# Marina Peralta quer romper fronteiras limitantes em ‘FRONT’, disco sobre território e pertencimento

- Seção: Entretenimento
- Fonte: Rolling Stone Brasil (https://rollingstone.com.br/musica/marina-peralta-quer-romper-fronteiras-limitantes-em-front-disco-sobre-territorio-e-pertencimento/)
- Publicado em: 2026-11-05T11:31:22.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1523751-marina-peralta-quer-romper-fronteiras-limitantes-em-front-disco-sobre-territorio

> Marina Peralta lança nesta quinta, 5, FRONT , seu terceiro álbum de inéditas, pelo selo EME Lab . Dez anos depois de Agradece (2016), disco que a apresentou ao público nacional, a cantora e compositora sul-mato-grossense reúne 14 faixas…

Nascida em Mato Grosso do Sul, em região de fronteira com o Paraguai e a Bolívia, Marina cresceu entre culturas, sotaques e referências. Filha de pai paraguaio, desde criança ouvia a família conversar em guarani.

Para ela, a fronteira é uma linha criada que gera separação — e o disco propõe romper as fronteiras limitantes que a sociedade impõe, sem tratá-las como um limite. É dessa vivência que nasce o título, que remete tanto ao encontro entre culturas quanto à ideia de estar na linha de frente.

A produção musical fica por conta de Caê Rolfsen , com faixas assinadas por Patrício Sid , Mangue , DJ Soares , Tael Bass e Tootz . Entre as participações estão Chico César , Yago Oproprio , Las Hijas de la Alquimia , Anelis Assumpção , Bia Ferreira , Ponto de Equilíbrio , Belén Natalí , Tetê Espíndola e Alzira E.

Em conversa com a Rolling Stone Brasil , realizada uma semana antes do lançamento, Marina conta que a ideia do disco amadureceu ao longo dos anos. Em 2019, quando chegou a São Paulo, pensava em fazer um álbum de reggae, mas foi a vida na capital que a levou de volta ao próprio território e a tomar a origem como conceito. O trabalho em estúdio começou há cerca de um ano e dois meses.

A artista também fala sobre a maternidade, o uso do espanhol e do guarani nas canções, o papel da comunidade na construção do disco e o show de estreia, previsto para janeiro de 2027. Confira o papo na íntegra:

Como está a expectativa para esse lançamento?

Menino, é isso, né? Depois de acho que uns seis anos sem lançar um disco inédito, com bastantes músicas, eu confesso que eu tô ansiosa, não num lugar ruim, mas num lugar novo, assim. Nesse meio-tempo eu fiz o Rewind (2023), que foi um disco comemorativo, né, com as versões e tal.

Acho que fazia muito tempo que eu não sentia essa sensação. Na verdade, não sei se eu já senti, porque com os meus outros discos foi diferente. Nesse, eu tô me mostrando tanto que ele gera uma ansiedade boa, de mostrar para o mundo. Uma ansiedade boa — se é que existe ansiedade boa.

Você lançou Agradece , em 2016, e o Rewind em 2023. O que significam para você esses 10 anos? O que mudou em você nesse tempo?

Nossa, muita coisa. O Agradece foi um disco muito intuitivo, muito sincero ali com o momento, com muita coragem, uma coragem diferente. Acho que eu tinha menos cobranças comigo mesma — isso muda as coisas. E feito em muitas mãos. Então, foi um compiladão de músicas que eu tinha feito naquela época. Eu acho que é a primeira vez que eu faço um disco que eu pude ancorar um pouco mais conceitualmente, sabe? Construir uma obra.

Não que eu esteja falando sobre a mesma coisa em todas as faixas, mas que converse sonoramente, que converse liricamente, que tenha cheiro, sabor, assim, sabe, de um lugar que leve a gente para algum lugar. Então, eu acho que entre o Agradece e esse disco são 10 anos de maturidade, né, maturação, tanto da minha voz, de como cantar, quanto como compositora e como mulher nesse mundo, como pessoa, como corpo, território também. E aí isso vai se transparecendo nessas canções.

