Uma das regiões naturais mais impressionantes da República Tcheca vai perder um reconhecimento internacional que mantinha havia 11 anos. O Geoparque Český ráj, conhecido como Paraíso Tcheco, deixará de ostentar o selo de Geoparque Global da UNESCO.
A decisão surpreende porque o território é famoso pelas enormes torres de arenito, florestas, castelos e trilhas que atraem visitantes de diferentes países. O motivo da punição, entretanto, não está na paisagem, mas em uma controvérsia envolvendo a venda de pedras preciosas e minerais.
O Conselho de Geoparques Globais da UNESCO decidiu retirar o reconhecimento após considerar insuficientes as medidas tomadas para resolver o problema. A mudança entrará em vigor no início de 2027.
Autor: Jan Pešek, MF DNES
Região reúne formações rochosas que parecem esculturas gigantes
O Český ráj fica no norte da República Tcheca e ocupa aproximadamente 833 quilômetros quadrados. A região possui formações geológicas moldadas ao longo de milhões de anos, incluindo torres, paredões e passagens estreitas entre rochas.
<text>Entre os atrativos mais conhecidos estão as paisagens de Hruboskalsko, onde grandes blocos de arenito se erguem acima das florestas. Castelos, ruínas e mirantes também fazem parte dos roteiros turísticos.</text>
O cenário transformou a região em um destino importante para caminhadas, fotografia e turismo de natureza. Seu patrimônio geológico foi um dos motivos para a conquista do reconhecimento internacional.
Autor: Jan Pešek, MF DNES
Por que a UNESCO decidiu retirar o selo?
A controvérsia envolve o comércio de minerais e pedras preciosas cuja procedência foi questionada durante as avaliações do geoparque. Parte desses materiais é vendida em estabelecimentos ligados à tradição mineralógica regional.
Entre as instituições citadas está o Museu do Paraíso Tcheco, na cidade de Turnov. O museu comercializa pedras e produtos relacionados a uma atividade artesanal histórica da região.
A questão central não é a existência de pedras à venda, mas a dificuldade apontada pelos avaliadores em assegurar que o comércio estivesse alinhado às exigências da rede internacional.
O museu rejeita as acusações de irregularidade e afirma que trabalha com materiais comprados legalmente.
Parque já havia recebido advertência em 2024
A perda do selo não aconteceu sem aviso. Em 2024, o geoparque recebeu uma advertência conhecida como cartão amarelo, indicando que determinadas questões precisavam ser resolvidas.
A administração teve dois anos para tomar providências e demonstrar que estava atendendo aos critérios internacionais. Uma nova avaliação ocorreu em 2026 para verificar os resultados.
O conselho concluiu que os problemas persistiam. Como as regras não permitem a repetição consecutiva desse tipo de advertência, a situação terminou com um cartão vermelho.
Na prática, isso significou a exclusão do território da rede de Geoparques Globais da UNESCO.
Museu afirma que as pedras não são ilegais
O Museu do Paraíso Tcheco, em Turnov, contesta a interpretação de que o comércio realizado em suas instalações seja irregular. Segundo seus representantes, os minerais são adquiridos por canais legais, inclusive de fornecedores estrangeiros.
A cidade possui uma longa tradição de lapidação de pedras preciosas e fabricação de joias. Essa atividade faz parte da identidade cultural e econômica da região há séculos.
O diretor do museu, Jan Prostředník, argumenta que interromper a venda e a divulgação desses materiais entraria em conflito com a missão da instituição.
Assim, a controvérsia também envolve o equilíbrio entre preservação ambiental, comércio legal e valorização de tradições locais.
Geoparque chegou a romper parceria com o museu
Na tentativa de atender às recomendações internacionais, a administração do geoparque encerrou sua cooperação formal com o museu em 2019.
A medida, porém, não foi considerada suficiente para resolver as preocupações levantadas nas avaliações posteriores. O conselho continuou questionando a presença desse comércio no território reconhecido.
A diretora do geoparque, Jana Lebedová, manifestou frustração com a decisão. Segundo ela, foram adotadas medidas durante os últimos anos, mas os esforços não convenceram os avaliadores.
O caso mostra como diferentes interpretações sobre a comercialização de minerais podem gerar consequências administrativas importantes.
O parque será fechado para turistas?
Não. A retirada da marca da UNESCO não significa o fechamento do geoparque nem a proibição de visitar suas paisagens.
As trilhas, os mirantes, as formações rochosas e os monumentos históricos continuam existindo. O território também permanece reconhecido como geoparque nacional, segundo sua administração.
Para quem planeja conhecer o Paraíso Tcheco, a decisão não representa automaticamente mudanças nas condições de visitação.
O principal efeito imediato será a perda do direito de utilizar o título internacional de Geoparque Global da UNESCO a partir de 2027.
O que muda sem o reconhecimento internacional?
O selo da UNESCO ajuda a promover destinos conhecidos pelo patrimônio geológico, pelo trabalho educativo e pelo turismo sustentável.
Perder essa identificação pode afetar a divulgação internacional e algumas oportunidades de cooperação. A direção do geoparque também demonstrou preocupação com possíveis impactos sobre financiamentos e parcerias.
Entretanto, ainda não há confirmação de redução no número de visitantes ou de prejuízos financeiros decorrentes da decisão.
A administração afirma que pretende continuar desenvolvendo atividades de educação ambiental, valorização da geologia e promoção de visitas responsáveis.
Por que os geoparques recebem avaliações periódicas?
O reconhecimento de Geoparque Global da UNESCO não funciona como um prêmio permanente. Os territórios integrantes da rede precisam demonstrar continuamente que cumprem os critérios exigidos.
Entre os aspectos avaliados estão a gestão do patrimônio geológico, a educação, o envolvimento das comunidades e as práticas de desenvolvimento sustentável.
Quando são identificados problemas, podem ser exigidas medidas corretivas. A continuidade do reconhecimento depende dos resultados apresentados em avaliações posteriores.
O caso tcheco mostra que até destinos internacionalmente conhecidos podem perder a marca quando o conselho considera que suas exigências não foram atendidas.
O Paraíso Tcheco poderá recuperar o selo?
A decisão atual não admite recurso, segundo a imprensa tcheca. Isso significa que a administração não poderá simplesmente contestar o resultado para manter o reconhecimento atual.
Entretanto, existe a possibilidade de uma nova candidatura no futuro. Antes disso, seria necessário resolver as questões que levaram à exclusão.
A direção ainda avalia se vale a pena buscar novamente o título. O processo exigiria esforço institucional e não garantiria uma aprovação automática.
Enquanto isso, a região poderá continuar recebendo turistas e desenvolvendo seus projetos ambientais sem a marca internacional.
Uma paisagem extraordinária permanece no mesmo lugar
A perda do selo representa um episódio importante para a administração do Český ráj, mas não altera aquilo que tornou a região famosa.
Suas torres de arenito, vales e castelos continuam oferecendo uma paisagem singular, formada por processos geológicos que aconteceram durante milhões de anos.
O detalhe mais surpreendente é que um destino conhecido justamente por suas pedras gigantes perderá o reconhecimento internacional após uma disputa envolvendo a venda de minerais. A paisagem continua protegida e aberta aos visitantes, mas o prestigiado selo da UNESCO deixará de acompanhar seu nome.

