Após as eleições de meio de mandato (midterms) dos Estados Unidos (EUA) refletirem uma mudança brusca no Congresso, a imprensa americana repercutiu a derrota do Partido Republicano. O maior jornal do país, The New York Times (NYT), deixou claro que "na terça-feira, os eleitores se levantaram" contra Donald Trump.
A opinião do NYT avalia que o resultado representa uma reação às tentativas do presidente de interferir no processo eleitoral e classifica a votação como uma demonstração de resistência das instituições democráticas dos Estados Unidos.
"Durante os últimos dois anos, o presidente Trump tentou subverter a democracia americana. Na terça-feira, os eleitores se levantaram contra ele", afirma o editorial, logo na abertura.
Segundo o jornal, dezenas de milhões de americanos foram às urnas e rejeitaram o Partido Republicano, que, na avaliação do veículo, deu sustentação às iniciativas do presidente.
O texto cita tentativas de manipular as eleições por meio de mudanças nas regras dos distritos eleitorais para favorecer republicanos, alegações falsas de fraude eleitoral e esforços para restringir o voto pelo correio.
O editorial destaca que a rejeição ao partido foi ampla o suficiente para superar a polarização política do país. Republicanos perderam disputas até mesmo em estados tradicionalmente conservadores, como Kansas, Kentucky, Iowa, Ohio, Carolina do Sul e Texas.
Para o jornal, o resultado reflete a avaliação de eleitores independentes e até de republicanos de que o segundo mandato de Trump tem sido um fracasso.
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Com o avanço democrata, o partido terá mais condições de investigar casos de corrupção e possíveis violações da lei envolvendo o governo, além de apresentar propostas legislativas alternativas à agenda de Trump.
"O país já parece diferente e, de fato, será diferente em janeiro", diz o texto, em referência ao momento em que os novos parlamentares assumirão seus cargos.
Mas, para o NYT, nem tudo são flores. Apesar da vitória democrata, o jornal pondera que os Estados Unidos ainda enfrentam problemas de longo prazo para os quais nenhum dos dois partidos apresentou soluções claras.
O editorial também alerta que, nos próximos dois anos, enquanto Trump permanecer na Casa Branca, o Congresso e o Judiciário precisarão estar preparados para conter novas tentativas de enfraquecer a ordem constitucional.
O papel de servidores, advogados e juízes
Além dos eleitores, o editorial atribui a três grupos um papel fundamental na defesa do processo eleitoral: funcionários responsáveis pela organização das eleições, advogados e juízes.
O jornal elogia os trabalhadores eleitorais que, mesmo diante da pressão constante de Trump e de suas alegações recorrentes de fraude generalizada — contrariadas, segundo o texto, por décadas de evidências —, continuaram organizando a votação e contabilizando os votos.
O editorial também destaca a resistência de autoridades estaduais a pedidos do governo federal.
No ano passado, o Departamento de Justiça exigiu que os estados fornecessem dados pessoais dos eleitores, incluindo datas de nascimento, informações de carteiras de motorista e parte dos números de identificação da Previdência Social.
Diversas autoridades, inclusive republicanas, se recusaram a entregar as informações.
Entre os exemplos citados estão a vice-governadora republicana de Utah, Deidre Henderson; a secretária de Estado democrata de Michigan, Jocelyn Benson; e o secretário de Estado republicano da Virgínia Ocidental, Kris Warner.
Os três foram processados pelo governo Trump após a recusa, mas venceram as disputas na Justiça.
Para o New York Times, esses episódios demonstram a importância da descentralização do sistema político americano. A Constituição permite que cada estado determine como suas eleições são organizadas, o que impediu o presidente de simplesmente anular as decisões das autoridades locais.
Outro grupo elogiado pelo jornal é o de organizações e advogados que recorreram à Justiça para contestar medidas do governo Trump. Entre as entidades mencionadas estão o Brennan Center, a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), a Liga das Mulheres Eleitoras e a Common Cause, além de procuradores-gerais democratas.
Críticas e elogios à Suprema Corte
O editorial também faz uma avaliação mista da Suprema Corte dos Estados Unidos. O jornal critica decisões que, segundo sua análise, permitiram mudanças extremas nos distritos eleitorais para favorecer republicanos e iniciativas do governo para criar um cadastro nacional de eleitores.
Por outro lado, elogia os ministros por protegerem o direito dos americanos de votar nas eleições deste ano. Em setembro, a Corte manteve uma decisão de instância inferior que impediu o Serviço Postal de adotar medidas que poderiam restringir o voto pelo correio.
Para o jornal, a decisão demonstrou que a Suprema Corte tem limites quando o assunto é o processo eleitoral. O editorial lembra ainda que, após as eleições de 2020, os ministros se recusaram a analisar processos baseados nas alegações falsas de Trump sobre fraude eleitoral.
O texto alerta que a Corte poderá precisar novamente barrar iniciativas semelhantes nas próximas semanas.
Apesar dos desafios que ainda permanecem, o New York Times encerra o editorial com uma avaliação positiva do resultado eleitoral. O jornal afirma que funcionários eleitorais, advogados e juízes defenderam as regras que protegem o direito ao voto, enquanto milhões de americanos exerceram sua participação política.
"Os americanos mostraram que o poder de escolher seus líderes pertence a eles", afirma o texto.
O presidente dos EUA, Donald Trump, tira o chapéu por um instante ao sair do espelho d'água do Lincoln Memorial, após sua reabertura depois de meses de reformas, em Washington, DC, EUA, em 2 de novembro de 2026
REUTERS/Umit Bektas TPX IMAGES OF THE DAY