Agora, vamos voltar no tempo. Quando foi que você decidiu criar esse disco? Como que estava sua cabeça na época?

Então, na verdade, eu decidi criar esse disco faz muito tempo. E a gente leva tempo, né? Porque assim, eu queria lançar um disco ali em 2019 e achei que ia fazer um disco de reggae. Eu tava com esse sentimento de “vamos fazer um disco novo de reggae”. E aí foi passando, passando, vieram outras coisas.

Quando eu cheguei em São Paulo, em 2019, para morar, a cidade me instigou a fazer o caminho de volta. Por quê? Porque eu não queria apenas mergulhar no que acontece aqui dentro. Foi me vindo, cada vez mais, a necessidade de trazer a minha originalidade, pontos que só eu poderia trazer sobre o meu trabalho, sobre a minha forma de ver o mundo e o lugar de onde eu venho. E de onde eu venho? Tem muita gente boa, compositores e artistas incríveis no Mato Grosso do Sul e ali na fronteira. Mas o que eu poderia trazer? Como a Marina poderia narrar esse lugar e essas sensações? Isso veio há uns dois anos — não, minto, minto, uns três, quatro anos, viu? — quando eu cheguei ao ponto de pensar: não, eu quero trazer um conceito atrelado ao território de onde eu venho. E isso foi amadurecendo num processo de uns três, quatro anos. Mas, desde que a gente entrou em estúdio para fazer esse disco, faz um ano e dois meses, mais ou menos.

Você falou sobre o título FRONT , que tem o lance do território de pertencer, mas também o da linha de frente. Como você chegou a essa palavra para definir esse projeto?

Eu gosto de falar sobre isso porque o FRONT vem primeiro como conceito, né? A fronteira vem primeiro como conceito. Eu demorei para trazer para o nome do disco. Eu demorei um tempão para descobrir qual era o nome. Então, ele vem desse lugar primeiro geográfico. De fato, eu nunca morei numa cidade literalmente na fronteira, mas sou de Campo Grande, a nossa região é fronteiriça.

A gente tem no nosso dia a dia, nas nossas comidas, na nossa música, na rádio, nas festas, na estética das coisas, nas lojas de lembranças, sabe, que as pessoas viajam e tal. Tudo isso carrega a fronteira. Para além, o meu pai é paraguaio, né? Minha avó é paraguaia. Então, desde criança, eu sempre ouvi dentro de casa meu pai conversando em guarani mesmo com minha avó. Então, isso é muito especial. Eu só fui ter noção da grandeza disso depois de adulta, de perceber que, gente, a oportunidade, assim, de poder vivenciar isso dentro de casa, a cultura fronteiriça. Então, veio primeiro desse território geográfico. Mato Grosso do Sul tem mais de 30 municípios que fazem fronteira com o Paraguai, e um deles faz fronteira com a Bolívia. Então, tudo isso sempre esteve ali.

Aí, quando eu entro um pouco mais, começo a pensar mais sobre essa coisa da fronteira, me vem isso, né? Porque fronteira é uma linha imaginária criada. E aí assim, OK, para organizar os espaços, OK, mas principalmente gera muitas guerras, né? A fronteira gera separação muitas vezes, a fronteira gera muitas vezes a divisão de um território originário. Então, os Guarani já existiam ali, tudo ali era Guarani. De repente, você põe uma fronteira e uma rua passa a separar o que é Brasil e o que é Paraguai. E os povos originários ali. Sou o quê? Eu sou daqui, eu sou dali. Então, muitos desdobramentos vão vindo desse conceito, né, de querer também romper com fronteiras limitantes.

Além disso, eu sou mãe também e em muitos momentos a sociedade nos impõe limitações. Tornar-se mãe, de fato, muda as nossas limitações. A gente vai redescobrindo as nossas limitações e vai rompendo as nossas próprias limitações. Então, esse rompimento de fronteira abarca muitas esferas da minha existência, sabe? Para além de um significado geográfico. O meu corpo como território aqui em São Paulo.

