Mulheres do Distrito Federal denunciam um suposto golpe envolvendo a oferta de cirurgias de redução das mamas e colocação de próteses de silicone.
Os procedimentos, segundo a denúncia, eram relacionados a um falso projeto social que dizia estar vinculado à Secretaria de Saúde – e que prometia um falso "mutirão do Outubro Rosa".
O caso foi revelado pelo site Metrópoles e confirmado pelo g1, que conversou com três vítimas nesta semana. A Polícia Civil investiga o suposto esquema.
As vítimas contaram ao g1 que, apesar da promessa de uma cirurgia na rede pública, os suspeitos cobravam valores relacionados aos materiais do procedimento, como as próteses mamárias. As cobranças chegavam a R$ 3 mil por paciente.
Golpista oferta cirurgias de redução das mamas e colocação de próteses de silicone por meio de um falso projeto social que dizia estar vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS).
A "oportunidade" chegava até as mulheres por meio de conhecidas, e era apresentada como supostas vagas remanescentes no mutirão do Outubro Rosa – um evento que nunca existiu oficialmente.
Mais de 30 mulheres chegaram a integrar um grupo de WhatsApp para organizar as cirurgias.
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Marcação, desmarcação e troca de equipe
As pacientes afirmam que os procedimentos seriam realizados inicialmente no Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Logo depois, as cirurgias foram "desmarcadas" – e remarcadas com outros médicos e em outros hospitais, o que levantou suspeitas das vítimas.
A Polícia Civil investiga uma ocorrência registrada como estelionato na 29ª Delegacia de Polícia.
Uma das vítimas chegou a passar por consulta com um médico particular, que nega participação no suposto esquema (entenda melhor abaixo).
Em nota (veja íntegra abaixo), a Secretaria de Saúde reforçou que todos os atendimentos e procedimentos realizados pelo SUS são gratuitos, incluindo consultas, exames e cirurgias.
⚠️A Secretaria de Saúde orienta a população a não fazer pagamentos, transferências ou depósitos a pessoas que prometam atendimento ou acesso mais rápido aos serviços públicos de saúde.
Como funcionava a oferta de cirurgias
As três mulheres ouvidas pelo g1 relataram uma dinâmica semelhante.
Depois do primeiro contato, as interessadas eram encaminhadas para Tayna Regina Oliveira Castro, apontada pelas vítimas como responsável por organizar os procedimentos e receber os pagamentos.
Segundo os depoimentos, a abordagem seguia algumas etapas:
Indicação de vagas: as mulheres eram informadas de que poderiam conseguir uma cirurgia pelo suposto mutirão do Outubro Rosa, com vagas que não teriam sido preenchidas por outras pacientes.
Pagamento antecipado: Tayna cobrava R$ 1 mil pela redução das mamas ou até R$ 3 mil quando havia colocação de prótese. O dinheiro era transferido diretamente à responsável pela organização.
Prazo curto: algumas vítimas receberam a informação de que havia apenas uma vaga disponível – e, por isso, era preciso transferir o dinheiro em até 24 horas para não perder a oportunidade.
Mudança de hospitais e médicos: inicialmente, os procedimentos seriam feitos no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), com um médico particular. Depois, as pacientes foram informadas de que as cirurgias seriam transferidas para um hospital particular no Jardim Botânico e, posteriormente, para outra unidade particular, em Águas Claras.
Adiamentos e cancelamentos: mesmo com consultas e datas agendadas, as cirurgias eram desmarcadas repetidamente. Em algumas ocasiões, as mulheres já estavam em jejum ou a caminho do hospital.
"Minha cirurgia seria à tarde, comecei o jejum no dia anterior. Na manhã do dia seguinte, ela informou que a cirurgia não aconteceria, que o SUS não tinha pago o médico", disse uma das vítimas ao g1.
A vítima enviou ao g1 um print da conversa. Nas mensagens, uma outra mulher se apresenta como responsável pelas cirurgias da Secretaria de Saúde e desmarca a suposta cirurgia. Veja:
Print mostra conversa em que uma pessoa que se apresenta como responsável pelas cirurgias da Secretaria de Saúde informa a uma das pacientes que o procedimento seria adiado por falta de repasse do SUS ao hospital.
Outra vítima também relatou que a responsável pelo projeto orientava as participantes a não comentar sobre a iniciativa, sob a justificativa de que não poderiam envolver o SUS em possíveis polêmicas.
Segundo os relatos compartilhados no grupo de WhatsApp, apenas uma das participantes chegou a realizar a cirurgia: a irmã de uma das mulheres que ajudaram a divulgar o projeto, amiga de Tayná.
As demais continuaram aguardando os procedimentos ou passaram a cobrar a devolução dos valores.
Médico nega participação no projeto
A paciente disse que foi orientada a se apresentar como assistida por uma organização não governamental (ONG), sem mencionar o suposto projeto vinculado ao SUS.
Mais de 30 mulheres chegaram a integrar um grupo de WhatsApp para organizar as cirurgias. Acusada enviou fotos da cirutifia de uma das mulheres.
Uma das mulheres ouvidas pelo g1 afirmou que chegou a passar por uma consulta com um médico particular, depois de receber orientações de Tayna.
O médico afirma que não tinha vínculo com o projeto e não recebeu dinheiro de Tayna. Ele confirmou que foi procurado por ela, e disse que a mulher apresentou algumas pacientes aos médicos.
O profissional afirmou que as mulheres também foram enganadas e que não participou de nenhuma iniciativa de cirurgias pelo SUS. Segundo ele, chegou a disponibilizar seu número de telefone para alertar pacientes sobre ofertas de procedimentos feitas em seu nome.
O médico diz, ainda, que pretende tomar medidas judiciais por considerar que teve o nome associado indevidamente ao caso.
O que diz a Secretaria de Saúde
"A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) alerta todos os usuários da rede pública sobre tentativas de golpes e cobranças indevidas, após reportagem publicada pelo portal Metrópoles sobre a oferta de um falso mutirão de cirurgias plásticas em uma unidade hospitalar.
Nenhum serviço ou procedimento realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é cobrado, uma vez que é público e gratuito, criado pela Constituição Federal de 1988 e regulamentado em 1990 pelas Leis Orgânicas da Saúde (Lei nº 8.080/1990 e Lei nº 8.142/1990). Consultas, exames, cirurgias, medicamentos, materiais e insumos são gratuitos.
Não façam pagamentos, transferências ou depósitos a pessoas que prometam atendimento ou acesso mais rápido aos serviços de saúde.
A SES-DF encaminhará a denúncia publicada pelo Metrópoles à Ouvidoria-Geral do GDF e reforça que está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações.
Suspeitas de golpes e cobranças irregulares também devem ser denunciadas à Polícia Civil (PCDF) ou à Ouvidoria do GDF, pelo telefone 162 ou pelo portal Participa DF (www.participa.df.gov.br)."
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