metros adiante, as duas espingardas, as redes, as mochilas, os cartuchos e as sementes para plantar. Dois anos depois, a reconstituição que deveria cravar a verossimilhança dessa cena continua sem data. Na Mutamba, as famílias agora esperam 17 de novembro, quando está prevista a reintegração de posse.

Rosa passou oito dias sem sair à rua. Teve crises de ansiedade, tomou remédio, ficou um tempo na cidade e voltou para a ocupação. “Eu não desisti da terra, não”, diz. Veio para a Mutamba em busca de um pedaço de terra. “Todos têm uma história para contar”, afirma. É dessa terra que ela deve sair em 17 de novembro, se a ordem de despejo for cumprida.

Antes de ir para a Mutamba, Adão morava em Arapoema, no Tocantins. “Ele tinha vontade demais de ter uma terra”, conta um de seus cinco filhos. Adão deixou também sete netos. O filho lembra das pescarias com o pai, que gostava de serrar madeira, sabia trabalhar como carpinteiro e pedreiro e era caprichoso no que fazia. À saudade se soma a sensação de impotência:

“Não tem como fazer nada.

É mexer com gente grande demais.”

Reportagem: Daniel Camargos

Edição: Carlos Juliano Barros

Fotos: Fernando Martinho

Design: Rodrigo Bento

Montagem e estrutura: Beatriz Vitória

Redes sociais: Tamyres Matos

Edição de vídeo: Camila Ribeiro

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