E aí entra um conceito que eu amo, que é quando eu firmo a abreviação, que é o FRONT . Porque de fato eu começo a fazer música. Desde a minha primeira música eu já tava nesse anseio de estar no front, de ter como referência pessoas que estiveram no front. Realmente, né, viver a militância, alguns momentos da minha vida vivi a militância muito mais na linha de frente, dentro das ocupações, dentro das aldeias, contribuindo com candidaturas, disputando centros acadêmicos, diretórios de universidade, reitorias, lutando por refeitório na universidade. Então, isso também dialoga muito comigo, sabe, de estar no front. Hoje, talvez menos, diferente um pouco. Mas sempre acreditando que a minha música quer cumprir esse papel de flecha mesmo, de falar o que precisa ser falado.

Então, o conceito de FRONT abarca muitas coisas. No final das contas, eu nem imaginava que eu ia gostar tanto de ter sintetizado nessa palavra.

Você citou que é mãe. O que a maternidade te ensinou e como isso afetou — de forma positiva — o seu trabalho?

Ah, meu, na verdade, assim, eu volto a trazer esse tema. Quem conhece o meu trabalho, quem me acompanha, muita gente me chama de mama, né? Virou um apelido, e sabe que eu falo disso, mas eu trago nesse disco de uma forma diferente.

Eu acho que isso tem tudo a ver com o que eu quero trazer também, que é uma maturidade de uma mulher mais velha mesmo do que a do disco Agradece , com outra cabeça. No disco Agradece , eu tava grávida da minha primeira filha. Quando eu fiz o show de lançamento dele, quando eu gravei ele, e agora a minha filha tem 10 anos, eu tenho uma outra filha, eu moro em outra cidade, eu sou outra pessoa, eu sou outro tipo de mãe, e eu acho que essa maturidade também vem aparecer no disco, sabe? Para descanonizar um pouco a maternidade, sabe? Para trazer uma maternidade que também rompe com as fronteiras que são colocadas para a gente, de comportamento de uma mãe ou de prioridades de uma mãe, né?

Então, o disco, eu amo que ele abre com essa canção “ MAMA, CADÊ VOCÊ? ”, sabe? Ele abre já trazendo o negócio ali de um pai que não pode ficar com a criança, sabe? Então, eu gosto dessa ironia, eu gosto de pegar ali no carinho, então eu tô trazendo de um outro jeito, sabe? Uma narrativa que é mais poética e mais sensual também, sabe? Eu acho que isso é legal, porque é trazido muito pra mãe, e eu tive a minha fase, que eu amo isso, eu espiritualizei, sou altamente espiritualizada, essa divindade que é sermos mães, mas nesse disco eu quis botar o pé na rua. Botar a tamanca na rua, entendeu? Botar as pulseiras, um batom vermelho, e afirmar que eu sou essa mãe também, sabe? Então, tem esse lugar.

Mudando de assunto, quais referências você estava ouvindo quando produzia o disco? O que estava vivendo que chamou sua atenção? Não precisa ser só dentro da música, pode ser fora dela também.

Nossa, nesses últimos anos — quatro, cinco anos da minha vida — eu venho me dedicando, na verdade, a ouvir músicas latinas e a dar mais atenção para artistas daqui. Principalmente porque, quando a gente encontra amigos artistas de países da América do Sul, começa a perceber de verdade o quanto a gente é isolado.

Uma vez, no Paraguai, estive com artistas da Colômbia, da Argentina, do Paraguai e do Uruguai. Havia gente colocando para ouvir coisas que todos cantavam, todos sabiam — só eu que não. Era comum, todo mundo ali se conhece, mano, e eu aqui querendo colocar uma referência da América do Norte. Isso foi uma das coisas que mudou muito para mim, já faz um tempo. Então, pude me atentar tanto nas músicas mais regionais — escutando cumbias tradicionais, polcas tradicionais — quanto nas modernas, da galera da nova geração, que tem trazido os elementos regionais para dentro das suas canções, agora com elementos digitais.

