# ‘Carnaval de Luz’ é o melhor álbum do U2 em 20 anos — e isso não é bem um elogio

- Seção: Entretenimento
- Fonte: Rolling Stone Brasil (https://rollingstone.com.br/musica/u2-carnaval-de-luz-resenha/)
- Publicado em: 2026-11-06T18:57:39.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1546043-carnaval-de-luz-e-o-melhor-album-do-u2-em-20-anos-e-isso-nao-e-bem-um-elogio

> O século 21 começou de vento em popa para o U2 , com dois dos álbuns mais bem-sucedidos da banda, All That You Can’t Leave Behind (2000) e How To Dismantle An Atomic Bomb (2004). Desde então, tem sido ladeira abaixo.

A banda irlandesa pareceu ter perdido o rumo e falhou em toda tentativa de recuperar a magia anterior. A esperança de Bono , The Edge , Adam Clayton e Larry Mullen Jr. reside em Carnaval de Luz , a ser lançado na próxima sexta-feira, 13.

Por um lado, trata-se do melhor álbum do U2 dos últimos 20 anos. Sem dúvida. O problema é que nesse período a banda produziu o pior material de sua carreira, então essa qualificação pode ser interpretada como um insulto velado.

A variável Bono

A questão principal para analisar o U2 desde o ano 2000 é que o grupo pode ser elevado ou arrastado por seu vocalista. Bono se tornou uma figura ao mesmo tempo adorada e alvo de chacota porque a mesma qualidade capaz de cativar milhões de fãs pelo mundo também repele muita gente. E isso se reflete principalmente nas canções. Os instrumentistas podem criar a música mais sensacional possível, mas se a letra reflete as piores tendências do frontman, tudo cai por terra.

Frequentemente, esse é o caso em Carnaval de Luz . The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. entregam composições que ecoam alguns dos momentos mais bem-sucedidos da discografia do U2, especificamente All That You Can&#8217;t Leave Behind , How To Dismantle An Atomic Bomb , Zooropa (1993) e até mesmo Achtung Baby (1991).

O guitarrista em especial brilha neste novo álbum, com uma performance geral no instrumento capaz de equilibrar sua sede experimental e a fórmula clássica da banda. O melhor exemplo é &#8220;Go (Carnaval de Luz)&#8221; , um turbilhão sonoro feito para pegar o ouvinte de cara.

Apesar disso, Bono coloca tudo a perder com algumas das piores letras da carreira do U2. E não é como se isso já não fosse uma tragédia anunciada. O EP Days of Ash , lançado em fevereiro, tentava lidar com temas políticos extremamente pesados, a exemplo do genocídio em Gaza e do assassinato de Renée Good e Alex Pretti por agentes de imigração americanos em Minneapolis. Falhou miseravelmente.

No passado, o U2 era capaz de comunicar uma empatia singular e apelar ao senso coletivo da humanidade para criar algo poderoso. Hoje em dia, é como se Bono tivesse perdido seu senso de perspectiva ou não se importasse mais em compreender a situação na sua totalidade.

Em Carnaval de Luz , isso fica ainda mais evidente porque Bono deixa esses temas políticos para trás em prol de celebração. O mundo em geral pode estar acordando aos poucos com relação aos abusos da extrema direita e tirando esses governos do poder, mas ao ler a letra de &#8220;Go (Carnaval de Luz)&#8221; , a impressão é que a banda oferece a versão mais rasa possível dessa catarse:

“Welcome to tonight, a carnival of light

Illumination is the way to fight this

I’ve had it with the fear, can’t believe I made it here

Came to find other people who feel like this”

[&#8220;Bem-vindos a hoje à noite, um carnaval de luz

Iluminação é o caminho para lutar

Já estou cheio desse medo, não acredito que chegou a isso

Vim aqui para encontrar pessoas que se sentem assim&#8221;]

O ponto mais baixo de Carnaval de Luz , contudo, é “The Mirror Maker (Rosalía)” , uma música escrita para a cantora pop espanhola Rosalía . A letra apresenta uma série de clichês místicos e religiosos que tentam descrever o apelo da artista, cujo álbum mais recente, LUX (2024), se provou revolucionário por conseguir transcender a linguagem comum de falar sobre fé e o relacionamento de alguém com Deus, além de recontextualizar a música tradicional europeia para um contexto pop moderno. É como se o U2 tivesse medo de mergulhar mais a fundo num assunto — ou tenha simplesmente perdido a capacidade de fazê-lo.

“A mirror maker sets out to trap light

Illuminator, silver inside

Break the glass, what could possibly go wrong?

in the service of her song

Silver girl let me sing along”

[&#8220;Uma fabricante de espelhos se põe a capturar luz

Iluminadora, prata dentro

Quebre o vidro, o que pode dar errado?

Teimosamente a serviço de sua canção

Garota de prata, deixe-me cantar junto&#8221;]

Apesar de as letras serem o ponto fraco em geral de Carnaval de Luz , há bons momentos nesse sentido no álbum. &#8220;The Greatest Show On Earth&#8221; é a tentativa de fazer um exemplar clássico da grande balada do U2 presente em todo álbum do grupo. Bono fala sobre não poder cantar o que está no seu coração por conta de um término amoroso. Entretanto, ao se levar em consideração os últimos 20 anos da banda e os períodos cada vez mais longos entre lançamentos, quando ele escreve &#8220;We were once the greatest show on Earth&#8221; [&#8220;Nós já fomos o maior espetáculo da Terra&#8221;], pode estar falando tanto do casal da música quando do conjunto em si. Isso é uma demonstração forte de vulnerabilidade, ainda que não necessariamente intencional.

Vale ressaltar outras qualidades de Carnaval de Luz . “Silencio” , por exemplo, é um rock divertido, ainda que ligeiramente bobo. Uma versão superior de algo como “Get On Your Boots” , do álbum No Line on the Horizon (2009), com The Edge tocando uma guitarra cheia de fuzz num arranjo bem glam rock. O refrão é grandioso e não faz muito sentido, porém é o momento que a persona estapafúrdia de Bono funciona em favor da banda.

Musicalmente e em termos de produção, o U2 parece ter desistido de acompanhar as tendências da música pop em prol de um caminho mais focado no que funciona melhor para sua abordagem. Eles não tentam soar como o mercado considera ser o padrão radiofônico e seguem seu próprio padrão sonoro anterior. O grande trunfo dos melhores discos do grupo é sua atemporalidade e os integrantes miram nisso neste trabalho.

&#8220;Street of Dreams&#8221; , o primeiro single de Carnaval de Luz , soa como a versão clássica da banda, com Larry Mullen Jr. fazendo sua bateria propulsiva influenciada por ritmos marciais e The Edge mirando sua guitarra para os céus enquanto Adam Clayton mantém tudo junto através do seu baixo. Por sua vez, Bono mistura inglês e espanhol na letra ao lembrar o conceito católico daqueles esquecidos pela sociedade serem aqueles acolhidos por Deus.

Além disso, há a presença de &#8220;Torn&#8221; , música com a participação de Dolly Parton , falecida em agosto. Uma canção country – ao menos a interpretação do U2 para o gênero – potente por conta da convidada especial, capaz de fazer qualquer coisa soar singular.

No final, a sensação constante ao ouvir Carnaval de Luz é estar perante uma banda obcecada em recapturar algo perdido há muito tempo ao invés de encontrar um novo caminho. Talvez porque ainda estejam perdidos ou por não terem a força necessária para sair da zona de conforto após 50 anos de carreira.

*Carnaval de Luz, do U2, chega às plataformas digitais no próximo dia 13 de outubro.

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