Quem tinha a função de apreender drogas em Mato Grosso do Sul é apontado pela Polícia Federal como responsável por administrar uma espécie de braço operacional do “Clã Haidar”, organização criminosa de estrutura familiar suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo a investigação, o grupo movimentou mais de R$ 500 milhões com o tráfico internacional de drogas e armas nos últimos dois anos. Os dados constam em documentos da PF aos quais o g1 teve acesso.
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O esquema começou a ganhar visibilidade em setembro deste ano, quando o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) deflagrou uma operação que levou à prisão do delegado Hoffman D’Ávila e de outros suspeitos de desviar cocaína apreendida pela própria polícia para abastecer a organização criminosa.
A Operação Ifrit, deflagrada pela Polícia Federal nesta quarta-feira (4), lançou luz sobre novos detalhes de como funcionava o esquema criminoso. Ao todo, foram cumpridos 26 mandados de prisão e 76 de busca e apreensão. A operação também atingiu o patrimônio dos investigados, com o sequestro de carros de luxo, armas banhadas a ouro, haras e mansões.
Operação contra facções e policiais sequestra haras, fazendas, cavalos e carros de luxo em MS
Polícia Federal/ Giovanna Dauzacker, TV Morena
Segundo a investigação da Polícia Federal, a organização criminosa era comandada pela família Haidar a partir de Ponta Porã, cidade na fronteira com o Paraguai. O grupo atuava em várias regiões do Brasil e mantinha conexões internacionais. Conforme o relatório da PF, a estrutura era formada por três irmãos e seus filhos.
A investigação identificou que a organização atuava no tráfico internacional de drogas, armas, como fuzis, e veículos blindados. Segundo a PF, o grupo também usava policiais civis de Mato Grosso do Sul para proteger as rotas do tráfico, desviar drogas apreendidas pela própria polícia e obter informações privilegiadas.
O Clã Haidar
A organização tinha estrutura essencialmente familiar, conforme a investigação da Polícia Federal. O grupo também atuava em outros estados, além de Mato Grosso do Sul, como Paraná, Mato Grosso, Santa Catarina e São Paulo.
Maroan Fernandes Haidar Ahmed
As drogas e as armas vinham da Bolívia, do Peru e do Paraguai. Segundo a investigação, os produtos entravam no Brasil por Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, e eram distribuídos no mercado interno ou enviados a portos com destino à Espanha e a Portugal.
Segundo a PF, os três principais chefes do grupo tinham as seguintes funções:
Nasser Haidar: Segundo a PF, era o principal líder do grupo e tinha poder de decisão sobre os demais irmãos. Ele era responsável pela gestão financeira, pelo financiamento de grandes carregamentos de drogas e pela logística das operações.
Bassam Hassan Haidar Ahmed: Conforme a PF, era responsável pelas armas, pelas negociações de drogas e pelo controle dos bens e da logística do grupo. Também mantinha contato direto com grandes fornecedores internacionais de entorpecentes. Ainda conforme a investigação, ele exercia uma função de disciplina dentro da organização e é suspeito de envolvimento em crimes violentos, sequestros e torturas.
Adel Hassan Haidar: Conforme a investigação, era responsável por financiar o transporte de drogas, lavar dinheiro e proteger a organização por meio de contatos com instituições. Segundo a PF, também controlava os pagamentos de propina a servidores públicos envolvidos no esquema.
O g1 não conseguiu localizar as defesas dos integrantes da família Haidar.
Além dos três irmãos, os filhos deles também atuavam na organização criminosa.
Maroan Fernandes Haidar Ahmed: Filho de Bassam com Michele Daiane Fernandes Carvalho, é apontado pela PF como um dos principais integrantes da cúpula operacional do grupo e atuava nas negociações de drogas e armas. Ele está preso na Penitenciária Federal de Porto Velho (RO).
Adule Vasques Haidar: Filho de Adel, atuava como braço direito do pai nas decisões do grupo. Segundo a PF, era responsável por administrar pagamentos, organizar o transporte e a adulteração de cargas, além de controlar os registros das propinas pagas a policiais civis.
A PF descreveu a organização criminosa como “ultraviolenta”. Segundo a investigação, o “Clã Haidar” demonstrava poder com o uso de armas de guerra, como fuzis, caminhonetes blindadas e até drones de monitoramento tático.
A investigação da PF que embasou os pedidos de prisão aponta que a organização tinha um arsenal de guerra e um grupo de homens armados, chamados de sicários.
🔎Sicário é o nome dado a uma pessoa contratada para cometer assassinatos, geralmente mediante pagamento. O termo é usado principalmente em investigações sobre organizações criminosas e grupos ligados ao tráfico de drogas.
Segundo a PF, o grupo também praticava ações típicas de tribunais do crime, como emboscadas, cobranças violentas de dívidas, sequestros e torturas físicas. Parte desses episódios foi registrada em vídeos e atribuída aos suspeitos presos na operação.
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Tráfico entre os fardados
Delegado Hoffman D’Ávila.
Governo de MS.
