O conselho era simples: para viver muitos anos, seria preciso manter o cérebro bem organizado. María Luisa levou a orientação para o trabalho e para a vida pessoal, transformando a atividade intelectual em uma presença constante na rotina.

Nascida em 21 de setembro de 1926, na cidade espanhola de La Coruña, a pesquisadora completou um século em 2026. Em entrevista publicada pelo jornal espanhol ABC Sevilla , em 11 de outubro, ela contou como enxerga a longevidade e quais hábitos acredita terem contribuído para chegar aos 100 anos.

Um conselho recebido há 40 anos acompanhou toda a sua vida

María Luisa não atribui sua longevidade a uma fórmula complicada. Quando questionada sobre o assunto, lembrou imediatamente da conversa com o médico norte-americano, ocorrida quando ela tinha aproximadamente 60 anos.

A recomendação de manter o cérebro organizado encontrou espaço em uma vida já dedicada ao conhecimento. Especialista na literatura do Século de Ouro espanhol, ela construiu uma carreira acadêmica internacional e tornou-se professora emérita de Filologia Hispânica da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

A pesquisadora também foi pioneira no ambiente universitário, tornando-se a primeira mulher a pronunciar uma conferência inaugural em uma universidade espanhola, segundo o jornal francês Linternaute .

Para María Luisa, o trabalho intelectual nunca esteve separado de seus hábitos pessoais. A leitura e a escrita ocuparam boa parte de sua vida, e o interesse pelos livros permaneceu depois do encerramento de sua carreira acadêmica.

Aos 100 anos, ela ainda sabe onde encontrar os livros de sua biblioteca

Durante décadas, a professora reuniu uma biblioteca extensa. Atualmente, conserva apenas uma parte daquela coleção em seu apartamento, no centro de Sevilha, onde vive.

O que chama a atenção não é o tamanho do acervo, mas a familiaridade que mantém com ele. María Luisa conta que sabe exatamente onde estão os livros preservados e continua consultando os exemplares sempre que precisa.

Ler, escrever e pesquisar foram atividades que acompanharam diferentes fases de sua trajetória. Na avaliação da centenária, manter esse contato permanente com o conhecimento ajudou a dar continuidade ao conselho recebido décadas atrás.

Embora a experiência seja individual, ela encontra pontos de contato com estudos sobre envelhecimento. O Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos aponta que atividades intelectualmente estimulantes podem contribuir para a manutenção de capacidades cognitivas na velhice. Entretanto, as evidências não permitem afirmar que essas práticas, isoladamente, garantam a preservação da memória ou uma vida mais longa.

Alimentação natural, pequenas porções e uma taça de vinho branco

Outro hábito mencionado por María Luisa envolve a alimentação. A professora afirma que sempre procurou consumir alimentos naturais, evitando produtos muito processados e refeições excessivamente condimentadas.

Ela não descreve uma dieta restritiva. Sua preferência é por uma alimentação variada, com proteínas de origem animal e vegetal, mas em quantidades moderadas. Comer de tudo, sem grandes excessos, foi uma escolha que procurou manter ao longo dos anos.

Há também uma tradição ligada às suas origens na Galícia: o vinho branco Albariño, característico da região espanhola. María Luisa conta que aprecia a bebida e acredita, por experiência pessoal, que ela possa ter contribuído para sua longevidade.

Atualmente, porém, afirma consumir principalmente água e deixar o vinho para ocasiões especiais, como a comemoração de seu centésimo aniversário.

A percepção da pesquisadora sobre a bebida não representa uma conclusão científica. A Organização Mundial da Saúde alerta que o consumo de álcool apresenta riscos à saúde mesmo em pequenas quantidades. Portanto, a experiência de uma pessoa centenária não comprova que beber vinho favoreça a longevidade.

Conversar todos os dias também faz parte da rotina

María Luisa reconhece que nunca foi especialmente dedicada aos esportes, embora tenha gostado muito de caminhar. Hoje, enfrenta dificuldades de mobilidade, mas continua valorizando uma atividade que sempre esteve presente em sua vida: conversar.

A pesquisadora mantém contato diário com uma sobrinha que mora em Madri. Para ela, preservar as relações sociais é especialmente importante nesta fase da vida, quando a convivência com outras pessoas pode se tornar mais limitada.

Essa valorização dos vínculos também aparece em pesquisas sobre o envelhecimento. Estudos reunidos pelo Instituto Nacional do Envelhecimento associam a participação social à melhor saúde cognitiva, embora essa relação não signifique que conversar diariamente seja suficiente para prevenir o declínio mental.

No caso da professora, as conversas familiares convivem com os livros, as lembranças da carreira e os interesses que preservou ao longo de décadas.

A professora também reconhece o papel da genética na longevidade

Apesar de destacar seus hábitos, María Luisa não acredita que completar 100 anos seja exclusivamente resultado de suas próprias escolhas.

Na entrevista, atribuiu importância à herança genética e à liberdade de pensamento que recebeu dos pais. Ela considera que essas condições também influenciaram sua trajetória, tanto na vida pessoal quanto na carreira acadêmica.

A pesquisadora não apresenta sua experiência como uma receita universal. O envelhecimento depende de uma combinação de fatores, incluindo genética, condições de saúde, ambiente e hábitos desenvolvidos ao longo da vida.

Depois de um século marcado pelos estudos, pela convivência com intelectuais e pelo trabalho universitário, María Luisa continua interessada nos livros que guarda e nas pessoas com quem conversa.

Ao refletir sobre a própria idade, também demonstra bom humor e uma visão bastante prática do futuro. Embora satisfeita por ter chegado aos 100 anos, faz questão de esclarecer que não pretende viver outros cem.

*Imagem ilustrativa criada pelo Tribuna de Jundiaí com auxílio de inteligência artificial e direção criativa da equipe. Reprodução total ou parcial proibida sem autorização.