A gente tem o Milo J da Argentina, fenômeno: fez um disco altamente regional, mas altamente moderno, bonito, com poesia, sem medo da gente fazer poesia mesmo com as palavras. Mas enfim, não sei se você quer que eu cite alguns nomes que eu tenho ouvido — fui para esse lugar ouvindo muito rap também, muito reggae cantado em espanhol, muito reggaeton. E fui tentando, porque, quando a gente tá estudando, escuta muitas coisas, não necessariamente para fazer exatamente aquilo, mas porque essas coisas vão criando repertório dentro da gente, vão trazendo. Então, ele não é um disco cheio de cumbia, cheio de polca, não, nada disso. Ele é Marina Peralta , urbano, estilo de rua — mas é uma rua pantaneira, caralho. É uma rua da fronteira, entendeu? Uma rua do Mato Grosso do Sul, não uma rua de São Paulo. Não tem como eu fazer aqui uma coisa que não é a minha vivência, né? É o meu jeito de narrar. É a Rua de Terra Vermelha, saca? Que é a nossa realidade ali do MS.

Você falou que o mercado latino é muito fechado e tem muita conexão entre a gente. Você acha que a distância entre a gente e eles está diminuindo, aos poucos? A gente está cada vez mais se aproximando deles?

Ai, eu acho, né? E é nossa obrigação fazer isso, porque muitas vezes a gente quer que eles se aproximem da gente — e eu acho que é o contrário. Para mim, hoje já tenho muito mais conexões com artistas da América Latina do que tinha antes. No disco, a gente tem a Las Hijas de la Alquimia , um grupo de rap paraguaio. Eu fiz questão de fazer essa música com as meninas porque o Paraguai é muito carente de artistas mulheres da cena urbana que consigam ter expressividade, né? E vem também a Belén Natalí , uma artista argentina que fez outra comigo no disco. Queria trazer muito mais gente, amor.

Eu acho que esse disco, no final das contas — em alguns momentos eu pude dizer que ele é uma síntese dos últimos anos —, também é o início de um caminho conceitual que tem me agradado e que eu não quero perder: sempre poder trazer as referências, seja no instrumento, seja na língua, seja no que eu for escrever, sempre reafirmando o lugar de onde a gente vem, sem medo, sem querer me parecer com uma coisa que eu não sou, sabe? Sobretudo a língua é uma grande barreira nossa, né? A gente não sabe falar espanhol, mas sabe falar inglês, italiano, quer fazer aula de alemão. Mas assim, gente, vamos falar um espanhol, né? Para poder nos comunicar com os países próximos da gente. No disco, a gente traz um pouco do espanhol também. O guarani aparece dessa vez só na última música, com a minha avó cantando em guarani, uma amostra na música “ LA MADRE ”. Quer dizer, a gente tem uma coisa ou outra no disco, mas é ali que ela aparece. Talvez as referências ainda sejam sutis, mas é o caminho que eu encontrei para fazer essa transição agora e entender como a minha contribuição pode ir pavimentando alguns caminhos.

Cada vez mais o mundo está de olho na gente América Latina. Qual é a sua opinião sobre esse movimento que está acontecendo?

A arte tem um papel muito foda de conectar mesmo. Eu fui no show do Milo , meu, duas noites lotadas. Duas noites lotadas de pessoas cantando em espanhol, cantando cumbias tradicionais, e a gente se reconhecendo nos fenótipos, se reconhecendo mesmo, sabe? Nas nossas características físicas, mano. Você tá num lugar em que encontra pessoas bolivianas, chilenas, outros cabelos, outras expressões, e essas pessoas estão aqui, estão em São Paulo, estão por aí o tempo todo. Então, eu acho que é um momento massa.

Acho que veio o Bad Bunny também, né, para fortalecer esse grupo. Acho que a gente está tendo coragem. Quanto mais o imperialismo mostra suas caras, mais ele mostra para a gente o que a gente não quer ser. E isso, por um lado, ajuda a gente a se fortalecer, sabe? A gente olha e pensa: mano, a gente não é isso, nossa, a gente não é isso jamais. Então, o meu objetivo também é captar esse nosso orgulho de pertencimento, sabe? Que começou em mim e que eu quero seguir. Acho ótimo que o Brasil esteja nesse momento, que meu disco vai sair agora — não numa de surfar, mas porque isso é a minha realidade, né? Sou filha de paraguaia; não é uma coisa que eu inventei e quero de alguma forma só encaixar nesse momento. Existe uma legitimidade que é maneiro, e acho que isso me deixa feliz também de poder realizar.

