# Software de IA mapeia genes de vírus de bactérias com 98% de precisão

- Seção: Política
- Fonte: Poder360 (https://www.poder360.com.br/poder-tech/software-de-ia-mapeia-genes-de-virus-de-bacterias-com-98-de-precisao/)
- Publicado em: 2026-11-07T09:25:03.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1554850-software-de-ia-mapeia-genes-de-virus-de-bacterias-com-98-de-precisao

> Pesquisadores desenvolveram um programa baseado em inteligência artificial para localizar genes de bacteriófagos —como são chamados os vírus que infectam bactérias. Batizada de Pelican, a ferramenta foi testada em 6 genomas virais já conhecidos pela ciência.

O programa conseguiu encontrar, em média, 98% dos genes presentes nessas amostras, taxa de acerto superior ao de outros softwares avaliados. O trabalho foi conduzido no Cepid B3 (Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos), um dos centros de pesquisa, inovação e difusão apoiados pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Os bacteriófagos, ou simplesmente fagos, despertam interesse da comunidade acadêmica por suas possíveis aplicações na medicina, na biotecnologia e na agricultura. Na saúde, uma das mais promissoras é a fagoterapia, que usa esses agentes para matar bactérias causadoras de infecções. A estratégia tornou-se ainda mais relevante com o avanço mundial da resistência bacteriana aos antibióticos.

O Pelican foi desenvolvido sob a coordenação do professor João Carlos Setubal no IQ-USP (Instituto de Química da Universidade de São Paulo). Os detalhes da pesquisa foram descritos em artigo publicado em outubro na revista BMC Bioinformatics , e o software pode ser acessado gratuitamente na plataforma de compartilhamento GitHub .

Como explicam os autores do artigo, encontrar os genes é uma etapa da chamada &#8220;anotação genômica&#8221; , processo que permite mapear essas sequências no DNA e investigar suas funções. Nos fagos, porém, essa tarefa é especialmente desafiadora: seus genes costumam ser menores e podem se sobrepor, dificultando a determinação de onde um termina e o outro começa. Além disso, muitos ainda não têm função biológica conhecida, o que limita as informações disponíveis para orientar a análise.

Segundo Fernando Pacheco Nobre Rossi, principal desenvolvedor da ferramenta, a maioria dos programas de anotação genômica disponíveis atualmente foi criada para analisar bactérias. “Mas os genomas de fagos têm peculiaridades em relação aos genomas de bactérias, e isso leva à identificação de regiões genômicas ligeiramente diferentes” , explica.

Para identificar os genes, o Pelican combina as predições de 4 ferramentas de bioinformática. Quando pelo menos 3 delas apontam exatamente para a mesma região do DNA, o programa aceita a predição. Se os resultados divergem, recorre a métodos estatísticos, comparações com bancos de dados biológicos e modelos de aprendizado de máquina (inteligência artificial) para avaliar quais regiões têm maior probabilidade de conter genes verdadeiros. O sistema também analisa casos em que genes preditos se sobrepõem.

Para avaliar o desempenho do programa, os cientistas testaram o Pelican em 6 genomas cujos genes já haviam sido totalmente mapeados (anotações de referência).

O programa conseguiu encontrar 98% desses genes conhecidos. Essa capacidade de detectar o que realmente existe na amostra é chamada de recall (ou sensibilidade), e o Pelican obteve o melhor resultado entre todas as ferramentas testadas.

Por outro lado, como o programa é muito sensível, ele acabou apontando várias outras regiões do DNA como sendo genes, mesmo que elas não estivessem na lista oficial de referência. Ele sugeriu mais desses &#8220;genes extras&#8221; do que os outros programas comparados.

Parte dessas regiões adicionais pode corresponder a genes ainda não descritos. Para investigar essa possibilidade, os pesquisadores utilizaram modelos computacionais que estimam a estrutura tridimensional das proteínas codificadas pelas sequências identificadas —uma forma de verificar se esses supostos novos genes teriam capacidade real de funcionar na prática.

A análise indicou que mais de 70% das 95 regiões adicionais dariam origem a proteínas com estrutura plausível, mas os autores ressaltam que esses candidatos ainda precisam ser validados.

“Quanto mais bem anotado o genoma do fago, mais informação temos sobre como o microrganismo funciona” , afirma Rossi. Uma identificação mais abrangente dos genes pode ajudar a investigar características como os mecanismos de infecção, o ciclo de vida e as estratégias de defesa desses vírus.

Esse conhecimento também pode contribuir para pesquisas sobre fagoterapia. Como os bacteriófagos infectam conjuntos limitados de bactérias, conhecer suas características genéticas ajuda os pesquisadores a compreender seu comportamento e a selecionar candidatos para estudos contra determinados agentes infecciosos.

A anotação genômica, por si só, não comprova a segurança ou a eficácia de um fago como tratamento, mas fornece informações importantes para investigar seu potencial.

A ideia original do projeto foi da professora Aline Maria da Silva, do IQ-USP, que foi vice-coordenadora do Cepid B3 até morrer, em outubro de 2024.

Setubal acrescenta que a pesquisa faz parte de um projeto mais amplo, voltado a produzir ferramentas inovadoras para análise de genomas de fagos. “Esse é um componente importante do Cepid B3 e esperamos ter mais resultados nesta linha nos próximos anos” .

Thabata Oliveira é bolsista de jornalismo científico da Fapesp vinculada ao IQ-USP. Colaborou Bianca Bosso, do Cepid B3.

Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 3 de novembro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360 .

Reportagem completa: https://www.poder360.com.br/poder-tech/software-de-ia-mapeia-genes-de-virus-de-bacterias-com-98-de-precisao/

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