Moradores e produtores rurais de Alenquer, no oeste do Pará, relatam preocupação com a presença de jacarés e os ataques a animais de criação em áreas próximas a rios e lagos. Um fazendeiro que atua na região de várzea afirma ter perdido mais de 30 animais no último ano. Também há relatos de ataques a pessoas, incluindo o caso de um adolescente de 14 anos, na comunidade Arapiri.

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Segundo o produtor rural Douglas, que mora em Santarém e mantém uma propriedade na região de Alenquer, os ataques são frequentes e atingem principalmente animais que se aproximam da água para beber ou atravessar pequenos cursos de água.

“Eu particularmente, ano passado, perdi mais de 30 animais”, relatou.

Ele afirma que parte dos animais desaparece quando o rebanho é conferido durante a transferência da várzea para a terra firme. Outros apresentam ferimentos graves após ataques. Segundo o produtor, há registros de animais com lesões no maxilar, que ficam debilitados e não conseguem mais se alimentar. Douglas também relata a presença de jacarés-açu de grande porte na região.

Ataques podem estar relacionados à falta de alimento

O biólogo Esrom Paixão, do ZooUnama, explica que a procura dos jacarés por animais de criação pode estar relacionada à diminuição da disponibilidade de alimentos no ambiente natural.

Segundo o especialista, a redução na quantidade de peixes, a estiagem e as alterações no nível dos rios podem interferir na dinâmica alimentar desses animais. Com menos alimento disponível, os jacarés podem procurar locais onde encontram presas com maior facilidade, como fazendas e residências próximas às margens de rios e lagos.

O biólogo ressalta, porém, que os relatos de ataques não são suficientes para afirmar que existe uma superpopulação de jacarés na região.

“Os jacarés são animais oportunistas. Eles não são animais que frequentemente vão atrás da caça. Ficam parados, esperando a presa passar. No momento em que esse animal passa, eles aproveitam a oportunidade”, explicou.

Esrom também destaca que a diminuição dos peixes pode estar relacionada a outros fatores ambientais, e não necessariamente ao aumento da quantidade de jacarés. A estiagem e as mudanças climáticas podem prejudicar a reprodução das espécies, comprometendo a disponibilidade de alimento para os predadores.

“Os jacarés podem ajudar a ter uma redução, mas não são necessariamente os culpados. Eles podem ser tão vítimas quanto os próprios peixes que estão naquela região”, afirmou.

Estiagem pode aumentar aproximação dos animais

O biólogo explica que, durante períodos de seca, os jacarés podem ficar concentrados em determinados trechos de rios e lagos, onde ainda existe disponibilidade de água e alimento.

Ao mesmo tempo, animais silvestres e de criação procuram as margens em busca de água. Essa aproximação aumenta as possibilidades de encontros entre predadores e presas.

A situação também exige atenção de quem vive nas comunidades ribeirinhas. O especialista lembra que os moradores utilizam os rios para atividades cotidianas, como pesca, abastecimento, cultivo e manejo de animais.

Como os jacarés podem atacar por meio de emboscadas, a aproximação da água em locais onde há presença desses animais representa risco.

Adolescente de 14 anos foi atacado

Entre os relatos apresentados pelo produtor rural está o caso de um adolescente de 14 anos atacado por um jacaré na comunidade Arapiri, em Alenquer, enquanto pescava.

Segundo Douglas, o menino passou vários dias internado e recebeu alta hospitalar recentemente. Ele teve a perna amputada.

O biólogo orienta que moradores evitem entrar na água quando identificarem jacarés ou sinais da presença deles nas proximidades. Também recomenda não deixar animais domésticos soltos nas margens de rios e lagos.

Em caso de ataque a um animal de criação, a orientação é não entrar na água para tentar salvá-lo. A tentativa de intervenção pode colocar a pessoa em risco.

Se uma pessoa for atacada, é necessário buscar ajuda imediatamente e acionar os serviços de emergência.

Especialista defende estudo antes de qualquer controle populacional

Diante dos relatos de ataques, o produtor rural defende que o poder público avalie medidas para controlar a quantidade de jacarés na região. Ele considera que a situação causa prejuízos econômicos às famílias que dependem da criação de animais e defende a possibilidade de um projeto que permita o manejo da espécie dentro dos parâmetros legais.

O biólogo explica que qualquer medida de captura, transferência ou controle populacional precisa ser precedida de estudos ambientais e avaliação dos órgãos competentes.

É necessário identificar quantos jacarés existem na região, a quantidade de alimentos disponíveis e se a população da espécie ultrapassa a capacidade de suporte do ambiente.

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Segundo Esrom, a transferência de animais para outras áreas pode ser uma alternativa quando houver comprovação da necessidade e locais adequados para recebê-los. Medidas mais severas, como o abate para controle populacional, também dependem de justificativa técnica e autorização legal.

“Para saber a quantidade de jacarés que existe naquela região, o ideal é fazer um estudo ecológico populacional, verificar a quantidade de indivíduos e se ela está acima da capacidade de suporte”, explicou.

O especialista ressalta que não é possível concluir, apenas pelos relatos de ataques, que existe excesso de jacarés ou que a espécie precisa ser abatida.

Preservação dos peixes também é apontada como medida importante

Para Esrom, a preservação do equilíbrio ambiental passa também pelo respeito ao período de reprodução dos peixes e às regras do defeso.

O biólogo explica que a cadeia alimentar funciona de maneira dinâmica: a disponibilidade de presas influencia diretamente a quantidade de predadores em determinado ambiente.

Quando há redução de peixes, os jacarés podem encontrar dificuldades para conseguir alimento e procurar outras fontes de alimentação.

Por isso, o especialista defende que sejam realizados estudos sobre as condições ambientais da região e ações de preservação das espécies.

Enquanto não há uma avaliação sobre a quantidade de jacarés e as condições dos ambientes onde vivem, a recomendação é que moradores e produtores redobrem os cuidados, evitem áreas com sinais da presença dos animais e acionem os órgãos ambientais quando identificarem jacarés próximos a residências ou locais frequentados por pessoas.

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