Falando em feats agora. Esse disco conta com Chico César, Ponto de Equilíbrio, Yago Oproprio, Bia Ferreira, Anelis Assumpção. Como você escolhe quem entra num disco seu e quem fica para o próximo?

Rezando! (risos) Mentira. Mentira. É porque às vezes dá vontade de trazer todo mundo, trazer mais pessoas. Mas aí a gente faz realmente isso. Não, tá bom, isso aqui fica pro disco, calma seu coração, depois a gente chama fulano.

A gente vem numa era de combinações, assim, eu acho que reforça o coletivo. E aí vem até da pergunta anterior. Eu acho que esse disco foi uma, já sabe que nada se constrói sozinho, mas quando eu cheguei em São Paulo, eu tive um choque um pouco, porque São Paulo é cada um no seu corre, mano. Por mais que você possa contar com algumas pessoas, mas em geral, tá cada um atrás do seu, entendeu? E não é nem por maldade, é porque eu costumo falar que é banana comendo macaco, entendeu? Tipo, então, e aí por um momento eu me vi meio, veio pandemia logo que me mudei, né, um tempo de isolamento, essa coisa toda. Então, esse disco vem para reafirmar para mim a importância da comunidade, a importância de ter mais pessoas fazendo, sabe, e pensando, e junto de alguma forma, executando e tal. A gente ri, a gente grava, a gente faz.

O Yago , inclusive, foi assim. Ele ficou com a música um tempo, ficou sentindo a música um tempo, criou algumas coisas, mas a música só saiu mesmo quando a gente entrou em estúdio junto, passamos uma tarde ali de boa, rindo bastante, ouvindo a música, criando junto e já captando voz. É, isso foi muito legal. Então, todas as pessoas que estão envolvidas nesse disco têm um significado importantíssimo para mim. São pessoas que eu amo muito, na verdade, sabe?

A Anelis é uma mãe que eu admiro muito, que para mim ela tem tudo a ver com o que eu tava falando antes, né? Sobre a gente ser mães que rompem com o padrão do esperado de nós, né? Que sabem transitar entre o sagrado e o profano. Eu acho que não é porque a gente se torna mãe que a gente sai desse trânsito aí que tem que acontecer. A fronteira entre o sagrado e o profano. Ela também é uma fronteira interessante de se deslizar, sabe, enquanto mãe.

O Chico César , sou muito fã, e além de tudo é regueiro para caramba. Eu amo shows dele. Todas essas pessoas eu já vi cantar.

A Belén é uma artista que eu admiro e já converso há muitos anos, a gente quer fazer alguma coisa juntas. Então, sou fãzaça da voz dela.

E aí vêm a Alzira e a Tetê , como nós colocamos, que são duas referências muito importantes para mim, mas sobretudo para a música do meu estado, né? Ah, as duas são irmãs, são Espíndolas , que é uma família que contribuiu muito para a música do meu estado, e que hoje eu posso dizer que sou fã, assim, não só fã, mas que sou amiga da maioria deles, né, que me ajudaram muito no começo, de diversas formas, me ajudando a escrever, me convidando, parando para ouvir as minhas canções, né?

Então, tem uma importância muito grande trazê-las, especialmente na música “ GRANDE ESPÍRITO ”, que é como se fosse um rezo dentro do disco, né? Ela é uma vinheta, ela é uma coisa rápida, e a voz dela está ali para trazer um sustento, é como se fosse uma bênção para mim. É, receber de verdade mesmo. Me sinto literalmente recebendo a bênção das duas, para seguir esse caminho de continuidade.

