A expectativa é de que o BC aproveite a reunião para reafirmar seu compromisso com o controle da inflação e sua independência em relação ao debate político. Nas últimas semanas, o mercado reagiu negativamente tanto à piora da percepção fiscal quanto à repercussão de propostas defendidas por Lara Resende, que sugeriu uma redução gradual da Selic para cerca de 7,5% ao longo de 12 meses, acompanhada por mudanças na coordenação entre as políticas monetária e fiscal.
Para Gesner Oliveira, sócio da GO Associados e professor da FGV, a importância da reunião está menos na decisão e mais na comunicação. Segundo ele, um comunicado firme pode ajudar a reduzir os prêmios de risco, favorecer o real e até criar condições para uma recuperação da Bolsa.
“O mercado não espera apenas uma decisão sobre a Selic. Espera uma demonstração de credibilidade do Banco Central. Um comunicado firme pode contribuir para reduzir os juros longos, fortalecer o real e favorecer a Bolsa, mesmo mantendo os juros básicos em níveis elevados”, afirma.
Na mesma linha, Gabriel Pinheiro, sócio da GT Capital, avalia que o mercado passou a enxergar o encontro do Copom como a primeira grande resposta institucional ao choque provocado pela eleição. Segundo ele, a manutenção dos juros já está amplamente precificada, mas o texto que acompanhará a decisão pode determinar o comportamento dos ativos nos próximos dias.
“Hoje, cada palavra do comunicado vale mais do que a decisão em si”, afirma o especialista.
Sinal hawkish pode ser positivo
Embora juros elevados normalmente representem um obstáculo para ações e atividade econômica, analistas avaliam que um comunicado considerado “hawkish” (duro, mostrando preocupação com a inflação) pode ser bem recebido pelos investidores neste momento.
A avaliação é que a deterioração recente das expectativas de inflação e a abertura da curva de juros aumentaram a importância da credibilidade do Banco Central. Um posicionamento firme poderia reduzir dúvidas sobre a condução da política monetária e contribuir para aliviar os juros de longo prazo.
“Um Banco Central crível pode contribuir para reduzir os juros de longo prazo mesmo mantendo elevados os juros de curto prazo”, afirma Gesner.
Conforme aponta Karen Focchesatto, consultora de investimentos da Unicred Porto Alegre, uma comunicação mais dura reforçando o compromisso com a meta de inflação pode ser vista de forma positiva pelo mercado, mesmo que implique juros altos por mais tempo, justamente por reduzir dúvidas sobre os rumos da política monetária.
Na visão de Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, o cenário mais favorável para os ativos seria uma manutenção da Selic acompanhada por uma mensagem mais explícita sobre os riscos para inflação, câmbio e expectativas. Nesse caso, poderia haver algum alívio no dólar e um achatamento da curva de juros, além de uma reação positiva da Bolsa.
O debate de André Lara Resende
A reunião ocorre em um momento especialmente sensível para o mercado. Durante o feriado prolongado, ganhou força o debate em torno das ideias de André Lara Resende, apoiadas por integrantes próximos ao novo governo, que defendem uma redução mais acelerada dos juros como forma de aliviar o peso da dívida pública.
O diagnóstico de que os juros brasileiros são excessivamente elevados é amplamente compartilhado entre economistas. A divergência está no caminho para reduzir esse custo.
Para Gesner Oliveira, o objetivo de diminuir os juros é correto, mas isso depende da criação de condições macroeconômicas adequadas.
“O Brasil precisa de juros menores, mas a pior maneira de conseguir isso é tentar reduzi-los sem antes enfrentar as causas que os mantêm elevados”, afirma.
A percepção é semelhante à de Karen Eliza, que destaca que o mercado não rejeita a queda da Selic em si, mas teme que ela ocorra sem melhora dos fundamentos econômicos. Segundo ela, uma eventual percepção de interferência política sobre o Banco Central poderia produzir o efeito oposto ao desejado, com saída de capital, desvalorização cambial e aumento dos juros futuros.
Para Gabriel Pinheiro, esse receio ajuda a explicar a reação negativa dos ativos após a eleição. O especialista argumenta que uma tentativa de acelerar os cortes em um ambiente de inflação pressionada, câmbio volátil e incertezas fiscais poderia ampliar os prêmios de risco exigidos pelos investidores.
Três cenários para o mercado
Entre os especialistas, o cenário considerado mais provável é o de manutenção da Selic acompanhada de um tom duro no comunicado, destacando a deterioração das expectativas de inflação, o impacto da desvalorização cambial e os riscos fiscais.
Uma segunda possibilidade seria uma mensagem mais neutra e dependente dos dados econômicos, o que poderia ser interpretado como insuficiente diante do aumento recente das incertezas.
Já um comunicado mais brando ou uma sinalização de retomada próxima dos cortes poderia provocar nova abertura da curva de juros e pressionar o dólar, segundo os analistas.
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