Segundo ele, o mercado prefere um governo dividido , a chamada paralisia política, a um governo com carta branca para intervir na economia. O cenário ocorre quando a Presidência e o Congresso ficam sob o controle de partidos diferentes e as forças políticas se anulam. “A falta de consenso impede a introdução de mudanças legislativas drásticas e abrangentes, limitando a interferência de Washington no andamento da economia”, explica.

Ações nos EUA costumam subir após midterms, mas juros e IA preocupam analistas

Embora o histórico favoreça bolsas após as eleições de meio de mandato, juros elevados e riscos regulatórios ligados à inteligência artificial levam estrategistas a projetar ganhos mais modestos desta vez

“No Brasil, a palavra ‘paralisia’ soa como crise, desgoverno e desastre, mas nos Estados Unidos, paralisia política, o famoso ‘gridlock’, é considerada uma ótima notícia a ser celebrada pelo mercado”, afirma Cabral. A lógica, de acordo com o gestor, é que, se o governo não consegue aprovar leis e reformas, os políticos não interferem na economia, que tende a prosperar. Por isso, o mercado costuma reagir bem quando o poder político fica mais fragmentado , como agora.

O segundo fator que anima os investidores é a perspectiva mais favorável para o déficit público americano, o que tira pressão das taxas de juros. “Um Congresso controlado pelos democratas deverá bloquear novas iniciativas de gastos e reduções de impostos, dificultando a expansão agressiva dos gastos públicos”, diz Cabral.

O terceiro ponto, segundo o gestor, é a redução do prêmio de risco político embutido no preço dos ativos. Com o resultado conhecido e a distribuição de poder em Washington definida, a incerteza diminui, o que tende a valorizar os ativos.

Cabral lembra que, historicamente, o mercado registra fortes altas após as eleições de meio de mandato, independentemente do resultado. Desde 1950, o índice S&P 500 teve valorização média de aproximadamente 15% nos 12 meses seguintes a essas votações.

Na Bolsa, a avaliação do gestor é que um governo dividido tende a preservar o ambiente regulatório atual, favorável às grandes empresas de tecnologia. Embora alguns parlamentares democratas tenham defendido maior supervisão sobre a inteligência artificial (IA) e pedido moratórias para a construção de novos data centers, a paralisia legislativa torna improvável a aprovação de proibições abrangentes ou de regras excessivamente restritivas para o setor.

Na renda fixa, a melhora das expectativas fiscais deve aliviar os juros e impulsionar os preços dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) . Com a queda das taxas, o dólar tende a se enfraquecer diante das demais moedas fortes, acredita Cabral.

Já o Goldman Sachs avalia , em relatório, que os democratas devem usar os prazos de financiamento do governo e do teto da dívida para tentar limitar a guerra com o Irã, reduzir tarifas selecionadas e reverter cortes de gastos aprovados no ano passado. A reversão dos cortes contrasta com a expectativa de Cabral de que o novo Congresso freie a expansão dos gastos públicos.

O banco considera menos prováveis mudanças na regulação de data centers e IA, que dependeriam de apoio dos dois partidos para passar pelo Senado e superar um eventual veto presidencial. Por outro lado, as vitórias democratas em governos estaduais e locais devem levar a moratórias de curto prazo para data centers, com potencial de afetar cerca de 45% da expansão planejada da capacidade do setor no país.

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