A mobilização começou com reivindicações sobre as condições de ensino, passou a atrair universitários, sindicatos e, agora, pode ter conseguido resgatar os antigos integrantes dos coletes amarelos, movimento que levou milhares de pessoas às ruas do país em 2018 e 2019.
A aproximação está no centro da convocação para este sábado (17), quando manifestações estão previstas em diversas regiões francesas . A articulação ganhou força nas redes sociais, mas ainda há dúvidas sobre a capacidade de transformar a mobilização digital em participação efetiva nas ruas e sobre o grau de coordenação entre os diferentes grupos.
O movimento estudantil começou em meados de setembro, com reclamações sobre a infraestrutura das escolas, a falta de professores, as salas superlotadas e os horários de aula. Também estão entre as críticas o Parcoursup, plataforma utilizada para organizar o ingresso no ensino superior francês, e as dificuldades enfrentadas pelos estudantes na transição para a universidade.
Com a expansão dos atos, a atuação policial passou a ocupar espaço crescente nas reivindicações. Imagens de adolescentes feridos circularam nas redes sociais, ampliando a contestação à resposta das autoridades. Em Lens, um estudante de 15 anos perdeu uma mão após ser atingido por uma granada de efeito atordoante, caso que levou o governo a proibir o uso de equipamentos policiais nas manifestações.
(Foto: Abdul Saboor / Reuters)
De reivindicações escolares a uma mobilização nacional
Com a escalada dos conflitos e o tamanho crescente das manifestações, a pauta deixou de se limitar à educação. Estudantes universitários, professores, pais, sindicatos e representantes políticos passaram a apoiar ou participar dos protestos, que incorporaram temas como desigualdade social, custo de vida, meio ambiente e participação política.
A mobilização ganhou força em plataformas digitais, especialmente no TikTok. Segundo o Le Monde , dados da empresa de monitoramento Visibrain apontavam quase 460 mil publicações relacionadas aos protestos de 17 de outubro desde 27 de setembro. O pico ocorreu em 11 de outubro, quando foram registradas cerca de 65 mil publicações em um único dia.
A convocação para a data, no entanto, não nasceu dentro do movimento estudantil. Em setembro, vídeos começaram a circular com chamados para protestos contra os preços dos combustíveis em 17 de outubro. A iniciativa foi associada aos coletes amarelos, mas, segundo o Le Monde , os primeiros chamados não haviam sido lançados por uma organização nacional reconhecida do movimento histórico.
A adesão posterior de estudantes e de antigos ativistas ajudou a dar visibilidade à data. As redes passaram a conectar duas insatisfações que, embora diferentes na origem, compartilham críticas ao custo de vida e à resposta do poder público.
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Quem foram os coletes amarelos
Os Gilets Jaunes , ou coletes amarelos, foram um movimento de protesto surgido em novembro de 2018. O nome faz referência aos coletes de alta visibilidade usados por motoristas, que se tornaram um símbolo dos atos.
O estopim foi a insatisfação com o aumento da tributação dos combustíveis, em um contexto de alta dos preços nas bombas. A mobilização rapidamente incorporou outras críticas, como o custo de vida, a injustiça fiscal, a perda de serviços públicos em áreas periféricas e rurais e a percepção de que o governo não ouvia parte da população.
A primeira grande jornada ocorreu em 17 de novembro de 2018. Organizados em grande medida pelas redes sociais, os manifestantes bloquearam estradas, rotatórias e áreas comerciais. Os atos também chegaram aos centros das grandes cidades e se repetiram aos sábados durante meses, embora tenham perdido intensidade a partir de 2019.
O movimento não tinha uma liderança única nem se limitava a uma organização política. Reuniu pessoas com diferentes orientações em torno de queixas econômicas e da percepção de desigualdade. Também foi marcado por episódios de violência e depredação, que influenciaram a resposta das autoridades e a imagem pública dos protestos.
(Foto: Abdul Saboor / Reuters)
A mobilização atual tem pontos de contato com aquele movimento, sobretudo no peso das reivindicações econômicas, no uso das redes sociais e na possibilidade de ações fora das estruturas tradicionais de partidos e sindicatos.
As similaridades levaram justamente a atualização da expressão de Gilets Jaunes para Gilets Jeunes , trocando a letra “a” pela “e”, o que em francês transforma a palavra “amarelo” em “juventude”. Assim, os agora “coletes jovens”, passaram a simbolizar a aproximação entre estudantes e antigos apoiadores dos coletes amarelos. A proposta é conectar as reivindicações sobre as condições de ensino à insatisfação econômica que marcou os protestos de 2018.
Segundo o Le Monde , antigos ativistas como Maxime Nicolle e Jérôme Rodrigues, inicialmente cautelosos em relação à convocação, passaram a manifestar apoio à mobilização. A Confederação Geral do Trabalho (CGT), um dos principais sindicatos franceses, também aderiu à iniciativa, sinalizando que a articulação pode continuar depois de 17 de outubro.
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