A investigação da Polícia Federal aponta que a organização não apenas corrompia policiais, mas também usava agentes públicos para obter informações, proteger suas operações e abastecer o tráfico de drogas. Um dos investigados é o delegado Hoffman D’Ávila, que já foi responsável por duas delegacias especializadas em Mato Grosso do Sul:
Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar);
Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros (Garras).
Quando foi preso, Hoffman estava lotado na 6ª Delegacia de Polícia Civil de Campo Grande.
Segundo a investigação, Hoffman usou o cargo público para facilitar a entrada de integrantes da organização criminosa no depósito de drogas da Denar. Do local, teriam sido retiradas cerca de duas toneladas de cocaína pura apreendidas em operações das forças de segurança.
⚠️As cerca de duas toneladas de cocaína não vieram de uma única apreensão. O volume corresponde ao total de drogas apreendidas em diferentes operações policiais.
Para esconder o desvio, o delegado é suspeito de organizar uma fraude antes da incineração judicial das drogas. Segundo a PF, a cocaína apreendida, que tinha alto grau de pureza, era substituída por uma mistura de amido de milho e fermento.
A mistura usada para substituir a cocaína continha 10% ou menos da droga. Segundo a investigação, os suspeitos faziam testes químicos preliminares no local para que o material apresentasse resultado positivo para cocaína. Depois, o delegado encaminhava a mistura adulterada para incineração judicial, enquanto a droga pura era devolvida ao mercado ilegal.
Além de Hoffman, outros dois policiais são apontados pela PF como integrantes desse braço operacional da organização criminosa:
Investigador Andrey Elesbão Silva: Segundo a PF, usava senhas funcionais para acessar sistemas policiais restritos e consultar dados de veículos e pessoas. Com essas informações, levantava a rotina de desafetos, monitorava placas de veículos e repassava alertas à cúpula do grupo. Também é suspeito de atrasar investigações consideradas sensíveis para evitar que informações de interesse da família fossem divulgadas.
Policial civil Douglas Tobias: Segundo a investigação, atuava na rede de proteção aos integrantes do grupo e à movimentação das cargas de drogas. A PF também identificou repasses financeiros associados a ele e ao esquema de cooptação de agentes públicos.
Droga comercializada pelo próprio delegado que a apreendia
Segundo a Polícia Federal, Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa teria recebido pelo menos R$ 15 milhões com a venda da cocaína retirada do depósito da Denar.
Conforme a PF, o dinheiro teria sido usado por Hoffman para comprar bens de luxo em diferentes estados. Para os investigadores, o patrimônio é incompatível com os rendimentos do cargo público ocupado por ele. Segundo a PF, o delegado tinha os seguintes bens supostamente ligados a ele:
Mansão no Alphaville, em Campo Grande: imóvel de alto padrão em um condomínio fechado da capital;
Sítio em Pirenópolis (GO): propriedade rural de lazer localizada no município goiano;
Frota de veículos: a investigação identificou diversos veículos de alto valor.
Os documentos da investigação apontam que o delegado também teria atuado para devolver indevidamente bens e veículos apreendidos da organização criminosa. Imagens e vídeos anexados ao inquérito mostram Hoffman em confraternizações com integrantes da cúpula do Clã Haidar.
Para lavar os cerca de R$ 15 milhões que teria recebido com o desvio de cocaína na Denar e a proteção ao Clã Haidar, Hoffman teria usado o dinheiro para comprar bens de luxo e recorrido a terceiros e operadores financeiros. Segundo a PF, os valores eram depositados em contas de outras pessoas ligadas à rede de pagamentos da organização. A estratégia dificultava a identificação dos verdadeiros donos do patrimônio.
O que dizem as defesas?
Em nota, a defesa de Hoffman D’Ávila informou que tomou conhecimento do novo mandado de prisão expedido na Operação Ifrit, mas ainda não teve acesso integral ao processo nem à decisão judicial. Os advogados afirmaram que qualquer manifestação sobre as acusações seria prematura e ressaltaram que a prisão preventiva não representa uma condenação. Segundo a defesa, os fatos devem ser esclarecidos com garantia do contraditório e da ampla defesa.
Leia a nota na íntegra abaixo:
“A Defesa Técnica do Delegado de Polícia Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa informa que tomou conhecimento do cumprimento de novo mandado de prisão preventiva e de medidas de busca e apreensão no âmbito da denominada Operação Ifrit. Até o presente momento, a Defesa ainda não teve acesso integral aos autos, à decisão que fundamentou a nova custódia nem aos elementos probatórios que embasaram as medidas. Diante disso, qualquer manifestação sobre o mérito seria prematura. Assim que houver acesso completo ao procedimento, a Defesa realizará a análise técnica do caso e adotará todas as medidas processuais cabíveis, assegurando o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa.”
A defesa do policial civil Douglas Tobias, representada pelo advogado Luiz Renê, afirmou que acompanhou o cumprimento dos mandados de busca e apreensão e aguarda acesso integral ao inquérito. Em nota, declarou que o cliente é "pessoa idônea, profissional exemplar e nada tem a esconder, estando à disposição para prestar esclarecimentos e esperando que se faça justiça".
O g1 tentou contato com a Polícia Civil e a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Sejusp), mas não obteve retorno.