Quem eu tô esquecendo? Ah, a Bia Ferreira , simplesmente assim, minha irmã, também criamos meio que no estúdio, muito legal, assim, aquele clima de tá no estúdio, já ir escrevendo, já ir mexendo no fluxo, né? Então, muita gente que eu amo e admiro, não vou conseguir citar todo mundo, mas dessa vez eu quis mesmo trazer mais pessoas comigo, até para reafirmar mesmo que durante todos esses últimos anos eu cheguei até aqui e construí muitas relações especiais.

Queria saber também sobre os produtores. Como é a sua relação com cada um dos deles? Aqui tem o Caê, o Patrício Sid, o Mangue e o DJ Soares. Como foi trabalhar num disco com várias mãos?

O disco surge primeiro com o Caê — ou melhor, surge não, né? Quando penso na pessoa que eu queria para produzir o meu disco, eu já tinha uma relação com ele, que veio através da Lys Ventura , com quem fui DJ por um tempo e que já foi minha produtora. Ela fez essa conexão, e a gente, anos atrás, já tentou editais, várias formas de viabilizar o projeto. Já faz anos que venho escrevendo e pensando esse disco conceitualmente, visualmente, artisticamente, até ele chegar onde chegou agora. Foi a EME que, de fato, tornou possível colocar essa parada em prática. E é isso: para além das conexões com artistas ao longo desses anos, também fiz muitas conexões com produtores — pessoas que eu admiro, que eu gosto e que eu queria que estivessem presentes nesse disco, nessa história, nessa síntese, né?

O Patrício vem com essa música maravilhosa. A gente fez uma primeira versão e viu que não era aquilo. Aí fui mudando as referências, mandando novas ideias para ele, ajustando a minha melodia, e a gente chegou. Gosto muito do estilo de trabalho do Patrício . Marcos Maurício é meu técnico de PA, meu amigo e um grande produtor — está com a gente na música da Bia Ferreira . O DJ Soares também é parceiro, né? Foi DJ do Rael por muito tempo, e o Rael é meu grande amigo; essa ponte veio através dele.

O Soares vem fazendo uns instrumentais bala e me mandou esse já tem um tempo. Eu não tinha feito pensando no disco, mas resolvi trazê-lo para dentro dele, porque tinha tudo a ver. Que mais? E tem o Mangue , que produziu uma das minhas preferidas do disco, que é “ SOFT ”. Amo essa música — escrevi em 15 minutos, porque recebi um instrumental desses.

Então, tem esse ponto da importância de um produtor também, né? Valorizo demais. Admiro muito o Mangue , que também masterizou todo o nosso disco e está na mixagem de algumas faixas. Enfim, a minha relação com eles é essa de construção ao longo desses anos, de querer que essas pessoas façam parte também desse momento.

Você acabou de falar que passou muito tempo pensando no conceito e nos visuais do projeto. Como está sendo para você transformar esse disco para o ao vivo — ou ainda é cedo para pensar nisso?

Não, menino, tá tarde! (risos) A gente já vem fazendo isso, já estamos montando as trilhas, e eu já tenho na cabeça uma ideia de repertório. O show é onde a parada acontece, é onde a pessoa vê se ela vai ou se ela fica — para mim, sabe? Então, já pensei nisso, sim. A gente tem a previsão de fazer o show oficial de estreia do disco em janeiro de 2027, e eu tenho em vista uma formação de banda um pouco diferente, com algumas mudanças, e uma vontade de trazer novidades estéticas e visuais — para o figurino, para a performance, para os visuais de LED e coisas assim. Então, tô animada. Tô animada porque acho que não tô fazendo nenhuma transição na qual eu deixe de ser eu. Tenho trabalhado para me sentir bem à vontade na nova performance, para me sentir eu mesma. Acho que o disco é resultado disso, né?

O disco quer reafirmar meu compromisso com pautas das quais eu não abro mão, meu compromisso com a arte, com o valor da arte de um disco, sabe? O valor de construir uma obra difícil, que demanda muito tempo e muitas pessoas. E eu, como uma mãe vivendo longe da minha família, me sinto altamente realizada por ter concluído esse trabalho. Espero, de verdade, que ele inspire outras pessoas. Acho que esse trabalho não busca ocupar o lugar de ninguém — ele busca ocupar o lugar dele, aquele que nos pertence.

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