O dado é de uma pesquisa divulgada no segundo semestre deste ano pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus. Para chegar ao cenário retratado, os pesquisadores entrevistaram 2.015 pessoas com 16 anos ou mais, em todos os estados. As entrevistas foram realizadas presencialmente, entre 25 e 30 de junho de 2026.

O que explica os números?

Vários fatores podem explicar a aproximação dos jovens aos cigarros, segundo o oncologista Helano Freitas, líder do Centro de Referência em Tumores de Pulmão e Tórax do A.C.Camargo Cancer Center. Um deles é a vulnerabilidade desse período da vida . “É uma fase da vida marcada por experimentação, influência de grupo e busca de pertencimento”, afirma.

A pesquisa também mostra que 37% dos jovens entre 16 e 24 anos relataram conviver com pessoas que fumam . Segundo o especialista, isso mostra também que ainda existe um componente de influência social de familiares e de amigos.

Qual o papel do cigarro eletrônico?

A pesquisa da Nexus não distingue entre cigarro convencional e eletrônico, também conhecido como vape ou pod. Portanto, não dá para saber a frequência de uso de cada um entre os jovens. No entanto, outros levantamentos recentes ajudam a entender o cenário.

A 5ª edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) , feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com os ministérios da Saúde e da Educação, mostra que a experimentação do cigarro eletrônico entre jovens de 13 a 17 anos passou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024 .

Detalhe: o crescimento contrasta com o movimento observado entre os cigarros convencionais. No mesmo período, a experimentação desse produto caiu de 22,6% para 18,5% .

“Eu realmente acredito que o cigarro eletrônico tem um papel importante nisso. Esses produtos de vape são muito atrativos para os jovens, todos pequenos, tecnológicos, com sabores diferentes, aromatizações”, opina Freitas.

Flávio Arbex, pneumologista, especialista em doenças respiratórias e professor na Universidade de Araraquara, em São Paulo (SP), tem visão semelhante. Ele acredita que o design tecnológico desses dispositivos, somado à variedade de sabores adocicados, cria uma falsa sensação de que eles são inofensivos .

“A percepção equivocada de que o vape seria menos nocivo é o maior cavalo de Troia da indústria atual, estimulando milhares de adolescentes a darem o primeiro passo na nicotina e abrindo o caminho para a dependência química precoce.”

Consequências de começar a usar cigarro eletrônico tão cedo

O cigarro eletrônico faz tanto mal quanto o tradicional . E começar a usar esses dispositivos na adolescência pode trazer consequências para o organismo, segundo Arbex. Isso porque o cérebro humano continua se desenvolvendo durante a adolescência e o início da vida adulta, período em que ainda está em processo de maturação.

“Quando exposto à nicotina nessa fase, o cérebro se reconfigura de maneira a criar uma dependência química muito mais rápida e intensa do que em adultos , tornando o processo de largar o vício extremamente difícil no futuro”, explica.

Além disso, segundo o médico, os pulmões em desenvolvimento podem sofrer danos decorrentes da exposição às substâncias presentes nos aerossóis dos dispositivos. O uso contínuo também pode comprometer a saúde respiratória e cardiovascular .

Cigarro também está associado a maus hábitos

O levantamento do A.C.Camargo e da Nexus também encontrou diferenças nos hábitos de saúde entre fumantes e não fumantes. Entre aqueles que fumam, 84% apresentam até quatro outros comportamentos considerados prejudiciais , como sedentarismo e consumo frequente de alimentos ultraprocessados e frituras.

Já entre as pessoas que nunca fumaram, 18% afirmam não ter nenhum dos hábitos considerados nocivos. Entre os fumantes, essa proporção é de 9%. No grupo dos ex-fumantes, por sua vez, 44% apresentam apenas um hábito prejudicial.

Como lidar com o cenário entre os jovens

Para os especialistas, as políticas públicas brasileiras, que têm um histórico importante no combate ao cigarro convencional, precisam se atualizar e conversar mais com o público adolescente , mais suscetível aos cigarros eletrônicos.

“Eu acho que a gente precisa de uma linguagem mais específica para os jovens, com uma comunicação mais voltada para eles nas mídias que eles consomem”, diz Freitas.

Outro ponto, segundo o oncologista, é a conscientização dos pais de adolescentes e adultos jovens . Hoje, eles podem usar vape por bastante tempo sem que os pais percebam. “É muito importante que as famílias conversem e que os pais deem uma atenção específica para isso, pensando na saúde em longo prazo dos seus filhos”, afirma.

Para Arbex, a fiscalização precisa ser muito mais rigorosa para conter a comercialização clandestina , especialmente diante da facilidade de compra pela internet e pelas redes sociais. Além disso, ele defende uma atenção maior aos ambientes escolares .

“Precisamos priorizar a educação em saúde nas escolas, fortalecer o apoio psicológico e psiquiátrico aos jovens que sofrem com ansiedade e garantir que o acesso aos tratamentos de cessação do tabagismo seja ampliado e adaptado para esse público mais jovem”, conclui.

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