O período foi marcado pela explosão da inteligência artificial, um dos principais temas da bolsa americana os últimos tempos, pelo crescimento de lucros corporativos e por uma economia americana que mostrou resiliência mesmo diante de juros elevados. Ainda assim, analistas se perguntam: quanto tempo ainda pode durar a euforia?
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Embora Wall Street continue renovando máximas históricas, estrategistas ouvidos pela CNBC apontam que os próximos meses podem representar um teste importante para o mercado. O avanço dos rendimentos dos Treasuries, a postura mais dura do Federal Reserve e a dependência das ações ligadas à inteligência artificial aparecem entre as principais ameaças para o ciclo de alta.
IA: combustível do bull market
O bull market começou oficialmente em outubro de 2022, mas ganhou velocidade após o lançamento do ChatGPT, que desencadeou uma corrida sem precedentes por infraestrutura de inteligência artificial. Empresas de tecnologia anunciaram investimentos bilionários em data centers, semicondutores e capacidade computacional, impulsionando receitas, lucros e expectativas de crescimento.
Nesse cenário, a Nvidia se tornou o grande símbolo da nova era tecnológica. A fabricante de chips, que já era líder em hardware para processamento gráfico, transformou-se na principal fornecedora da revolução da IA e viu seu valor de mercado ultrapassar US$ 5 trilhões. Em 2023, a companhia havia alcançado pela primeira vez a marca de US$ 1 trilhão.
Outras gigantes também foram beneficiadas pela corrida tecnológica. O aumento dos gastos dos chamados hyperscalers, grandes empresas de computação em nuvem, impulsionou toda a cadeia ligada à expansão da inteligência artificial.
Os investimentos em IA ajudaram a acelerar o crescimento dos lucros corporativos e contribuíram para manter a economia americana em expansão, criando as bases para a atual valorização do mercado.
Entre os melhores da história
Os números ajudam a explicar por que o atual ciclo já entrou para os livros de história de Wall Street. Dados citados pela Reuters mostram que o ganho acumulado de 117% desde 2022 torna este o sexto bull market mais rentável desde a Segunda Guerra Mundial. Em termos de duração, trata-se do oitavo mercado de alta mais longo do período.
Para Ryan Detrick, estrategista da Carson Group citado pela Reuters, o atual ciclo pode ser considerado “de meia-idade”, distante dos recordes de longevidade observados em outros momentos do mercado americano.
Essa visão é compartilhada por outros especialistas. Mark Hackett, estrategista-chefe da Nationwide, afirmou à Reuters que quatro anos de duração não representam, por si só, um motivo para preocupação.
A frase usada pelo estrategista resume bem o sentimento predominante entre profissionais de mercado: os bull markets não morrem de velhice, mas de doença.
Levantamento citado pelo Motley Fool mostra que cinco dos seis bull markets que atingiram a marca de quatro anos desde 1957 conseguiram avançar até o quinto aniversário. Em vários episódios, o mercado continuou acumulando retornos significativos muito além desse período.
O ciclo iniciado em 1987, por exemplo, sobreviveu mais de 12 anos até o estouro da bolha da internet. Já o mercado de alta iniciado após a crise financeira de 2008 durou quase 11 anos antes de ser interrompido pela pandemia de Covid-19.
Os sinais de alerta
Apesar do histórico favorável, os riscos aumentaram nos últimos meses, em especial no mercado de renda fixa nos EUA. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano voltaram a subir em 2026, refletindo uma combinação de crescimento econômico resiliente, preocupações inflacionárias e expectativas de manutenção dos juros em níveis elevados por mais tempo.
Quando os rendimentos dos Treasuries sobem, as ações tendem a perder parte de sua atratividade relativa. Além disso, empresas de crescimento costumam ser as mais afetadas porque dependem de fluxos de caixa futuros mais distantes, que passam a valer menos quando as taxas de desconto aumentam.
A preocupação ganha importância justamente porque as ações mais relevantes do índice hoje pertencem ao setor de tecnologia.
Segundo a CNBC, as empresas de tecnologia representam cerca de 40% do peso do S&P 500. Isso significa que qualquer desaceleração relevante do segmento tem potencial para impactar de forma significativa o comportamento do índice como um todo.
Outro fator observado de perto pelos analistas é a concentração dos ganhos. Embora os índices estejam próximos dos recordes históricos, a participação das demais empresas no movimento de alta tem diminuído.
Em setembro, aproximadamente 75% das companhias do S&P 500 encerraram o mês no vermelho, enquanto investidores concentraram recursos em um grupo reduzido de gigantes de tecnologia. Esse fenômeno costuma ser chamado de deterioração da amplitude de mercado.
Historicamente, os ciclos de alta mais saudáveis costumam apresentar participação ampla de setores e empresas diferentes. Quando apenas um pequeno grupo de ações continua sustentando os índices, aumenta o risco de correções caso as líderes decepcionem.
Se a inteligência artificial foi a grande responsável por impulsionar o mercado nos últimos quatro anos, ela também pode acabar se tornando seu principal ponto de vulnerabilidade. A preocupação está relacionada aos níveis recordes de investimento anunciados pelas grandes empresas de tecnologia.
Segundo Anthony Saglimbene, estrategista-chefe da Ameriprise citado pela Reuters, a parte mais fácil da tese de IA já foi capturada pelo mercado. Agora, investidores exigirão provas concretas de que os gastos bilionários realizados atualmente serão transformados em receitas e lucros sustentáveis no futuro.
As empresas terão que demonstrar retorno financeiro sobre os investimentos em data centers, chips avançados e infraestrutura computacional. Qualquer sinal de desaceleração da demanda ou de rentabilidade abaixo das expectativas pode provocar reavaliações expressivas nas ações do setor.
Ainda há motivos para otimismo?
Apesar dos alertas, a visão predominante em Wall Street continua relativamente positiva. A Reuters destaca que o crescimento dos lucros corporativos segue robusto, impulsionado pelo ciclo de investimentos em inteligência artificial e por uma economia que continua gerando atividade e consumo.
Já o Motley Fool observa que as projeções de lucro para as empresas do S&P 500 permanecem fortes, ajudando a sustentar as avaliações do mercado mesmo após anos de valorização.
Além disso, a própria história sugere cautela antes de apostar prematuramente no fim do ciclo. Os mercados de alta mais duradouros costumam passar por períodos de volatilidade e correções intermediárias sem necessariamente encerrar a tendência principal.
Por enquanto, o diagnóstico de muitos estrategistas é de que o bull market continua saudável, ainda que em uma fase mais madura e exigente. Quatro anos após o fundo de 2022, a inteligência artificial segue no centro da narrativa de Wall Street.
A diferença é que, daqui para frente, o mercado precisará de algo além do entusiasmo. Para chegar ao quinto aniversário, os lucros terão de acompanhar as promessas, os juros não poderão subir muito mais e a alta precisará alcançar um número maior de empresas.
Se esses ingredientes se confirmarem, o atual bull market ainda pode ter alguns capítulos pela frente. Caso contrário, os mesmos fatores que impulsionaram a festa poderão acabar encerrando a comemoração.
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