"Um sonho que parecia distante". É assim que a advogada Crisleia Rodrigues, de 28 anos , reconhecida como a primeira advogada quilombola do Piauí, pela Coordenação das Comunidades Quilombolas do Estado, define a trajetória que a levou à formação em direito.
Em entrevista ao g1, a especialista em direito eleitoral e direito público municipal contou que precisou superar dificuldades financeiras e enfrentar o preconceito para conquistar a carreira que sempre desejou.
✅ Siga o canal do g1 Piauí no WhatsApp
Nascida na Comunidade Quilombola Saco Curtume, na zona rural de São João do Piauí, Crisleia Rodrigues começou ainda jovem a trabalhar com serviços domésticos, como auxiliar de cozinha.
A oportunidade de ingressar no ensino superior surgiu no fim de 2018, após um projeto idealizado por Nêgo Bispo, uma das principais lideranças quilombolas do país.
Saiba quem foi o pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo
Agora no g1
Como contrapartida pelo arrendamento de áreas para geração de energia, uma empresa do setor se comprometeu a oferecer bolsas de estudo para jovens de comunidades quilombolas da região.
Após ser aprovada em um processo seletivo realizado em São João do Piauí e em Picos, ela se mudou para Picos para cursar direito.
"Chegando em Picos, trabalhei como babá para conseguir custear algumas despesas", contou.
Além das dificuldades financeiras, a advogada enfrentou outro desafio: ficar longe do filho, que tinha menos de um ano quando ela iniciou a graduação.
"Pensei em desistir várias vezes. A saudade de casa, do meu filho e da minha família me consumia", relembrou.
A advogada afirmou ainda que o preconceito por ser quilombola e oriunda de escola pública também fez parte da trajetória acadêmica.
"Era uma faculdade particular. Enfrentamos muito preconceito. Nos olhavam como se fôssemos incapazes. Ser quilombola e vir de escola pública era algo que incomodava algumas pessoas. Persistimos porque a vontade de vencer foi maior", disse.
A advogada enfrentou outro desafio: ficar longe do filho, que tinha menos de um ano quando ela iniciou a graduação.
Em 2024, ela concluiu o curso de Direito. Em agosto deste ano, recebeu a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e passou a exercer oficialmente a profissão.
"No dia em que recebi a minha carteira, passou um filme pela minha cabeça. Era a oportunidade da minha vida, mas precisei abrir mão de muitos momentos ao lado do meu filho para seguir esse caminho", relembrou.
Com a conquista, Crisleia passou a ser reconhecida como a primeira advogada quilombola do Piauí, segundo a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas.
De acordo com a entidade, que acompanha a trajetória da profissional desde a graduação, ela é, até a publicação desta reportagem, a única quilombola formada em direito e com inscrição ativa na OAB.
"Tive que estudar o triplo para vencer um sistema que, na maioria das vezes, é injusto. Engolir o choro foi necessário por diversas vezes. A batalha foi vencida na ponta da caneta", afirmou.
Atualmente, Crisleia Rodrigues trabalha em escritório próprio, localizado na zona rural de São João do Piauí.
"Nos olhavam como se fôssemos incapazes", relatou
VÍDEOS: assista aos vídeos mais vistos da Rede Clube

