A crise envolvendo o Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai, afeta cerca de 3 milhões de clientes, entre eles, a empreendedora Jhenifer Vogado.

Filha de brasileiros, moradora de Santa Rosa del Monday, cidade que fica a cerca de 57 quilômetros de Foz do Iguaçu, ela precisou recorrer à ajuda de familiares para comprar medicamentos para o filho de 3 anos, que está doente, depois de ter a conta bloqueada.

Ela e o marido usavam o Ueno como banco principal e tinham conta na instituição há cerca de 4 anos.

"A gente dependia dele para tudo: para pagar mercado, para pagar internet, para pagar a luz, para fazer transferência, para tudo. A gente dormiu com o salário que recebemos no começo do mês e acordamos no outro dia sem nada do dinheiro, nada", detalha.

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O Ueno, maior emissor de cartões de crédito do Paraguai, vinha enfrentando problemas financeiros e é alvo de investigações. Após ajustes em balanços, o índice de solvência da instituição, que indica a capacidade de cumprir obrigações financeiras, caiu para menos da metade do mínimo exigido.

Diante da situação, na madrugada de terça-feira (3), o Banco Central do Paraguai anunciou um procedimento para proteger os depositantes e reduzir os possíveis impactos da crise sobre o sistema financeiro. Com isso, os serviços do Ueno foram suspensos, cartões e aplicativo da instituição deixaram de funcionar, e clientes encontraram as agências do banco com as portas fechadas.

Jhenifer afirma que soube do caso pelas redes sociais e, desde então, passou a lidar com a incerteza. Segundo ela, não houve qualquer comunicação oficial por parte do Ueno, e todas as informações que recebeu até o momento vieram da imprensa paraguaia.

"Eu não tinha a cabeça para nada. Meu emocional estava abaladíssimo. Foi um sentimento de tristeza, porque, além de nós estarmos precisando, tem mais famílias que estão sem dinheiro. Por sorte, a gente tem alguém que possa nos emprestar, mas e as pessoas que não têm? Que dependiam desse salário do mês? Como que essas pessoas ficam sem comida, sem acesso a remédio?", lamentou.

Banco digital que quebrou no Paraguai movimentava mais de 800 milhões de dólares em dinheiro público

Estudante brasileira conseguiu pagar o aluguel, mas ficou com dinheiro para a conta de luz bloqueado

Moradora de Ciudad del Leste, a médica Vanessa Monteiro conseguiu pagar o aluguel antes do bloqueio, mas ficou sem acesso ao dinheiro que usaria para pagar as contas de casa, como a da energia.

"Eu espero que as pessoas que estão com dinheiro preso consigam o mais rápido possível, mesmo que seja pouco dinheiro, mas que consigam logo, porque é um dinheiro que a gente já espera, para poder pagar as contas e, do nada, fica preso e não tem mais acesso", desabafa.

Também estudante de medicina, a brasileira Camila Brito não teve a mesma sorte. Com valores e investimentos bloqueados, ela precisou renegociar o aluguel e outras questões financeiras previstas para esses dias.

"É uma situação muito complicada acordar e não ter acesso nenhum ao seu próprio dinheiro, ainda mais no dia seguinte ao tradicional dia de pagamento dos salários. Isso significa que as pessoas, inclusive nós, havíamos acabado de receber e não tínhamos como cumprir as nossas obrigações financeiras. No geral, as pessoas estão sendo solidárias e permitindo que as despesas sejam renegociadas. O que resta agora é esperar que os valores sejam desbloqueados o mais rápido possível", afirma.

'A gente está à deriva, não sabe o que faz'

Ainda não há um levantamento oficial sobre quantos brasileiros foram afetados pela suspensão das operações do Ueno Bank.

Entre os atingidos, estão muitos brasileiros que vivem no Paraguai e mantinham contas na instituição devido à facilidade para movimentar recursos e realizar transferências entre os sistemas bancários dos dois países.

O médico José Gabriel, que trabalha no Paraguai, usava uma conta no banco para receber os pagamentos. Segundo ele, os correntistas vivem um cenário de incerteza diante dos desdobramentos da crise, marcada pela renúncia do presidente do Paraguai, do presidente do Banco Central do país e pela falta de respostas sobre o futuro dos recursos depositados.

"A gente está à deriva, a gente não sabe o que faz, e infelizmente nosso dinheiro está lá preso e a gente não sabe o que fazer", afirma.

Antes da renúncia do presidente paraguaio Santiago Peña, ele havia anunciado medidas para ressarcir os clientes afetados pela dissolução do banco. Em uma publicação no X, Peña afirmou que pretende iniciar os pagamentos ainda nesta semana, caso o Congresso aprove uma lei que autorize a medida.

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