# Ortossonia: entenda a obsessão por monitorar e melhorar o sono

- Seção: Saúde
- Fonte: Drauzio Varella (https://drauziovarella.uol.com.br/neurologia/ortossonia-entenda-a-obsessao-por-monitorar-e-melhorar-o-sono/)
- Publicado em: 2026-11-05T18:00:37.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1528986-ortossonia-entenda-a-obsessao-por-monitorar-e-melhorar-o-sono

> Já viram aqueles relógios inteligentes ou aplicativos de celular que monitoram o sono? Eles são uma mão na roda: mostram quantas horas a pessoa dormiu, se mexeu muito na cama, se acordou de madrugada e por aí vai. Só que todos esses dados,…

O termo foi introduzido pela primeira vez na literatura científica em 2017, em um artigo publicado no Journal of Clinical Sleep Medicine , periódico oficial da Academia Americana de Medicina do Sono (AASM, na sigla em inglês). O trabalho apresentou três casos clínicos de pacientes preocupados com os dados de seus rastreadores de soneca.

“A ortossonia não é reconhecida ainda como uma doença, mas é um fenômeno cada vez mais comum em função das tecnologias que medem o sono de uma forma que a gente não conseguia medir anteriormente”, explica Geraldo Lorenzi Filho, pneumologista, médico do sono e diretor do Núcleo Interdisciplinar da Ciência do Sono e do Laboratório do Sono do Instituto do Coração (InCor/USP).

Sinais de alerta

Existem alguns sinais de alerta que mostram que o monitoramento deixou de ser saudável e pode afetar a saúde mental. A psicóloga Bárbara Araújo Conway, mestre em ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenadora do Núcleo de Psicologia do Sono da Academia Brasileira do Sono (ABS), elencou os principais:

ter pensamentos frequentes do tipo “se eu não dormir oito horas, meu dia está perdido”;

achar que qualquer cansaço ou irritação durante o dia é culpa da noite anterior;

começar a se preocupar com a noite ainda à tarde;

confiar mais nos dados do relógio do que na própria sensação ao acordar;

checar os dados dos aplicativos várias vezes, especialmente logo ao acordar;

ficar mais tempo na cama para melhorar os números;

ter rituais antes de dormir cada vez mais longos e rígidos;

cancelar compromissos ou evitar viagens e eventos à noite por medo de dormir mal;

usar suplementos ou medicamentos por conta própria e pesquisar sobre sono constantemente.

Ortossonia pode virar insônia

A ortossonia não é insônia . No entanto, o monitoramento excessivo pode ser um fator a desencadear o distúrbio , de acordo com Lorenzi Filho.

“Ela é um passo na direção da insônia, que é uma queixa de dificuldade de iniciar ou de manter um sono de boa qualidade ou acordar muito mais cedo do que gostaria”, afirma.

No Brasil, cerca de 3 em cada 10 adultos apresentam sintomas de insônia , segundo o Vigitel , levantamento do Ministério da Saúde divulgado no início de 2026. O estudo identificou que 31,7% dos entrevistados relataram dificuldades para dormir, despertares frequentes durante a noite ou acordar antes do horário desejado sem conseguir voltar a dormir.

O que fazer?

Para os especialistas, as pessoas precisam cuidar do sono sem transformá-lo em obrigação , tendo sempre em mente que não é possível fabricar sono com esforço, mas sim criar condições favoráveis para que ele aconteça.

“Digo que o sono é como um gato. Você chama o cachorro, o cachorro vem. Você chama o gato, mas ele não necessariamente vem. Você tem que criar as condições para o gato vir. O mesmo vale para o sono”, exemplifica o pneumologista.

Se o monitoramento excessivo persistir por semanas ou estiver atrapalhando a vida, a recomendação é procurar um profissional da área do sono.

Terapia também ajuda

A terapia cognitivo-comportamental para insônia também pode ajudar. Basicamente, esse tipo de tratamento psicológico foca naquilo que mantém a dificuldade para dormir, como os pensamentos e os comportamentos que a pessoa desenvolve.

“Na prática, o tratamento costuma identificar os fatores de precipitação e perpetuação da insônia, identificar o que desencadeou a dificuldade e, principalmente, o que a mantém hoje, como por exemplo a preocupação excessiva, o esforço para dormir e os hábitos criados para compensar as noites ruins”, diz Conway.

O acompanhamento psicológico, ainda segundo a especialista, também envolve explicar como o sono funciona, o que são os ritmos biológicos, fases do sono, por que o organismo tolera bem noites ruins ocasionais, entre outros. Além disso, trabalha mudanças de comportamento, redução dos rituais de controle e técnicas de relaxamento, como respiração lenta.

Como melhorar o sono sem buscar a “noite perfeita”

De acordo com os especialistas, algumas formas de criar condições favoráveis ao sono, sem cair no monitoramento excessivo, são: manter um horário regular para acordar; tomar um pouco de sol pela manhã; ir para a cama quando sentir sono; e ter uma rotina tranquila à noite, sem regras rígidas .

Se o sono não vier ou a ansiedade aparecer, vale levantar, fazer algo relaxante e voltar quando estiver sonolento. Também é importante evitar café e outros estimulantes à tarde e à noite, reservar um momento para organizar as preocupações e seguir o dia normalmente, mesmo depois de uma noite ruim.

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